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“Um mestre contra a impotência”, por Pablo Iglesias

Galeano não era apenas um imenso poeta e narrador, capaz de tornar bonitas as coisas tristes, de tornar simples as questões complicadas. Era também um lúcido analista que nos explicou como funcionam o poder e a História.
Eduardo Galeano (1940-2015). Foto gndolfo/Flickr

Quando Diego viu pela primeira vez o mar, disse ao pai: “Ajuda-me a olhar!”. Com esta metáfora Eduardo Galeano recorda-nos, num dos seus contos, que nem mesmo olhar é uma ação tão evidente. Aquilo que vemos transporta a sua carga de história, de hábito, de ideologia. A obra de autores como ele é uma das ajudas com que contamos para o ver doutra forma.

Durante os meus anos de professor, quando explicava na aula a teoria da dependência, um dos textos que mandava os meus estudantes ler era um fragmento do seu livro “As Veias Abertas da América Latina”. Porque Galeano não era apenas um imenso poeta e narrador, capaz de tornar bonitas as coisas tristes, de tornar simples as questões complicadas. Era também um lúcido analista que nos explicou como funcionam o poder e a História, retratando com uma prosa insuperável o passado de um continente que quis devolver ao lugar que os mapas oficiais lhe negavam.

Este livro recordava a exploração dos escravos africanos nas colónias americanas para a subtração de ouro e prata e a obtenção de matérias primas no século XVI, um saque cuja memória é fundamental para se poder entender a acumulação de capital na Europa.

Pouco depois, alguns companheiros que trabalhávamos para – como ele dizia – mudar o que somos, visitámo-lo em Montevideu. Ele ouviu o que lhe contávamos e disse-nos logo: “Vocês são os inimigos da impotência”. Talvez não lhe tenhamos dito então que para superar a impotência ajuda-nos o que encontramos nos seus livros: essa sua maneira de olhar o passado que é também um modo de nos ajudar a olhar o futuro. “A história é um profeta com o olhar virado para trás”, deixou-nos escrito: “Pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”. Na companhia da tua memória, Eduardo, continuamos a caminhar, contra a impotência.


Pablo Iglesias é secretário-geral do Podemos. Artigo publicado no El País. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net

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