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Prebuild: empresa é “tsunami português” na Colômbia

Imobiliária colombiana anuncia a liquidação dos negócios com o grupo português Prebuild, acusando-o de não honrar contratos de construção e arrendamento. Grupo chegou à Colômbia com viagem oficial de Cavaco Silva e é dirigido localmente por um ex-diretor da sua campanha presidencial para a juventude. O dono real do grupo será o general angolano “Kopelipa”. Por Jorge Costa e Luis Leiria.
Pedro David, presidente da Prebuild-Colômbia, ao lado do Ministro do Comércio, Indústria e Turismo colombiano e a presidente da Proexport
Pedro David, presidente da Prebuild-Colômbia, ao lado do Ministro do Comércio, Indústria e Turismo colombiano e a presidente da Proexport

 Numa entrevista ao Jornal de Negócios em novembro passado, o empresário João Gama Leão, presidente da Prebuild, afirmava que o futuro do grupo empresarial português passava pela Colômbia, Brasil e Angola (por esta ordem). E anunciava que no primeiro semestre de 2015 arrancaria naquele país latino-americano um complexo de seis fábricas.

O semestre ainda não chegou ao fim mas as perspetivas da Prebuild em terras colombianas não parecem apontar para o futuro radioso que antevia o seu presidente. Muito pelo contrário. Nesta quarta-feira, o fundo de investimento colombiano Terranum anunciou a rutura com o grupo português: “A decisão de liquidar os nossos negócios com a Prebuild deve-se a que houve um repetido incumprimento, pois estavam vigentes dois contratos de obras e três de arrendamento e em todos há atrasos, apesar de nós termos cumprido a nossa parte”, afirmou ao La República o novo presidente da Terranum, Alfredo Rizo. Numa nota oficial, publicada no El Espectador, a empresa colombiana diz que “deu instruções aos seus assessores legais para tomarem todas as medidas que resultem pertinentes em cada um dos contratos firmados com o grupo português”.

A decisão de liquidar os nossos negócios com a Prebuild deve-se a que houve um repetido incumprimento, diz a empresa colombiana

Um artigo publicado no site da W Radio, do grupo Prisa (o mesmo do diário espanhol El País) não poupa palavras: sob o título “O tsunami português que atinge a Colômbia”, afirma que João Gama Leão protagoniza um “escândalo colossal”, envolvendo uns 250 milhões de dólares, que faz tremer “os alicerces de uma das mais reputadas firmas imobiliárias da Colômbia”, envolvendo ao mais alto nível “políticos de Portugal, Angola e Colômbia”.

Antes de rebentar o escândalo Terranum, já se acumulavam as denúncias de fornecedores da Plenty, grande superfície de acessórios para o lar que tinha a ambição de abrir meia centena de lojas em toda a Colômbia, representando uma diversificação dos negócios da Prebuild. As queixas vão desde os que dizem abertamente ter sido burlados, até aos que denunciam que “os empresários portugueses se endividaram em várias centenas de milhões e, palavras mais, palavras menos, tinham decidido não pagar”, publica o El Espectador.

O escândalo já custou o cargo ao presidente e fundador da Terranum, José Ignacio Robledo, que anunciou “um ano sabático” mas de facto terá sido afastado por se ter deixado envolver por Gama Leão.

Pelas mãos de Cavaco Silva

Durante anos, a Prebuild foi apontada como um caso de sucesso em tempos difíceis.

Em abril de 2013, o próprio presidente da República da Colômbia, Juan Manuel Santos, anunciou através do twitter que o grupo Prebuild iria criar 1.500 empregos no município de Gachancipá, a 30 km de Bogotá, relata a W Rádio. O anúncio seguiu-se a um encontro entre empresários portugueses e colombianos no clube El Nogal, durante a visita oficial do presidente Cavaco Silva à Colômbia.

“No discurso conjunto com Cavaco”, relatou na época o Público, Juan Manuel Santos “enumerou alguns investimentos portugueses de sucesso no seu país, como é o caso dos grupos Jerónimo Martins (supermercados), Prebuild (construção) e Pestana (hotéis)”.

O presidente da Prebuild na Colômbia, Pedro David, foi diretor da campanha presidencial de Cavaco Silva para a juventude.

O presidente da Prebuild na Colômbia, Pedro David, é um jovem gestor que dirigiu a expansão internacional da Jerónimo Martins, como regista o livro “Os Donos Angolanos de Portugal”, que aponta outro dado importante do seu currículo: em 2011, foi diretor da campanha presidencial de Cavaco Silva para a juventude. Além disso, o seu pai é o eurodeputado Mário David, veterano de gabinetes ministeriais do PSD, e um dos portugueses com acesso à palavra no Congresso do MPLA em 2009. Pouco conhecido do eleitorado, Mário David recebeu a Grã Cruz da Ordem de São Carlos da Colômbia, condecoração atribuída pelo Presidente da República pelo seu papel, enquanto deputado ao Parlamento Europeu, onde foi relator responsável pelo Acordo Comercial entre a União Europeia e a Colômbia.

O único sócio da Prebuild que a imprensa conhece é João Gama Leão, comprador de novas empresas e investidor de centenas de milhões de euros, “não se conhecendo a origem de tal fortuna”, afirma “Os Donos Angolanos...”. Em entrevista ao Jornal de Negócios Gama Leão “assume que o grupo conta com um acionista angolano que 'prefere não identificar' e cuja quota não revela”.

O verdadeiro dono será “Kopelipa”

O sócio misterioso não será outro senão o general Manuel Hélder Vieira Dias, “Kopelipa”, chefe da Casa Militar da Presidência de Angola, sendo Gama Leão apenas o seu testa de ferro, afirmava já em 2013 o site Clube-K. “Que obras existem em Angola, realizadas pelo grupo [Prebuild], que justificam tantos lucros?”, questionava o artigo do site informativo angolano, que ironizava: “o Club-K lança um concurso público para a identificação das suas obras em Angola e o que foi vendido, para render tanto dinheiro!”. E concluiu: “Tudo dinheiro de Angola, de saque e outras manigâncias obscuras que, com urgência, necessitam de passar por uma lavandaria”, observando que “também não é alheia a abertura de um escritório no Qatar, no edifício do Banco Espírito Santo, para venda de diamantes. O Qatar tornou-se numa das principais bolsas de diamantes do mundo e Angola tem bastante para traficar”. O artigo sublinha ainda que o general Kopelipa “há anos que é sócio em projetos diamantíferos em Angola e tem todo o poder para garantir o sucesso de mais esta empreitada”.

O testa de ferro da Prebuild, João Gama Leão, passou a desfilar pelos círculos do poder em Portugal gabando-se como o 'Sr. Angola'.

O artigo do Clube-K é implacável em relação ao presidente da Prebuild: “Instruído pelo novo riquismo, com uma fortuna amealhada da noite para o dia e sem explicação plausível, o testa de ferro da Prebuild, João Gama Leão, passou a desfilar pelos círculos do poder em Portugal, gabando-se como o 'Sr. Angola'. Contrariamente ao esperado, a exibição de um luxo desmedido, entre os quais um dos iates mais luxuosos, ancorados no Algarve, avião privado, quatro Ferraris e quejandos, conferiu-lhe uma reputação nada invejável: a do 'pacóvio dos quatro Ferraris'”.

Que futuro?

Com a Plenty à beira da falência e o grande complexo industrial de Gachancipá em situação incerta, não se sabe qual o futuro da Prebuild na Colômbia. A Terranum fez questão de desmentir que seja sócia do parque industrial de 29 hectares – o equivalente a 29 campos de futebol, dizia Gama Leão – afirmando que apenas a ligam à Prebuild os citados contratos.

“A Terranum não é investidora da Prebuild, nem a Prebuild da Terranum”, afirma a nota oficial da empresa colombiana.

Numa nota da Prebuild da Colômbia, a que o site Dinheiro Vivo teve acesso, a empresa “regista com grande tristeza as tentativas de difamação em grande escala” e garante que “o poder económico e financeiro pode proporcionar o controlo dos media mas não compra a verdade”.

A Prebuild afirma que “não permitirá ser utilizada como arma para guerras internas de um grupo económico ou para justificar incompetências alheias”

A empresa, porém, reconhece que "são conhecidas e assumidas as dificuldades que um projeto desta dimensão sempre acarreta e a Prebuild não é exceção". Mas afirma que “não permitirá ser utilizada como arma para guerras internas de um grupo económico ou para justificar incompetências alheias” e assegura que “não deixará de usar todos os meios legais à sua disposição para repor a verdade dos factos nem deixará de proceder judicialmente contra os autores da presente campanha difamatória”.

O futuro da Prebuild, que passava pela Colômbia, parece estar em maus lençóis.

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