Manifesto defende pólo à esquerda contra a bipolarização

28 de March 2015 - 13:15

O "Manifesto para uma esquerda que responda por Portugal", hoje divulgado pelo Expresso, defende um "pólo das esquerdas unidas, que saiba merecer um resultado histórico". Esse pólo "ameaçará a bipolarização e mostrará a convergência de fundo entre o PSD e o PS em torno da austeridade". Entre os subscritores estão os historiadores António Borges Coelho, Manuel Loff, Fernando Rosas e Luís Reis Torgal, os músicos Luís Cília e Carlos Mendes, o escritor Mário de Carvalho e personalidades como Isabel Allegro e Pezarat Correia, entre outros.

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Reunião entre o Bloco de Esquerda e o PCP - Foto de Mário Cruz/Lusa.

O primeiro signatário do manifesto, Manuel Loff, esclareceu que os subscritores pretendem “suscitar um debate importante” e assumir as suas responsabilidades “enquanto cidadãos individuais, que não dispensam o papel de atores políticos”.

“Não nos resignamos à ideia de que vai haver alternância sem alternativa”, frisou, lembrando que “o milhão de portugueses que saiu à rua no 15 de setembro não desiste”.

Referindo que “a evolução do PS foi no sentido de eleger um líder da gestão Sócrates, que não traz novidade, nem abre expectativa para qualquer mudança”, Manuel Loff afirma que “há um milhão de pessoas que, regularmente, vota à esquerda do PS e não se resigna”. Para Loff, essas pessoas sabem que o PCP e o Bloco “não têm qualquer ambiguidade sobre a rejeição das políticas de austeridade”.

O documento, disponível para subscrição pela a que “os principais partidos da esquerda que recusa sem ambiguidades a austeridade, bem como milhares de independentes e ativistas, se associem num pólo político, com uma resposta política clara”.

O Esquerda.net transcreve, na íntegra, o texto do “Manifesto para uma esquerda que responda por Portugal”, que se encontra aberto à subscrição em https://manifestoesquerda2015.wordpress.com:

Manifesto para uma esquerda que responda por Portugal

Os signatários, como tanta gente, indignam-se com a degradação de Portugal ao longo dos quatro anos da Troika. Constatamos os efeitos do esboroamento das regras constitucionais, enfraquecendo a democracia onde ela tem responsabilidade social – na justiça tributária, na segurança social, na escola pública, no serviço nacional de saúde – e reforçando uma distribuição cada vez mais desigual do rendimento, o desemprego, a precariedade e a pobreza.

Constatamos também que, depois destes quatro anos angustiantes a corajosa resistência social que se levantou contra a austeridade pode não vir a produzir uma verdadeira alternativa política. À esquerda, quando é precisa convergência, acentuam-se dissensões. Quando é preciso mobilizar alternativas concretizáveis, ouvimos vozes de conformismo. Quando são urgentes programas detalhados para responder a cada problema, notamos superficialidade e palavras gastas. Quando é preciso responder à agressão dirigida por Merkel, com o Tratado Orçamental e a austeridade perpétua, encontramos submissão. Quando é preciso esquerda, ouvimos que é a vez do centro.

As esquerdas representam-se por vários partidos, aos quais compete, em exclusivo, a determinação da sua estratégia. Não nos incumbe, como signatários deste manifesto e com posições diferenciadas, interferir nessas decisões. Move-nos a obrigação de contribuir para uma solução de esquerda para Portugal, manifestando a nossa opinião, porque queremos promover diálogos com resultados.

Quarenta anos depois do 25 de Abril, com um milhão de desempregadas e desempregados, com a finança a cobrar um resgate que tem devastado a vida dos portugueses, com os contratos coletivos enfraquecidos, com o risco anunciado de uma mudança da lei eleitoral feita à medida da perpetuação artificial do bloco central, as esquerdas não podem continuar a ser o que sempre foram. Resistir é pouco para salvar Portugal. Aguentar não é suficiente para mudar. Em nome dos trabalhadores, reformados e jovens que estão a sofrer o país, é preciso mais e queremos mais. O maior ataque que os direitos sociais e a democracia têm sofrido nos últimos 30 anos exige soluções corajosas.

Só a esquerda pode salvar Portugal, restaurar a esperança e reconquistar a democracia para resolver a crise, reestruturando a dívida em prejuízo da finança e assumindo a prioridade do emprego contra as imposições feitas em nome do euro.

Apelamos por isso a que os principais partidos da esquerda que recusa sem ambiguidades a austeridade, bem como milhares de independentes e ativistas, se associem num pólo político, com uma resposta política clara para toda a gente. Um pólo de esquerda significa não somente afirmar uma razão mas também que passará a haver uma proposta de governo que quer disputar a vitória. O pólo das esquerdas unidas, que saiba merecer um resultado histórico, afirmar-se-á como a única alternativa para Portugal. Esse pólo ameaçará a bipolarização, mostrará a convergência de fundo entre o PSD e o PS em torno da austeridade – como fica claro na sua união na ratificação do Tratado Orçamental e dos mecanismos de subtração de soberania a Portugal em matéria orçamental – e colocará na política as soluções que têm faltado.

Nas eleições, esse pólo será a garantia de que um novo governo que aceite o Tratado Orçamental, com a continuação da austeridade e novos cortes contra os serviços públicos e o emprego, terá pela frente uma esquerda capaz de o substituir.

A direita trouxe o país ao empobrecimento e o PS limitou-se a prometer fazer melhor a mesma política nas mesmas restrições nacionais e europeias. Para ser governo, a esquerda tem de ser rutura.

Ao apelarmos à constituição de um pólo político que tenha força bastante para enfrentar a inevitabilidade da austeridade e do mando do capital financeiro, queremos evitar que as esquerdas caiam na armadilha da resignação. Por melhores que pudessem ser os resultados de um ou outro partido, as eleições estarão perdidas para todas as esquerdas se, depois de três anos de Troika, o nosso povo tiver pela frente trinta anos de empobrecimento. As esquerdas ficarão reféns do voto útil e da alternância, a não ser que abram a porta para uma solução, comprometendo-se com uma proposta forte para salvar Portugal. Essa proposta é a esperança e trabalhamos para ela.

António Borges Coelho, historiador
Carlos Mendes, músico
Domingos Lopes, advogado
Fernando Rosas, prof univ
Isabel Allegro de Magalhães, prof univ
Jaime Teixeira Mendes, médico
Joana Lopes, doutorada em filosofia
João Correia da Cunha, médico
Jorge Leite, prof univ
José Neves, prof univ
Luís Bernardo, historiador
Luís Cília, músico
Luís Reis Torgal, prof univ
Manuel Carlos Silva, prof univ
Manuel Loff, prof univ
Mariana Avelãs, tradutora
Mário de Carvalho, escritor
Pezarat Correia, militar
Santos Cardoso, administrador hospitalar
Cláudio Torres, arqueólogo
Guilherme Statter, sociólogo