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Naquele dia

25 de abril de 2014. Cravo ao peito, pressa no andar, mas apenas uma tímida sombra de esperança de que algo poderia mudar, que alguma vez o povo voltaria a unir-se para se reclamar e se conquistar.

Pergunto-me se a todas as horas, em todos os tempos, existe alguém como ela. Pessoas que transportam memórias que não são suas, alegrias alheias e mágoas que não lhe pertencem. Como se suportassem o mundo às costas e um coração atrelado, que apenas nos faz companhia nas noites mais solitárias. É nosso. Está ali, mas o sangue parece não ser o mesmo.

Cruzámo-nos ao acaso (ou talvez não) numa estação de metro. Em comum o mesmo destino de quase todos e todas ali naquele momento: a Avenida da Liberdade.

25 de abril de 2014. Cravo ao peito, pressa no andar, mas apenas uma tímida sombra de esperança de que algo poderia mudar, que alguma vez o povo voltaria a unir-se para se reclamar e se conquistar.

Ela expressava isso e muito mais. Espelhava o rosto da sociedade, na sua maioria, mas também nas suas minorias, qual mosaico de uma cidade, de um país que caminha incerto, um dia após o outro, deixando que o tempo o conduza. Perdas, sorrisos, crenças, cansaço, dores, amores e desamores, queixumes, abusos, inocência, paixões, gritos sufocados, estagnação, juventude, pobreza, convicções, choros. Tudo nela se refletia, transformando-a numa tela de estados, emoções e afetos pintada por um artista inigualável que há muito abandonara o atelier.

Sem quase dar por isso segui-a sem qualquer dificuldade, como se apenas ela caminhasse debaixo daquele Sol. Não precisava sequer de descer a avenida rodeado de pessoas, bastava ela. Os seus gritos eram todos os gritos, os seus cantos eram todas as canções, os seus passos eram todas as marchas.

Revi-me nela também, como se a conhecesse desde sempre, como se fizesse parte de mim. Invadia-me uma estranha sensação de simbiose e desejei ser o mais altruísta dos homens que, em harmonia, pudesse partilhar todo aquele turbilhão de emoções, que a libertasse desse pesado fardo.

Ouvia-a entoar as palavras do Zeca. Punho erguido, lágrima ao canto do olho. Recordei a infância no Alentejo, quando se cantavam canções proibidas em casa dos meus pais. Camaradas apareciam com alguma frequência. Traziam livros, novidades, guitarras e algumas expectativas para uma gente agastada. Eu ficava quieto, perto da lareira, simplesmente a olhar e a escutar. Por vezes nada me fazia sentido, mas todo o ambiente me acalentava, como a história que nos é contada antes de dormir.

Conheci desde cedo a clandestinidade. As folhas que eram escondidas, os assuntos que não se podiam falar lá fora e os murmúrios na cozinha até altas horas da madrugada. Ouvia-os, sem os entender, no escuro do meu quarto. Por vezes a duas vozes, outras a tantas vozes, com o eco ora de angústia, ora de confiança. Muitas vezes eram calmos, outras de inquietação. Até que um dia tudo mudou. O meu pai abraçou-me e disse-me “já não precisas ter medo”. Mas eu não tinha. Aprendera apenas o valor de saber guardar um segredo. E ali, naquela avenida, naquele dia que era também o mesmo dia, apetecia-me pela primeira vez gritar o que só eu parecia ver. Vociferar a todas e a todos que era preciso libertá-la, que cada uma e cada um teriam de reaver o que era seu para o soltar também.

Lá estava ela. Oculta como outrora. Não era menina, não era mulher. Era de todas e de todos, ainda que não a vissem, ainda que não lhe tenham sentido o aroma, ainda que teimassem em não aceitá-la como sua. O dia estava longe de terminar, mas o desfile pela Liberdade acabara. A multidão queria partir de novo para as suas rotinas. Talvez de uma forma diferente naquele dia, por ser feriado. Um copo com camaradas, umas quantas canções numa sala que se conhece ou um passeio à beira-rio.

O receio de a perder de vista tomou conta de mim. Nada seria igual depois daquele dia, como me havia dito o meu pai há 40 anos. Mas desta vez tinha medo, muito medo e já não sabia se saberia mais guardar segredos. Para quê calar? Para quê sufocar o que nos pode salvar? E porque não me ajudavam todos e todas a desprendê-la?

Também eu acabei por a abandonar. Também eu a deixei clandestina e regressei aos meus rituais diários, que vivem agora suspensos pela vontade de a voltar a ver. Talvez nos próximos anos daquele dia ou quem sabe aquele dia possa renascer noutro dia. Mas então tudo será diferente. Abraçá-la-ei com todo o amor e finalmente poderei libertá-la. A ela e à esperança sufocada em todos nós.

Sobre o/a autor(a)

Trabalhadora da administração local
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