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Recados da Madeira

Qualquer eleição regional ou local tem leituras nacionais e só podemos conversar sobre o assunto partindo desta constatação: é diferente, mas os resultados contam mesmo.

Vários analistas argumentaram, um pouco ao sabor das suas fidelidades opinativas, ora que as eleições da Madeira têm ora que não têm implicações nacionais. O facto é que a Madeira tem uma configuração política única, incomparável com os Açores ou o continente e, por isso, é diferente. Mas qualquer eleição regional ou local tem leituras nacionais e só podemos conversar sobre o assunto partindo desta constatação: é diferente, mas os resultados contam mesmo.

Contam para o PSD, que ganhou, como se esperava, e com maioria absoluta. A imagem de renovação feita pelo delfim zangado com o chefe, com a argúcia de Albuquerque ao excluir Jardim de qualquer acto de campanha, mobilizando a sua história de oposição recente dentro do partido laranja, deu-lhe a vitória de que precisava, com um pequeno desgaste de que amanhã ninguém se lembrará (de 48,6% para 44,3%). A coisa abanou pouco e aguentou. A Madeira continua entregue aos seus poderes fácticos de sempre.

Contam para o CDS, que caiu bastante (de 17,6% para 13,7%), mas que não foi absorvido pela renovação albuquerquiana e por isso pode clamar vitória, tanto mais que o PS ficou longe. Este foi o resultado em que errei, no meu prognóstico, porque subestimei a polarização que o CDS manteve.

Contam para o PS que, vindo do seu pior resultado, conseguiu piorar tudo com uma coligação sem credibilidade. “Mudança” somava partidos que tinham cerca de 21% (PS+PTP+PAN+MPT) e contou ontem 11,4%, abaixo do resultado do PS em 2011. O que quer dizer que o PS, descontados os deputados de José Manuel Coelho, fica com o menor número de eleitos de sempre (suponho, com os resultados que vejo, que ficará igual ao PCP+BE). E isto tem duas lições, na minha opinião. A primeira é que para ser alternativa é preciso ter propostas consistentes e o PS não as tinha. Mostrou confusão, propondo para a dívida da Madeira o que rejeita no país inteiro, prometendo como sempre adaptar-se aos poderes financeiros que, esses, não se enganaram de lealdades e ficaram com os governantes já conhecidos. A segunda lição é que, para fazer uma coligação, tem que se ser consistente: a guerra entre o PS e Coelho ridicularizou a iniciativa e agravou o problema.

Contam para o Juntos pelo Povo, que obteve uns notáveis 10,3%, a partir de uma vitória anterior na câmara municipal de Santa Cruz e que cresceu como uma força de inovação. E agora vai ter que tomar posição sobre as decisões.

Contam para o PCP, que passou de 3,8% para 5,5% e recuperou um deputado que tinha perdido na última eleição, mostrando uma capacidade importante de mobilização social.

Contam para o Bloco de Esquerda, que não só recuperou o seu lugar no parlamento como obteve dois eleitos, o que nunca tinha tido na sua história. Demonstrou que fez bem em recusar a oferta da coligação dirigida pelo PS, inconsistente e sem resposta para a Madeira, e fez melhor em bater-se pelas suas propostas. Mostrou a quem aposta na fragmentação da esquerda que esse destino não é inevitável e que se pode crescer em eleições disputadas.

Os resultados da Madeira contam mesmo.

(Correcção: com os resultados publicados, ainda pendentes da verificação de reclamações, o PS fica com cinco deputados e não com quatro, como sugeri atrás; José Manuel Coelho passa de três para um)

Artigo publicado no blogue Tudo menos economia.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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