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Greves na fábrica do mundo

Na véspera do Primeiro de Maio, a China vive o mais intenso período de conflitualidade laboral da história do país desde a Revolução Cultural. Por José Ruiz Andrés
Protesto de trabalhadores de uma fábrica de sapatos em Zhongshan (março de 2015)

Já começaram os preparativos. Amanhã celebrar-se-á uma das datas mais importantes da República Popular da China, o Dia do Trabalho, a festa do Primeiro de Maio. Em todos os edifícios ao redor da praça Tian'anmen erguer-se-ão bandeiras vermelhas e em frente ao retrato de Mao - situado entre dois letreiros onde se pode ler “Longa vida à República Popular da China” e “Longa vida à unidade dos povos do mundo” - será colocado, como em todos os anos, o retrato do doutor Sun Yat-Sen, fundador do Partido Nacional Popular e primeiro presidente da República da China; um apelo à reunificação com Taiwan.

Não obstante e apesar de toda a simbologia marxista-leninista, o questionamento do sistema chinês sobre quanto socialismo resta no “socialismo de mercado” é totalmente pertinente: o crescimento do PIB e a desigual partilha da riqueza com um coeficiente de Ginni acima da média mundial, empresas estatais chinesas entre as cem empresas com mais lucros do mundo mas o 78º lugar no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano. E enquanto, dia após dia, se continua a garantir todas estas variáveis macroeconómicas, na semana passada encontramos a seguinte informação no China Labour Bulletin:

Uma greve de um mês num fabricante de malas de propriedade japonesa na cidade de Zhongshan, localizada no delta do rio das Pérolas, caracterizou-se pela violência policial, as detenções e a intimidação, e a recusa absoluta a negociar, por parte da administração. A greve eclodiu em meados de março. Os cerca de 200 trabalhadores da Cuiheng Co. estavam descontentes em relação aos baixos salários e a recusa da empresa a pagar a segurança social e as contribuições para o fundo de habitação, subsídio de fim de ano e outros benefícios.

Depois de uma semana nos piquetes, sem resposta da Administração, a 22 de março os trabalhadores contactaram Chen Huihai, diretor do centro de formação dos trabalhadores na sede em Guangzhou, em busca de ajuda e conselho. Chen e os seus colegas ajudaram os trabalhadores a organizar eleições para representantes na negociação e a apresentar uma proposta de negociação coletiva à gerência. A administração negou-se a negociar, despediu os dirigentes operários e chamou a polícia. Várias centenas de polícias anti-motim chegaram à fábrica e transportaram para fora 26 trabalhadores, quatro dos quais foram detidos por mais de dez dias. Muitos outros trabalhadores ficaram feridos.

Desde o início do ano houve tantas greves como nos anos de 2011 e 2012 juntos

Poderia ser simplesmente um episódio, mas trata-se de um dos “incidentes de massas” (assim os cataloga o Governo) ocorridos durante os últimos meses na China continental, onde se está a viver o mais intenso período de conflitualidade laboral da história do país desde a Revolução Cultural. Dos 3.387 casos examinados pela base de dados do China Labour Bulletin - coletivo não governamental localizado em Hong Kong cujo propósito é “monitorizar”, defender e promover os direitos dos trabalhadores na República Popular da China-, destaca-se o período 2014-2015, especialmente o passado mês de janeiro, em que se chegou a 272 greves registadas num só mês. Isto pressupõe que desde o início do ano houve tantas greves como nos anos 2011 e 2012 juntos.

Greves e plenários

Quem faz greve? 78% são trabalhadores do setor secundário - indústria, estaleiros, construção, minas e transportes, enquanto 13% ocorrem no setor dos serviços. Os principais cenários de luta são a fábrica, a obra, a mina e, eventualmente, a via pública, e logicamente as províncias onde se regista um maior número de conflitos são as mais industrializadas, e ironicamente as de maior PIB: Guangdong, Jiangsu, Shangdong e os municípios de Beijing, Shanghai e Chongqing. Os protagonistas são, portanto, os operários - realidade que parece longínqua nos nossos países deslocalizados -, ou antigos empregados de fábricas estatais que perderam o seu trabalho na privatização dos anos 90, ou a chamada “segunda geração de imigrantes rurais”, os filhos dos conhecidos como nonmingong, jovens trabalhadores que nasceram e cresceram em cidades industriais no sudeste chinês, pelo que não se consideram a si próprios como rurais e veem-se tão urbanos como aquelas pessoas que desfrutam de um cartão de residência urbana.

O Governo costuma preferir situar-se à margem destes conflitos, não intervindo até que surjam problemas de ordem pública, ainda que seja certo que intervém cada vez mais. É bem mais cómodo e favorável face à opinião pública tanto interna como internacional colocar-se como árbitro do conflito do que como partidário dos patrões que usa a violência para reprimir os protestos

Os protestos são organizados através de assembleias pontuais e autónomas - e, portanto, ilegais - que aprovam uma estratégia para levar a cabo um protesto e elegem uma série de porta-vozes para negociar com a direção da empresa. A sua organização é tão radicalmente horizontal como a das primeiras experiências sindicais na Europa, mas pelo contrário os seus motivos não são em nada radicais: 33% dos protestos ocorreram para obter compensações face a um abuso laboral, 21% para protestar por falta de pagamento de salários, 20% deram-se para conseguir aumento de salários, e o resto para exigir segurança social, melhores condições laborais ou exigir o fim das horas extra. Trata-se de um movimento radicalmente reformista, consequência inevitável de um sistema sindical falhado.

Os métodos de luta são clássicos, desde a recolha de assinaturas e petições diretas às autoridades, passando por concentrações e paragens laborais, até piquetes, bloqueios da produção fabril, manifestações, bloqueios das vias ferroviárias ou do espaço aéreo, e inclusive - ainda que em menor grau, cerca de 5% dos casos investigados - a ocupação de edifícios governamentais ou o confronto direto com a polícia ou com membros da administração das fábricas, ou o assalto e a destruição de equipamento e da produção fabril. As novas tecnologias estão incluídas e desempenham cada vez mais uma centralidade dentro dos métodos de convocação e organização, especialmente a utilização da plataforma QQ.

O Governo costuma preferir situar-se à margem destes conflitos, não intervindo até que surjam problemas de ordem pública, ainda que seja certo que intervém cada vez mais. É bem mais cómodo e favorável face à opinião pública tanto interna como internacional colocar-se como árbitro do conflito do que como partidário dos patrões que usa a violência para reprimir os protestos. Isto dá uma grande margem aos grevistas para obrigar os empresários a cederem às suas reivindicações. Não obstante, desde o ano de 2013 até à atualidade as autoridades chinesas têm intervido e procedido a diferentes detenções em 20% dos protestos realizados.

Um momento histórico

E entendendo que se trata de um momento histórico em que a ação coletiva se manifesta obtendo êxitos a favor dos trabalhadores, provavelmente o melhor momento do movimento dos trabalhadores chineses dos últimos 50 anos, levanta-se uma questão: por que é que os grandes meios de comunicação priorizam outro tipo de protestos? Talvez se trate de uma questão de reivindicações, ou talvez estejamos de novo perante um caso de aporofobia1 mediática. Face à classe trabalhadora chinesa, prefere-se divulgar protestos de dissidentes de um perfil bem mais anglófilo, como Ai Weiwei ou Liu Xiaobo, ou procuram-se nos protestos de Hong Kong reflexos dos protestos de Tian'anmen, incluindo dos seus protagonistas: jovem, estudante, universitário de “classe média” cujo propósito é conseguir a liberdade - conceito amplo e pouco específico, mas que costuma significar a equivalência ao modelo dos Estados Unidos da América - através de um protesto pacífico, criativo e altamente fotogénico.

Entendendo que se trata de um momento histórico em que a ação coletiva se manifesta obtendo êxitos a favor dos trabalhadores, provavelmente o melhor momento do movimento dos trabalhadores chineses dos últimos 50 anos, levanta-se uma questão: por que é que os grandes meios de comunicação priorizam outro tipo de protestos? Talvez se trate de uma questão de reivindicações, ou talvez estejamos de novo perante um caso de aporofobia mediática

O futuro deste movimento - que por outro lado vem de um incremento constante desde há dez anos - é incerto. A ausência de espírito transformador faz refletir sobre até onde pode chegar um sindicalismo de carácter reformista, entendendo que um Estado, seja capitalista ou socialista de mercado, onde o motor económico do país se baseia no lucro empresarial, implica que não pode permitir uma classe trabalhadora tão bem acomodada. A deslocalização, além disso, é um fenómeno que também se está a produzir hoje na China, não como país recetor, mas pelo contrário: as empresas preferem ir para países com menos regulações, como Vietname, Malásia ou Indonésia, ou para as províncias centrais da China.

Atualmente talvez estejamos perante o momento mais alto deste movimento, que dificilmente poderá conseguir mais se não redirecionar os seus objetivos para uma ótica transformadora, um momento que no futuro da história do movimento operário chinês será recordado como uma época dourada. O amanhã é bem mais obscuro, pois Beijing não pode permitir que esta desaceleração dos índices macroeconómicos continue, pelo que sopram ventos de repressão e de intensificação da luta. Mas amanhã voltará a ser Primeiro de Maio e as bandeiras vermelhas voltarão a ondular em Tian'anmen, e ressoará a internacional, o velho canto aos párias da terra, em praças e nos rádios em táxis e talvez até nas fábricas. Mas dentro de dois dias continuará a ser a China, e voltarão as greves à fábrica do mundo.

Artigo de José Ruiz Andrés, Xuzhou, província de Jiangsu (China), publicado em diagonalperiodico.net a 30 de abril de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


1 Aporofobia – aversão especial aos pobres.

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