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Cercado pelos seus erros, Costa deixa Lisboa

Prolongar a sua presidência da CML parecia ser a melhor estratégia. Mas os últimos tempos mostraram que Lisboa pode ser uma pedra no sapato. António Costa descalçou-o mais cedo.

António Costa anunciou que finalmente deixa a presidência da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para se dedicar exclusivamente ao PS e às legislativas de outubro. Depois de Kruz Abecassis, foi o presidente que mais tempo passou à frente da CML. Foram quase oito anos, de agosto 2007 a abril de 2015. Depois da queda atribulada de Carmona Rodrigues, Costa candidatou-se e ganhou as eleições intercalares de 2007 com 29% dos votos, foi reeleito em 2009 com 40% e em 2013 obteve maioria absoluta com 50,9% da votação.

As vitórias eleitorais e a imagem de “obra feita” embalaram António Costa para a liderança do PS. A experiência na capital seria o grande trunfo a apresentar pelo agora candidato a primeiro-ministro. Mas os mandatos de António Costa devem ser cuidadosamente analisados.

Dívida

É verdade que a dívida do município foi reduzida em cerca de 40%. Mas é preciso lembrar que, em 2012, António Costa negociou com o governo a titularidade dos terrenos do aeroporto de Lisboa, para abrir caminho à privatização da ANA, e recebeu por isso um cheque de 286 milhões de euros, dinheiro usado para reduzir passivo. Para este “sucesso” financeiro contribuíram também receitas extraordinárias, como a gigantesca operação de venda de património municipal durante o ano de 2014 e que ainda se prolonga. Também a redução de prazos de pagamento e da dívida a fornecedores são resultado de troca por dívida bancária.

Urbanismo

A revisão do PDM em 2012 foi um dos momentos-chave da gestão de António Costa, porque evidenciou uma orientação para o negócio imobiliário. Quando a cidade precisava de privilegiar a reabilitação urbana e o repovoamento do centro pela população que foi empurrada para a periferia nas últimas décadas, António Costa e Manuel Salgado optaram por multiplicar as mais-valias dos especuladores imobiliários, criando mecanismos como os créditos de construção ou o aumento brutal de área de construção, como é evidente no último escândalo de duplicação de área de construção para projeto de empresa do BES na Av. Fontes Pereira de Melo.

Negócios, isenções e privilégios

Nos últimos meses, António Costa tomou várias decisões polémicas que, beneficiando grupos privados, prejudicam a transparência que se exige. A venda em hasta pública de lotes de terreno, por apenas mais um euro que a base de licitação, à Espírito Santo Saúde em Benfica ou ao grupo Mello em Alcântara, são dois exemplos recentes. Ou a concessão por um quarto de século de vários edifícios e espaços municipais em Monsanto para instalar uma unidade hoteleira, tudo por 2600 euros/mês. A polémica em torno das isenções à sociedade Benfica Estádio soma-se a tantas outras, de vários milhões de euros, como o “Rock in Rio”, a Volvo Ocean Race ou o Mega Pic-Nic promovido pelos hipermercados de Belmiro de Azevedo.

Depois de eleito líder do PS e candidato a primeiro-ministro, António Costa instalou o tabu sobre a sua permanência à frente da CML. Prolongar a presença no município para mostrar trabalho e sucesso parecia ser a melhor estratégia. Mas as últimas semanas têm evidenciado o contrário. Afinal, Lisboa pode ser uma pedra no sapato. António Costa achou melhor descalça-lo mais cedo.

Sobre o/a autor(a)

Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, eleito em 2017. Engenheiro civil.
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