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Encontro do Interior afirma que “não desistimos de viver aqui!”

Encontro do Interior promovido este fim de semana pelo Bloco de Esquerda analisou a fratura que se aprofunda entre uma estreita faixa litoral do continente densamente povoada e os territórios do interior, com consequências graves para as populações e as economias regionais. Por Carmo Bica
“É um desperdício de recursos e o aprofundar todas as desigualdades o que se está a passar no interior do país”, disse Marco Loureiro na abertura do Encontro - Foto de Carmo Bica

Com cerca de uma centena de participantes, o Encontro do Interior promovido este fim-de-semana pelo Bloco de Esquerda, na Guarda, analisou a fratura que se aprofunda entre uma estreita faixa litoral do continente densamente povoada e os territórios do interior, com consequências graves para as populações e as economias regionais de uma e de outra parte do território continental. “É um desperdício de recursos e o aprofundar todas as desigualdades o que se está a passar no interior do país”, disse Marco Loureiro, da Coordenadora Distrital da Guarda, que abriu o Encontro.

Os oradores convidados, investigadores, autarcas e pessoas ligadas aos movimentos sociais, abordaram aspetos tão diversos como a importância do Ensino Superior, do património e do turismo para o desenvolvimento das regiões do interior, os efeitos da austeridade no agravamento dos indicadores que demonstram desigualdades crescentes, a emigração que voltou a ter números como já não se viam desde o século passado, as políticas públicas que desistem do interior, como nos casos da agricultura e do desenvolvimento rural, a captura de recursos naturais por privados que estabelecem contratos leoninos de exploração, como se está a passar com a distribuição da água.

Catarina Martins, disse que no país "basta de cortes" e que "está na hora de se investir nas regiões do interior", de tomar medidas para promover a coesão territorial

O presidente da Câmara de Mondim de Basto, distrito de Vila Real, que aceitou o convite para intervir no Encontro, manifestou grande preocupação com a forma como estão a ser geridos os fundos do novo quadro comunitário de apoio, com uma inversão da lógica territorial para a empresarial, com grande prejuízo para os municípios do interior. Humberto Cerqueira denunciou a tentativa deste Governo em transformar as autarquias em meras entidades administrativas, sem autonomia, sem recursos e sem capacidade de decidir.

Pedro Soares, da Comissão Permanente do Bloco de Esquerda, referiu que dos 278 municípios do continente, 164 já se encontram em risco acentuado de despovoamento e de desertificação, a perderem “músculo económico e demográfico” e em “espiral depressiva”. “O problema é político e não de qualquer incapacidade geográfica intrínseca”, adiantando que a regionalização é fundamental para enfrentar o problema, “nem que comece pelo interior, já na próxima legislatura, com regiões piloto”.

Já no discurso de encerramento do Encontro do Interior, a porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, disse que no país "basta de cortes" e que "está na hora de se investir nas regiões do interior", de tomar medidas para promover a coesão territorial. "Está na hora de pensar do ponto de vista estratégico os setores que podem criar emprego e riqueza no país, que o podem fazer em todo o território e apostar neles através de investimento", sustentou.

Pedro Soares referiu que dos 278 municípios do continente, 164 já se encontram em risco acentuado de despovoamento e de desertificação, a perderem “músculo económico e demográfico” e em “espiral depressiva”

Catarina Martins lembrou que o Governo anunciou, em 2013, a criação do Banco de Fomento, para permitir investimento a pequenas e médias empresas. Essa seria uma medida importante para apoiar o investimento nos municípios do interior. Porém, "em 2014 o Banco de Fomento passou a ter um conselho de administração, com salários pagos, e nós estamos em 2015 e o Banco de Fomento investiu zero até agora. Se é possível fazer diferente, é. Era possível ter já o Fomento a funcionar, desde logo através da Caixa Geral de Depósitos, que é um banco público", disse.

Os participantes no encontro do Bloco realizado na Guarda defenderam a importância da regionalização e do ensino superior para as regiões desfavorecidas. Consideraram ainda relevante a valorização do património e da educação, a importância do apoio à agricultura familiar, e, ao longo dos debates, foram dando inúmeros exemplos da destruição dos serviços públicos que demonstra o desinvestimento do governo nas regiões do interior. Vários dos intervenientes defenderam a inclusão de propostas concretas sobre estas matérias no próximo programa do Bloco para as eleições legislativas.

Artigo de Carmo Bica para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Engenheira agrícola, presidente da Cooperativa Três Serras de Lafões. Autarca na freguesia de Campolide (Lisboa). Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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