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Não deixamos que nos mandem espremer as mamas

Nos direitos do trabalho, nos salários, na progressão na carreira, há ainda um longo caminho a percorrer. Entretanto, é necessário proteger direitos conquistados e denunciar fortemente o seu ataque feroz, a que assistimos. É importante não deixar, mesmo, que nos mandem espremer as mamas.

Na semana passada duas enfermeiras de dois hospitais no Porto foram chamadas para espremer as mamas, frente a médicos de saúde ocupacional, para provar que estavam a amamentar os seus bebés. O caso causou perplexidade, indignou muita gente, e levou a um pedido de desculpas, mas deixa um rasto que nos interpela a todos, porque é sintoma da pressão conservadora que existe para a diminuição dos direitos das mulheres. Há mulheres humilhadas para provarem que afinal estão apenas a usar um direito consagrado: o direito das mães a amamentar os seus filhos, a cuidar deles, e com isso a ter um horário de trabalho reduzido, ou condições facilitadas no local de trabalho, para possibilitar a amamentação. Um dos eixos recentes da propaganda deste Governo tem sido o da natalidade. Constituíram-se grupos de trabalho e as comissões parlamentares foram pródigas em audições para se chegar a propostas com a pretensão de alterar o rumo na quebra acentuada dos nascimentos em Portugal nos últimos anos. A natalidade e a maternidade carecem, no entanto, para serem apoiadas, ou meramente para que possam gozar de direitos, de fiscalização, de prova provada, que pelos vistos passa pela vergonha de submeter mulheres à humilhação de espremerem as suas mamas, para provar que alimentam os seus filhos.

A revista “Visão” desta semana tem como tema de capa “A vantagem de contratar mulheres. E de as promover a cargos de chefia. Os resultados comprovam: a aposta na liderança feminina é uma mais-valia. Porque tarda então a igualdade?” Igualdade de género no acesso ao trabalho. É disto que se trata neste artigo. E se as vantagens em contratar mulheres, e o efeito que as suas lideranças têm no sucesso das empresas, nos são amplamente fundamentadas e desenvolvidas, o certo é que objetivo a que Portugal se propõe no espaço de três anos - ter 30 por cento de mulheres nas administrações das empresas - é muito recuado e nada ambicioso.

Igualdade de género no acesso ao trabalho, nos cargos de chefia, nas administrações. Totalmente de acordo. Todas nós já nos habituámos a ouvir dizer, sempre com uma grande dose de paternalismo, como as mulheres são multifacetadas, flexíveis e capazes de acumular tarefas e desempenhá-las todas na perfeição. Sempre que oiço isto, os elogios à “mulher-perfeita-multitarefas”, vem-me à imagem uma “mulher-eletrodoméstico” que não avaria. Esses mesmos que, ironicamente foram concebidos para “libertar” a “mulher moderna” das difíceis e morosas tarefas do lar, e a tornar mais independente.

O problema destes aparentes elogios é que, no fundo, acabam por nos colocar numa situação de desigualdade permanente. Para alcançarem o mesmo que os homens – seja salário, carreira ou prestigio – às mulheres é exigido que sejam super-mulheres. Que se dediquem mais, que trabalhem mais horas, que acumulem mais tarefas, já que “o sabem fazer tão bem”.

Igualdade. Toda. Mas condições especiais para quem está em situação especial como a amamentação, por exemplo. Sempre, nisso não se cede. Será assim tão difícil perceber o conceito de igualdade na diferença? É ter as mesmas condições, oportunidades, as mesmas exigências por parte de uma sociedade que é machista, patriarcal e segregadora das mulheres. Nem menos, nem mais. Mas com alguns direitos especiais, que fazem parte da condição de ser mulher. Todas têm o direito óbvio à ambição, a evoluírem, a crescer, a alcançar o topo. E expectativas iguais, daquelas que não nos cortam as pernas, que não nos diminuem, e sob a imagem de elogios, no fundo nos estigmatizam.

O relatório da ONU “Progresso das mulheres no mundo 2015-2016: transformar as economias para realizar os direitos”, divulgado a semana passada, constata que, em média, os salários das mulheres são 24 por cento inferiores aos dos homens, para desempenhar o mesmo tipo de trabalho. O estudo mostra que 50 por cento das mulheres com idade para trabalhar fazem há parte da população ativa. No caso dos homens o índice é de 77 por cento.

Nos direitos do trabalho, nos salários, na progressão na carreira, há ainda um longo caminho a percorrer. Entretanto, é necessário proteger direitos conquistados e denunciar fortemente o seu ataque feroz, a que assistimos. É importante não deixar, mesmo, que nos mandem espremer as mamas.

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