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O meu, o teu, o nosso 25 de Abril

Os festejos do 25 de Abril, a cada ano que passa, tornam-se cada vez mais reivindicativos, pois as pessoas sabem que já não basta relembrar o que pôs fim ao Estado Novo, é necessário proteger a democracia e exigir mais.

A Avenida da Liberdade encheu mais uma vez, encheu-se de ânsias e esperanças, cada um com uma conceção diferente daquilo que foi e é o 25 de Abril. Sindicatos, juventudes, partidos e cidadãos juntaram-se na Avenida, uns para celebrar a Revolução dos Cravos, outros para se ancorarem às vitórias revolucionárias, porém, o sentimento mais nobre foi daqueles que saíram à rua sabendo que 74 já passou e que neste momento não há tempo para saudosismos.

O saudosismo emparelhado com apatia política, negligencia os 41 anos de uma democracia burguesa, dominada por partidos cuja matriz política é antagonista às reivindicações populares.

O PS e a UGT ainda têm o descaramento de marcar presença, uma parada de novembristas que se agarra a Abril como sanguessugas, muitos ficam bem de cravo ao peito, agora defender políticas de direita de cravo ao peito é uma acrobacia digna de qualquer político despido de vergonha.

O PSD e o CDS já nem se esforçam para vestir a máscara de abrilista, decoram a AR com umas flores vermelhas, fazem o discurso oficial pois afinal o 25 de Abril é um dia histórico e nos dias históricos é costume fazer alguma coisa especial, o discurso não muda de registo, é um dia importante, vira o disco e toca o mesmo, coitados ainda tinham de planear uma coligação.

O 25 de Abril tornou-se um dia comercial, uma espécie de São Valentim para revolucionários do sofá, só muda a flor. Afinal os melhores amantes são aqueles que todos os dias festejam São Valentim.

Seria feio ficar em casa num dia tão importante, por isso desci a Avenida juntamente com outros cidadãos, acompanhados por uma senhora, que perdeu a casa por causa dos despejos ilegais, levados a cabo pela Câmara Municipal da Amadora, presidida pela presidente Carla Tavares (PS). Antes de chegarmos à avenida passámos pela sede do PS no Rato, para protestar contra as ações criminosas perpetradas por membros do PS, os mesmos que usam o cravo ao peito. Não saímos à rua para comemorar ou para relembrar Abril, saímos à rua pelas pessoas que perderam as suas casas, uma democracia onde pessoas são despejadas, a favor de interesses privados, não é certamente o tipo de democracia idealizada durante o 25 de Abril (1974).

Não estamos satisfeitos com a situação atual, não estamos certamente convictos que Abril foi concluído com sucesso. Honrar Abril é continuar Abril.

Os festejos do 25 de Abril, a cada ano que passa, tornam-se cada vez mais reivindicativos, pois as pessoas sabem que já não basta relembrar o que pôs fim ao Estado Novo, é necessário proteger a democracia e exigir mais. A frustração é enorme, 25 de Abril sempre, sim mas sempre desde 21:00h até às 21:30h? Só mais um empurrão e o governo cai ao chão, empurrão com panfletos e petições? O povo unido jamais será vencido, unido no quê, à volta do quê?

Proponho que se mude o calendário e todos os dias passem a ser 25 de Abril, talvez assim consigamos mudar alguma coisa.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de medicina
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