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A UE quer expulsar a Grécia do Euro

Uma coisa está a tornar-se cada vez mais clara. As instituições europeias já decidiram o que querem e o que querem é a Grécia fora do Euro.

À medida que o braço-de-ferro entre instituições europeias e o novo governo grego, iniciado com a eleição deste último, e continuado após o acordo de 20 de Fevereiro, uma coisa está a tornar-se cada vez mais clara. As instituições europeias já decidiram o que querem e o que querem é a Grécia fora do Euro.

As instituições europeias já deixaram claro que não têm de respeitar nenhum acordo passado. Mandam e acabou a conversa. E o governo grego obedece ou acabou o dinheiro

O governo grego foi eleito com um programa claro de inversão da política de austeridade, que só pode ser implementado com uma reestruturação da dívida e uma rotura inequívoca com a lógica dos programas de ajustamento. O embate entre este programa e as pretensões do governo alemão não se fez esperar. O acordo de 20 de Fevereiro marcou uma curtíssima trégua, após a qual o braço-de-ferro prosseguiu. 

Em primeiro lugar, convém observar que, para as instituições europeias esse compromisso confuso e ambíguo é, em todo o caso, letra morta. O governo grego apresentou um vasto conjunto de medidas que vão ao encontro de muito do que estava no memorando, no plano da corrupção e da fraude e evasão fiscais. No entanto, as instituições europeias estão-se a borrifar para estas partes do memorando, como aliás estiveram durante cinco anos em que nada foi feito a este nível. Nem mesmo somando-lhe a privatização do Porto de Pireu, uma cedência do governo grego do tamanho do dito-cujo. Garantem que, sem liberalização dos despedimentos e corte nas pensões, o financiamento continuará bloqueado.

Nem este acordo, nem acordos anteriores, como o acordo sobre a devolução dos lucros do BCE com a dívida grega, também bloqueados, valem nada. As instituições europeias já deixaram claro que não têm de respeitar nenhum acordo passado. Mandam e acabou a conversa. E o governo grego obedece ou acabou o dinheiro.

O que as instituições europeias estão a exigir é uma vitória sem compromisso: O governo grego deve implementar o memorando que combateu e violar, uma a uma, todas as suas promessas eleitorais

Em segundo lugar, o BCE vai empreendendo várias ameaças e anúncios, sempre anunciadas como o estrito cumprimento de regras burocráticas mas, na realidade, totalmente discricionárias e ilegais, visando promover a fuga de capitais e desestabilizar a economia grega. O BCE sabe bem que a mera suspensão das medidas de austeridade anteriormente previstas pode, por si só, devolver alguma dinâmica à economia grega (como aconteceu ainda com Samaras, com propósitos eleitorais). Isso seria uma grande maçada e o BCE tem trabalhado afincadamente para impedir semelhante infortúnio, no que só pode ser descrito como sabotagem económica deliberada.

Em resumo, o que as instituições europeias estão a exigir é uma vitória sem compromisso. O governo grego deve implementar o memorando que combateu e violar, uma a uma, todas as suas promessas eleitorais, qualquer coisa como o que fez o governo português. Têm 6 dias e nada menos do que isto servirá. O Syriza tem de rasgar o seu programa, cuspir-lhe em cima e sujeitar o seu país a uma humilhação histórica, apenas comparável a uma ocupação pura e dura.

É, para mim, puramente impensável que a gente que hoje integra o governo grego esteja disponível para semelhante papel. E é igualmente impensável que haja algum eurocrata, ministro alemão ou outro qualquer, por mais estúpido ou alheado das coisas da democracia, que acredite em semelhante desfecho. Quanto mais não seja por saberem que se o Governo grego levasse a cabo tal barbaridade, cairia no mesmo dia.

Do que se trata não é, portanto, de conseguir uma cedência. Do que se trata é de imputar ao governo grego as responsabilidade de um incumprimento que resulte da retenção do financiamento europeu. Resta saber contra quem corre o tempo. O governo grego não escondeu a sua intenção de ganhar tempo para preparar todos os cenários decorrentes das negociações de Junho. Outra preocupação será, sem dúvida, a de fazer o máximo de pagamentos ao FMI antes de uma possível rotura, para não fazer todas as guerras ao mesmo tempo. 

É, para mim, puramente impensável que a gente que hoje integra o governo grego esteja disponível para rasgar o seu programa. As alternativas, graças à demência europeia, afiguram-se terrivelmente difíceis. Mas a escolha nem por isso

Por outro lado, as instituições europeias têm revelado um talento inexcedível para gerir conflitos no limite da loucura, espremendo e sangrando lentamente os poucos que se lhe opuseram. Acresce que o comportamento das instituições europeias indica não só que desejam a rotura, mas também que pretendem que esta se concretize nas piores condições possíveis, pois só assim o efeito vacina será melhor conseguido.

Uma coisa é certa: o governo alemão e as instituições europeias não vão dar espaço para que se cumpra o mandato de romper com a austeridade permanecendo no Euro, mandato com que o governo grego foi eleito. Isso mesmo vão reconhecendo vários responsáveis do governo e do Syriza, quando avançam com a possibilidade de voltar ao eleitorado com as escolhas que a Europa impuser.

Não será fácil para os gregos. Mas para quem há cinco anos é repetidamente castigado e humilhado, num ciclo interminável de empobrecimento, a continuação do inferno não é uma opção. As alternativas, graças à demência europeia, afiguram-se terrivelmente difíceis. Mas a escolha nem por isso.

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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