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Romper ou não romper

Muito recentemente surgiram dois manifestos de apelo a convergências à esquerda. Um deles, de reconhecidos historiadores, clama por uma explícita união de forças entre o BE e o PCP. Outro, “Por um diálogo para um governo de esquerda: um imperativo patriótico”, assinado por personalidades com forte ligação ao mundo do trabalho e à academia, defende um diálogo entre PS, BE e PCP e Livre.

Em relação ao primeiro, creio que faz sentido reconhecer que existe um grande potencial de convergência, abundantemente expresso no Parlamento e nas lutas sociais e tornado mais claro, recentemente, uma vez que ambos os partidos têm, ainda que de forma pouco sistemática, começado a pensar numa alternativa nacional fora do Euro. Persistem, todavia, diferenças não despiciendas quanto ao entendimento das liberdades e dos direitos humanos (veja-se o caso de Angola, já para não falar na Coreia do Norte). Mas, o mais importante, é que, provavelmente, estas forças, no momento atual, conseguem mais votos concorrendo separadas do que coligadas. Persiste, é certo, a questão da força no combate social. Aí, seria necessário, se não mesmo urgente, sinalizar, quem sabe mesmo através de um documento programático comum, a vontade de trilhar caminhos conjuntos, na questão do Euro e nas responsabilidades governativas, quando e se for caso disso. Seria como que um sinal de força, em tempos em que ela vai ainda faltando nos ativismos alternativos.

Quanto ao segundo texto, creio que é hoje claro que o PS já fez as suas escolhas, mesmo quando aparentemente nada escolhe. Não quer renegociar a dívida, não rejeita o Tratado orçamental e não questiona o diretório. Acena com algumas medidas avulsas, que o Bloco certamente apoiaria, mas sem um pano de fundo coerente de resposta contra a austeridade, refugiando-se nas “soluções para a década”. A pergunta “Porque não tentar?” a convergência, é respondida vezes sem conta pelos factos e escolhas de cada partido. E deve ser substituída por outra: “porque não ousar romper mesmo com a austeridade”?

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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