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De Costa a contra Costa

Costa prometeu uma coisa e assina outra. De novo, pensionistas e reformados sob fogo cerrado. Não há diferença essencial com as propostas do atual governo.

mexem na raiz da árvore e pensam que a sombra fica no mesmo lugar.
in ONDJAKI – Os transparentes. 2013

Bastou um dia para que tudo se esclarecesse. Ou toldasse, de preferência. Para os simpatizantes e militantes do PS, há meses que as expectativas se tinham vindo a acumular. Desde que António José Seguro foi apeado, a convicção que tudo mudaria tinha-se instalado. Jamais o PS se confundiria com o PSD ou com as políticas de direita. Porém, nos últimos meses essa convicção abrandara, tornara-se menos “convicta”. Não havia sinais suficientemente fortes, por parte do novo Secretário-Geral e da sua equipa, que chegassem para confortar os espíritos militantes socialistas. A fragilidade das intervenções no Parlamento contribuíram certamente de forma eficaz para que uma nuvem fosse ensombrando o entusiasmo inicial. Seria uma nuvem passageira?

E as pensões? Também aqui, as promessas feitas há poucas semanas evaporaram-se. Não será possível cumprir a decisão do TC; a idade da reforma terá de ser aumentada; haverá congelamento dos valores nominais salvo para as pensões de valores mais baixos (onde pára a reposição?); haverá redução do desconto dos trabalhadores com menos de 60 anos em 4% até 2018; avanço da redução da TSU. De novo, pensionistas e reformados sob fogo cerrado. Não há diferença essencial com as propostas do atual governo

Estão céticos, porquê? Duvidam, como podem? António Costa perguntava enquanto prometia o documento esclarecedor que iluminaria o caminho do PS. Dia e hora anunciados, faltava a prova. Um verdadeiro texto sagrado, Bíblia ou Corão. E esperámos todos, dentro e fora do PS. Uns, porque tal texto esclarecedor seria a salvação, poria fim a um período angustiante; outros, porque a partir das propostas e soluções expressas, ficaria mais claro o prato da balança em que Costa colocava o seu partido.

Foi a 21 de Abril que viu o dia embora não se tenha feito luz. Um largo conjunto de jornalistas, comentadores e articulistas comungam de críticas similares: 1. ausência de novidade e falta de oportunidade das medidas propostas; 2. improvável exequibilidade das propostas; 3. injustiça social das mesmas; 4. réplica de medidas do PSD. As análises de Francisco Louçã, de Bagão Félix ou de Carvalho da Silva, com intensidades e sublinhados diferentes, desfazem a argumentação utilizadana previsão Uma década para Portugal (uma década por metade como bem assinala Louçã) ou como também ironizou Pacheco Pereira (em intervenção pública realizada a 21 de Abril numa sessão organizada pela APRE!), a política é para hoje. O documento é um rol de contradições ou como sintetizou Carvalho da Silva “a quadratura do círculo só é interessante como exercício teórico”. Entre a prática do PSD+CDS e a teoria do PS, uma verdadeira escala de cinzentos, mais carregado de um lado do que do outro.

Se alguém julga que eliminando os reformados de hoje resolvem a situação, desiludam-se. A consequência imediata das reduções afetando os cofres da segurança social será a consagração da instabilidade e intranquilidade, agora e daqui para a frente

E as pensões? Também aqui, as promessas feitas há poucas semanas evaporaram-se. Surpresa? Não, só mesmo os crentes poderiam acreditar. E se aplaudiram foi, em boa parte, para manipular. Agora, as águas estão separadas. Não será possível cumprir a decisão do Tribunal Constitucional (como poderá o TC contrariar esta opção?); a idade da reforma terá de ser aumentada (onde está a preocupação com o emprego?); haverá congelamento dos valores nominais salvo para as pensões de valores mais baixos (onde pára a reposição?); haverá redução do desconto dos trabalhadores com menos de 60 anos em 4% até 2018 (se reduz o desconto hoje, reduz as pensões no futuro ou não?); avanço da redução da TSU (com imediato enfraquecimento do sistema de Segurança Social). De novo, pensionistas e reformados sob fogo cerrado. Não há diferença essencial com as propostas do atual governo. Não pode parecer estranho que nos sintamos como condenados. Estamos a mais. Não vale a pena gastarem saliva ou tinta a falar de coesão social, de dignidade, de direitos. Há um real e objetivo corte com a esquerda. Pelo menos, a clarificação foi feita. Se alguém julga que eliminando os reformados de hoje resolvem a situação, desiludam-se. A consequência imediata das reduções afetando os cofres da segurança social será a consagração da instabilidade e intranquilidade, agora e daqui para a frente. Contradição das contradições, pensionistas e reformados não podem deixar cair os braços. A sua intervenção é urgente e ela terá de se concretizar em propostas concretas para submeter ao escrutínio eleitoral. E se não forem propostas acabadas que sejam, pelo menos, os parâmetros que hão-de balizar as propostas.

Pensionistas e reformados não podem deixar cair os braços. A sua intervenção é urgente e ela terá de se concretizar em propostas concretas para submeter ao escrutínio eleitoral

Costa prometeu uma coisa e assina outra. Apressou-se a dizer que o documento não era a Bíblia. Pois, talvez não seja mas continua a ser um texto sagrado e não adianta lavar as mãos. O documento transpira uma opção ideológica; o líder do PS ia encomendar um trabalho desta envergadura a alguém com um pensamento contrário ao seu? A escolha da equipa que preparou Uma década para Portugal foi sua e quem pode, manda. Em matéria de equívocos, este não terá sido o único. Na mesma semana, o episódio sobre o reaparecimento de qualquer coisa muito parecida com a censura prévia com a participação de uma deputada do PS, também foi um mal-entendido? Tudo sinais de uma enorme confusão ideológica, de cartilhas mal digeridas. E tristemente, nem tudo será fumaça.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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