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Inaugurado no Porto o Espaço Miguel Portas

Nova instalação cultural na capital do Norte será um local de debate, de encontros políticos e ativistas, de convívio, de intervenção artística e de partilhas. O espaço foi inaugurado neste espírito, que era o estilo do Miguel.
André Portas evoca o pai, tendo ao lado João Semedo e Alda Sousa. Foto de Renato Roque
André Portas evoca o pai, tendo ao lado João Semedo e Alda Sousa. Foto de Renato Roque

Os organizadores tentaram fazer uma inauguração ao estilo do Miguel. Por isso, a abertura do novo espaço de debate, de encontros políticos e ativistas, de convívio, de intervenção artística e de partilhas, contou com intervenções políticas – pois claro! – mas também com música, poesia, performance, um jantar convívio e também com dança animada por um DJ até às 4 da manhã – e como o Miguel gostava de dançar! Foi assim na Rua Álvares Cabral, nº 79, neste 1º de Maio, o dia em que o Miguel Portas faria 57 anos.

Os discursos foram muitos, mas é injusto usar esse termo. Foram, melhor que discursos, falas que evocaram o amigo querido, lembrando histórias, episódios que serviram para dar mais saudades, mas também para recordar uma pessoa especial.

O cosmopolita

Alda Sousa, por exemplo, lembrou quando o Miguel desembarcou no Porto, nas eleições de 1999, para disputar as Legislativas como cabeça de lista por aquele círculo eleitoral. O cosmopolita Miguel Portas foi muito bem acolhido pela cidade, recordou Alda Sousa, e anos depois as pessoas do Porto, na rua, ainda tratavam o Miguel por tu. Num momento em que o recém-nascido Bloco tinha uma estrutura provisória, o Miguel lançou-se, coma paixão de sempre, a fazer uma campanha onde privilegiava a abertura. Contou com o apoio de figuras como o escritor Manuel António Pina, ou a participação na campanha de Maria de Lurdes Pintassilgo nas conversas de café no tradicional Piolho. “Foram as eleições em que pela primeira vez enchemos o cinema Batalha e que cantámos 'A Liberdade está a passar por aqui', que abriu portas e espaço político para os anos seguintes”, recorda Alda Sousa, que lembra ainda das “fúrias antológicas” do Miguel quando algo corria mal e zangava-se a sério. “Mas tinha a humildade rara de, a maior parte das vezes, reconhecer a sua quota parte de responsabilidade e de procurar, à sua maneira, pedir desculpa”.

José Castro evocou também episódios do Miguel e do seu bom acolhimento no Porto.

Plataforma de Esquerda

João Semedo evocou tempos anteriores, quando o Miguel participou da Plataforma de Esquerda, que divergiu da linha do PCP, recordando que já nessa altura ele era avesso a pôr o dogmatismo em tudo. Mas isso não queria dizer que não houvesse limites. O Miguel também tinha as suas linhas vermelhas, porque sabia o queria, e quando a maioria dos integrantes da Plataforma decidiram integrar o PS, não os acompanhou e lutou para formar um grupo que não seguisse esse caminho, justamente porque achava que o combate era por formar uma linha e uma alternativa de esquerda, que não passava pelo PS.

Muito, muito dinheiro”

André Portas, o filho mais velho, veio falar com uma cábula escrita num guardanapo de papel, e recordou uma história engraçada que envolveu algo semelhante. Numa campanha (quando obteve o segundo mandato do eurodeputado), o Miguel falava sistematicamente da crise financeira, apoiado numa apresentação informática, mas nos discursos de rua esquecia-se muitas vezes dos números e por isso resolveu levar cábulas de papel para evitar os apuros. Um dia, num discurso à porta de uma fábrica, mais uma vez esqueceu-se do número, procurou o papel e não o encontrou, e emendou com rapidez: “foi muito, muito dinheiro!”

André Portas, em nome também do avô, Nuno Portas, disse estar muito sensibilizado por aquele novo espaço onde identificou o espírito do pai, de centrar-se em juntar pessoas em torno de objetivos.

Um espaço de de debate, de encontros políticos e ativistas, de convívio, de intervenção artística e de partilhas.


Alargar fronteiras

Marisa Matias recordou o Miguel eurodeputado, que alargou aquilo que habitualmente se via como as fronteiras da Europa e aparecia nos sítios mais difíceis: no Líbano em plena guerra, ou em Gaza. Decididamente, o Miguel não poderia ser um deputado fechado em gabinetes.

Renato Soeiro apresentou uma pequena coleção de histórias (estórias) do Miguel, e destacou que o amigo tinha uma combinação muito particular de virtudes e defeitos; mas os defeitos eram tão visíveis que acabavam por dar confiança às pessoas que com ele mais conviviam.

Ainda há espaço para o europeísmo de esquerda?

José Manuel Pureza recordou que o Miguel sonhou o 'europeísmo de esquerda', como nome da Europa dos movimentos, dos fóruns sociais, dos direitos dos migrantes, das contestações à guerra. “Desde então a relação de forças na UE não parou de se degradar contra esse sonho”, disse, apontando que hoje, a deriva autoritária e punitiva é de enorme dimensão. “Como eu gostava de conversar com o Miguel para que ele me dissesse se ainda há espaço para o europeísmo de esquerda tal como ele o sonhou e que espaço é hoje esse...”, afirmou.

Mas Pureza mostrou-se convicto de que qualquer que fosse esse espaço, o Miguel Portas continuaria a pensar a Europa de pernas para o ar. “Daria às instituições apenas a importância de elas serem tribunas e sítios de confronto. Juntaria movimentos, vozes, textos, manifestos, gente. E continuaria a construir um mosaico de propostas de emancipação para as pessoas da Europa”.

Música, poesia, dança

Para além das intervenções, houve jantar de convívio, com cerca de cem pessoas, poesia com Ana Afonso, Ana Rodrigues e Francisca Bartilotti, que apresentaram uma performance de música e palavras; o ator Nuno Meireles leu o texto do Miguel Revolução: Testemunho; houve música de Fernando Lacerda, acompanhado de Ernesto Magalhães, e finalmente música para dançar pelo DJ Luís Varatojo.

O espaço Miguel Portas já tem uma programação intensa, mas estará aberto a grupos culturais que precisem de espaço para apresentar as suas realizações.   

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