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Que tal, mais investimento e mais emprego?!

Sob o título Pensões mais altas só com mais dívida publicou o Expresso a 28 de Março um texto assinado por Carlos Pereira da Silva e Jorge Bravo sobre o qual não ficarei bem comigo própria se não registar o que penso.

Tarefa complicada porque entro no palco de economistas universitários quando eu só percebo alguma coisa de bibliotecas e de história da cultura setecentista e portuguesa. Mas tenho argumentos a meu favor. Sou aposentada com muitos anos de vida e o que eu andei pr’aqui chegar!

A forma crua e desumana como o problema das pensões é apresentado resume tudo a uma equação muito simples: o Estado não tem que se preocupar com o milhão de compatriotas com rendimento mensal inferior a 275 € e quem não poupou, poupasse e quem não foi empreeendedor, tivesse sido. Só pode pensar assim e defender esta posição quem desconhece os verdadeiros padrões de rendimento mensal da larga maioria dos portugueses

Debruço-me primeiro sobre o artigo e começo pelo título. É um bom título porque sumaria o texto e o seu conteúdo. Para aqueles que não tiverem tempo de ler, arrecadam a mensagem. Não há margem para dúvidas, cautela, podem tirar o cavalinho da chuva. Um sinal de proibido a qualquer devaneio que os pensionistas e reformados possam ter. Devaneio no imediato, claro, porque por definição os planos dos pensionistas e reformados são a curto prazo. Um título suculento, assim como que a antecipar o que aí vem. Nada de entusiasmos, portanto. Depois, de forma abrupta e seca, os números devastadores que aniquilam qualquer esperança. Sobre uma análise do período 2002-2014, indica-se “que o ritmo de crescimento do valor das prestações (Velhice+Invalidez) foi, em média, superior ao ritmo de crescimento das contribuições e quer uma quer outra com ritmo superior ao crescimento do PIB.” A argumentação subsequente invocada serve para suportar esta afirmação e, de degrau em degrau, alcança o patíbulo concluindo que “podem as pensões crescer, na próxima década, acima do PIB? Poder, podem, mas apenas com mais dívida.” Recorro ao termo patíbulo intencionalmente. A situação hoje é má mas nem pensem, dizem os autores, que vai melhorar. Melhorar é mais dívida, mais dependência do mercado financeiro e nós (os autores e os que comungam ideias semelhantes) não queremos. Ao fazer este aviso, os autores convocam de imediato o apoio do eleitorado austeritário que sustenta este governo e se prepara para o apoiar de novo lá para o outono.

Pensar de outra maneira é urgente. O encontro com essa urgência tem data marcada no outono próximo. As medidas a adotar deverão ter um cariz marcadamente solidário. Ao combater por outro quadro económico que assegure a criação de mais emprego, ganharemos a certeza que indiretamente os mais idosos estarão mais protegidos

As fontes referidas no artigo devem estar acima de qualquer suspeita; as contas e os cálculos devem estar certos mas a resposta não pode ser encontrada neste confronto porque, se o for, então continuaremos sem resposta para o milhão de portugueses cujo rendimento mensal é inferior a 275 €; continuaremos sem solução para os aposentados, pensionistas e reformados que com angústia esperam pelo próximo rendimento e cujas queixas de falta de dinheiro para a farmácia, ou para os lares, continuaremos a ouvir. Refiro apenas as situações mais dramáticas aquelas para as quais os rácios prestações/remunerações ou o PIB ou... ou... não resolvem o problema. A racionalidade, a frieza, a falta de alma dos números não pode continuar a ser a resposta. A solução está (sabem-no os economistas muito bem) na dinamização da economia assegurando maiores níveis de empregabilidade. A forma crua e desumana como o problema das pensões é apresentado resume tudo a uma equação muito simples: o Estado não tem que se preocupar com o milhão de compatriotas com rendimento mensal inferior a 275 € e quem não poupou, poupasse e quem não foi empreeendedor, tivesse sido. Só pode pensar assim e defender esta posição quem desconhece os verdadeiros padrões de rendimento mensal da larga maioria dos portugueses. E são maioritariamente estes portugueses que viveram em permanente equilíbrio que agora, quando já lhes falta energia e ânimo, apanham, de peito aberto, esta estocada. São os cortes, a diminuição dos benefícios sociais, o aumento do custo de vida, o congelamento das pensões e o terror de ver chegar o dia em que poderão precisar de cuidados especiais (desde o internamento num lar aos paliativos) para os quais a reforma não chega. Uma reforma com que contavam e que não se destinava a vestuário de autor, aos lazeres extravagantes ou a refeições de luxo. Será preciso apresentar as contas e as despesas com os cuidados médicos ou com o acompanhamento inevitável aos senhores economistas do regime? Perante a inevitabilidade dos seus raciocínios, questiono-me sobre a galáxia que os alberga.

A situação que se vive não é imutável e a alternativa deve ser construída. Substituir a ganância pela solidariedade; trocar uma contabilidade elitista pela valorização do bem-estar, da tranquilidade e da dignidade dos reformados

Com queixas não vamos lá. Mas talvez possamos lá chegar com outro alinhamento de prioridades enquadradas, sim, por valores de solidariedade e orientadas pelos princípios de um verdadeiro estado social, começando por definir políticas que defendam primeiro os mais necessitados, estipulando calendários que revelem sinais de esperança em tempo razoável e plausível. Um calendário para os aposentados e pensionistas de hoje, um plano que no decorrer dos próximos anos se vá aperfeiçoando, logo, ganhando a confiança daqueles que engrossarão as próximas gerações de aposentados. Pensar de outra maneira é urgente. O encontro com essa urgência tem data marcada no outono próximo. As medidas a adotar deverão ter um cariz marcadamente solidário. Ao combater por outro quadro económico que assegure a criação de mais emprego, ganharemos a certeza que indiretamente os mais idosos estarão mais protegidos, e estaremos a instalar a confiança para onde quer que se olhe. Sem vergonha, encarar de frente os mais novos ou os mais velhos, sem títulos nem prerrogativas. A situação que se vive não é imutável e a alternativa deve ser construída. Substituir a ganância pela solidariedade; trocar uma contabilidade elitista pela valorização do bem-estar, da tranquilidade e da dignidade dos reformados.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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