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1º de Maio: Várias gerações unidas na luta por melhores condições de vida

O Esquerda.net esteve na manifestação da CGTP em Lisboa e falou com alguns homens e mulheres dispostos a combater a estratégia de destruição de direitos laborais levada a cabo pelo atual governo. Por Pedro Ferreira.
35 horas de trabalho para haver mais emprego. Foto de Eduardo Rocha
35 horas de trabalho para haver mais emprego. Foto de Eduardo Rocha

Para alguns, é um dos feriados mais importante do ano. Há ainda quem se lembre do tempo em que era proibido qualquer festejo alusivo ao 1º de Maio. Hoje sentem-se de novo ameaçados. Mas não desistem de reivindicar os seus direitos. Alguns já perderam o seu posto de trabalho e há ainda quem não tenha conseguido ser trabalhador/a. Sabem, no entanto, que se estiverem unidos terão mais força. Por isso, estiveram de novo nas ruas de Lisboa para exigir salários dignos e empregos.

Os patrões é que deviam ter medo de nós

Isto anda tudo ao contrário. Uma pessoa vai para o emprego com medo. Devia ser ao contrário porque eles (os patrões) é que precisam de nós. Há dias um dos diretores da empresa onde trabalho virou-se para um colega meu e disse-lhe: “você cale-se porque senão vai já para a fila do centro de emprego.” E sabe porquê? Porque o rapaz pediu para sair mais cedo porque queria ir com o filho ao médico que tem uma doença complicada. Ele não deixou e ainda ameaçou o rapaz. Fiquei com um nó na garganta porque só me apetecia dizer-lhe que antes de falar devia lembrar-se que nunca nos paga a horas. Fazem o que querem e nós ficamos sempre calados. Os sindicatos deviam apoiar-nos mais, mas também não podem, não é? É preciso levantar esta gente toda outra vez. Afinal, nós somos a maioria. (M.,57 anos, empregado de escritório)

Sou deficiente, não sou anormal

Já não sei quantos currículos enviei. Mas foram muitos. A minha deficiência impede-me de exercer determinados lugares mas não faz de mim um incapaz. Procuro trabalho como administrativo ou telefonista e já fui a todo o lado. Ainda só consegui trabalhar a contrato durante 6 meses no escritório de uma fábrica. Estou muito desiludido por viver com a minha mãe aos 36 anos. Isto não faz sentido. Há uns meses fui ao Instituto de Emprego falar como uma técnica. E ela só me disse: “O que é que quer? Se nem trabalho há para pessoas normais…”. Senti-me ofendido porque não sou anormal. Um amigo disse-me para apresentar queixa mas eu nem o fiz. Para quê? Não quero viver de subsídios. Quero trabalhar. Tenho esse direito. (Carlos Martins, desempregado, deficiente motor)

Uma pessoa pensa em tudo…até no pior

Nunca fui rica mas tive sempre o essencial. Casei, tive dois filhos e esperava agora poder ajudá-los a encontrar o seu caminho. Mas aconteceu o que temia há algum tempo. Eu e as minhas colegas. Estou na mobilidade há 4 meses. E não sei o que o que fazer. O meu marido também anda com problemas lá no trabalho. É muito triste dizerem-nos que somos dispensáveis. Sobretudo quando sabemos que não é verdade. Na vida devia haver lugar para toda a gente. Tenho dias em que penso em tudo…até no pior. O meu filho acaba este ano o 12º ano. É bom aluno e quer continuar a estudar. Mas não sei se tenho possibilidades. Vivo triste e revoltada com este governo que me enganou. Votei neles, imagine. Estou numa manifestação pela primeira vez. É bom ver esta gente toda e sentir que ainda há energia e vontade para mudar isto. Se não for para nós, que seja para os nossos filhos. (Maria Teresa, 47 anos, funcionária pública)

Trabalhadora? O que é isso?

Se calhar não devia ser irónica mas quando me falam na classe trabalhadora digo sempre que não sei o que é isso. Estive durante algum tempo num café de uma prima que entretanto fechou. Estou inscrita no centro de emprego mas nunca me chamaram para nada. Envio currículos e não me respondem. Uma vez chamaram-me para fazer um estágio sem remuneração. Disse que não. Não gosto muito de manifestações. E de política ainda menos porque é um mundo de mentiras e hipocrisia. Mas se não houver solidariedade entre as pessoas eles dão cabo de nós. Já o estão a fazer. (Marta Delgado, 28 anos, à procura do primeiro emprego)

Nunca vi nada assim

Tenho 55 anos e nunca esperei ver o que se passa hoje. As pessoas em vez de estarem solidárias estão cada vez mais egoístas para ver se escapam a isto. O governo mente todos os dias com estatísticas que não correspondem à realidade. Os chefes perseguem-nos porque têm medo de perder o lugar e não se importam de ser lacaios dos tipos que estão lá em cima. Os delegados sindicais são perseguidos e se possível atirados para uma prateleira. No meu local de trabalho, os processos de chantagem são diários. Se fazem alguma coisa que não lhes agrada lá vem a história do costume, ou seja, tem cuidado, não queiras ser mais um deles (desempregado). Votei sempre no PSD mas desta vez sinto-me enganado e defraudado. Há dias um amigo começou-se a rir quando soube que eu vinha à manifestação da CGTP. Mas é aqui que está a maioria dos trabalhadores e a força da sua luta. Isto não está para piqueniques. Para já, só tenho a certeza de que nunca mais na vida voltarei a votar no PSD porque deu cabo do país. E nunca esquecerei isso. (P., bancário)

Mea culpa

Durante alguns anos, este feriado era para ir até à praia ou ficar em casa com a família. Desde os tempos dos governos de Sócrates que senti necessidade de vir para a rua e assim juntar-me aos outros trabalhadores que como eu não querem cair na escravatura. Temos perdido muito, o país está arruinado, vendido ao desbarato a estrangeiros em negociatas pouco claras. O governo odeia os reformados e os empresários querem explorar a população mais jovem. No meio disto estão as pessoas de meia-idade a quem já leram a sentença de morte, ou seja, nunca mais vão regressar ao mercado de trabalho. O que querem estes tipos? Como é que podemos progredir com um exército de desempregados que, ao contrário do que o governo diz, não cessa de aumentar? Está tudo em causa mas por isso está também tudo em aberto. Percebem-me? Estive ausente, mas atento. Ainda assim, faço mea culpa. E contem comigo. (Ricardo Esteves, 40 anos, economista)

A “diabolização” dos sindicatos

Estou aqui, porque não aceito um país vergado ao peso da miséria e da corrupção. As pessoas têm de ser menos egoístas e olhar para o que se passa à sua volta como mais atenção. Este governo é muito perigoso e usa a estratégia da “diabolização” do movimento sindical e da intoxicação da opinião pública. O país, dizem, está mal devido ao excesso de greves e os trabalhadores são irrealistas nas suas reivindicações porque repudiam os sacrifícios “inevitáveis” que lhes foram impostos a partir do momento em que a troika entrou aqui para fazer aquilo que todos sabemos. Os louros do milagre da recuperação (onde é que ela estará?) fica do lado dos empresários, dos grandes empresários porque os conluios fazem parte deste jogo sujo em que nós (trabalhadores) desempenhamos o papel de “maus da fita”. A farsa do país falido que agora está com os cofres cheios e da dívida que está a ser paga por quem não a contraiu é uma história com um guião pensado ao pormenor. Pergunto-me muitas vezes: afinal, quem são os extremistas? Quem usa e abusa do “populismo salvífico” para enganar o povo? E até quando vamos aceitar isto? (Tiago Ferreira, 35 anos, professor universitário)

Não tem vergonha?

Salvo algumas exceções, em Portugal os empregadores não têm escrúpulos e estão a aproveitar-se do desemprego para explorar ainda mais as pessoas. No que me diz respeito, acho que já fiz tudo. E porque estou esgotada vou regressar ao meu país, o Brasil, que também não está bem mas ao menos lá tenho a minha família e talvez consiga reorganizar a vida. Cheguei a Portugal há 7 anos para trabalhar numa start-up portuguesa que operava na área das tecnologias de informação. A empresa fechou há 3 anos. Ainda trabalhei num restaurante durante 3 ou 4 meses mas o dono disse um dia que não queria mais empregadas brasileiras por que estas davam muita “bola” aos homens. Um ato de xenofobia inaceitável. Depois disso, segui a via habitual, ou seja, mandar currículos e esperar respostas. Um dia fui selecionada para ir a uma entrevista. Era para um lugar de secretária. Estive durante alguns minutos a falar com o responsável dos Recursos Humanos e só no final percebi que ele estava de “gozação” comigo. Perguntou-me com um sorriso sarcástico: “Não sente vergonha por andar à procura de emprego com essa idade? Olhe que as pessoas competentes nunca ficam sem trabalho. O que é que se passou consigo?” Levantei-me e fui-me embora. (Rosana, 39 anos, engenheira de telecomunicações)

Gostava de os ver aqui

Aos senhores e senhoras do governo digo só isto: deixem as mentiras em casa e venham aqui falar com as pessoas. Quem não deve não teme, não é? Eu tenho uma reforma de 670 euros e um filho desempregado há 5 anos. Se não fosse eu, ele vivia na rua. Estão sempre a falar no mérito e na competência. Gostava então de lhes dizer que o meu filho é um eletricista muito competente. Dizem todos os dias que o desemprego está a baixar e o país a registar progressos económicos. Um choque com a realidade. Desgraçaram o país e querem que as pessoas acreditem que fizeram o contrário. Ainda alguém vai nesta conversa? Lamento que haja muita gente que não tenha consciência política e vá a correr para os hipermercados atrás de promoções no dia em que os trabalhadores estão em greve. Estive no 1º de Maio de 1974. Um dia que nunca esquecerei. Ainda tenho fotografias desses tempos. Mas saudades, só do futuro, como dizia o poeta. Que espero seja muito diferente dos tempos que correm. (António Sabino, 67 anos)

A destruição dos transportes públicos

As pessoas queixam-se muito das greves dos transportes públicos mas muitas não sabem que nós estamos não só a lutar pela manutenção dos nossos postos de trabalho mas também pela manutenção de um serviço de qualidade capaz de assegurar a mobilidade de quem os utiliza diariamente. As consequências da privatização deste setor serão terríveis. Prevê-se a redução de pessoal, o aumento dos preços dos bilhetes e a supressão de muitas carreiras seja na CP, no Metro ou na Carris. Para os privados, há que lucrar custe o que custar. É bom não esquecer o que aconteceu em alguns países que concessionaram serviços nesta área e mais tarde tiveram que os recolocar na esfera pública. As greves têm sempre um carácter político porque visam defender direitos laborais. Por isso, o discurso do governo nesta matéria é ridículo e tem como único objetivo confundir as pessoas. Mas não desistiremos. Conscientes de que a maioria da opinião pública está solidária connosco. (António Garvela, 49 anos, funcionário da Carris)

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