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Assim, não vale!

PSD e CDS, muito (in)coerentemente, chumbaram, na República, exatamente aquilo que clamam, alto e bom som, nos Açores.

Ora então, vamos lá ver se nos entendemos: um Partido político, qualquer que ele seja, não pode – em nome da coerência e da transparência que deve a todos/as os/as eleitores/as – dizer e defender, aqui, uma coisa e outra (oposta ou quase), a menos de dois mil quilómetros de distância. E mesmo que a Região Autónoma dos Açores tenha especificidades muito singulares – desde logo, órgãos de governo próprio, bem como características únicas -, tal não significa que a linha de rumo e a ideologia partidária mude, ao sabor das coordenadas geográficas.

Dito de outra maneira: ser social democrata ou democrata cristão, nos Açores e neoliberal ou liberalíssimo, no continente, pode dar muito jeito mas, politicamente falando, chama-se ‘oportunismo’... e é muito feio.

Vem isto a propósito de um episódio extraordinário, recentemente protagonizado pelo PSD e o CDS, ambos primeiro, com A (de Açores) e, depois, sem o dito (nacional).

É, hoje, claro como água – e, por isso mesmo, partidariamente consensual – que o fim das quotas leiteiras representa a abertura total do mercado do leite e seus derivados a uma lógica de mercado aberto, onde as explorações de maior escala, menos custos de contexto e maior proximidade dos mercados finais vão triunfar e, por consequência, arrasar com as pequenas explorações. Como é óbvio, os Açores, sem medidas de proteção excecionais, vão ser altamente penalizados, apesar da maior qualidade do seu leite.

Razões de sobra para o PSD/A ter apresentado (e bem), no Parlamento Regional, no mês passado, uma iniciativa legislativa que mereceu aprovação unânime, com o objetivo último de propor que a União Europeia crie formas de compensar futuros prejuízos dos agricultores açorianos, decorrentes da extinção das quotas leiteiras.

Ora, quase simultaneamente, o Bloco de Esquerda apresentou, na Assembleia da República, iniciativas legislativas, especificamente destinadas aos Açores (além de outras, de âmbito nacional), reclamando a necessidade das instituições europeias criarem formas de apoio aos produtores que teimem em lutar pela defesa do mercado do leite e dos laticínios. Ao mesmo tempo, recomendávamos ao Governo da República que, em parceria com o Governo Regional e no respeito pela Autonomia, procedesse à vigilância dos preços pagos ao produtor e criasse apoios que facilitassem a manutenção das explorações leiteiras.

Até aqui, tudo bem. Estando (como estamos) todos de acordo e unidos (?), na defesa da nossa economia e na urgência de defender este sector produtivo de uma bem possível falência, todos os contributos são bem vindos, independentemente dos partidos e dos locais onde os propõe. Certo?

Não! Erradíssimo! PSD e CDS, muito (in)coerentemente, chumbaram, na República, exatamente aquilo que clamam, alto e bom som, nos Açores. Foram, aliás, os únicos partidos que entenderam votar contra as referidas iniciativas do Bloco de Esquerda... vá-se lá saber porquê.

Assim, até me fizeram lembrar o Partido Socialista, na Assembleia Legislativa dos Açores: umas vezes, vota contra iniciativas de outros partidos, porque já está a fazer o que estes propõem. Outras vezes, vota a favor, precisamente pela mesma razão.

Ai, Portugal, Portugal! – como diria Jorge Palma.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
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