You are here

Transportes aéreos e Autonomia

Muito se fala hoje do novo modelo de transportes aéreos. Em S. Miguel há regozijo, que eu partilho. Nas outras ilhas mora a perplexidade ou até mesmo a desilusão, o que me deixa apreensiva e preocupada.

Em primeiro lugar, é preciso que algumas coisas estejam claras. As Low Cost desde 2004 não estavam impedidas de voar para os Açores só não o faziam porque não estavam de acordo com o modelo de negócio. Agora que o modelo de negócio lhes agrada vêm.

Aqui cabe logo de imediato a pergunta que várias fiz ao governo regional, à qual nunca obtive uma resposta cabal.

Porque razão a SATA agora pode baixar preços para competir com as Low cost e não o podia fazer antes?

Vem agora o Governo Regional com a propaganda de que os Açores são um aeroporto único.

A vida recente mostra precisamente o contrário.

Uma pessoa minha amiga tinha viagem marcada na Tap no dia 13 de Lisboa para o Faial e volta dia 18, a Tap pura e simplesmente cancelou a viagem e deu como alternativa dias 14 e 19.

Alterava a vida da pessoa onerava a sua viagem pois perdia um dia de trabalho e obrigava a mais um dia ineficaz com mais despesa pessoal. Como este exemplo que conheço tenho queixas de muitas mais pessoas.

Pode-se dizer que foi um percalço, sem exemplo motivado pela alteração que está em marcha.

Mas o problema é mais fundo.

Todos sabemos como é importante para a economia os custos de contexto, como por exemplo a eletricidade ou os transportes e nos transportes para além do custo a facilidade.

Ora nos Açores temos disparidades de desenvolvimento enormes, como é possível as ilhas com menos recursos desenvolverem-se se têm viagens diretas para não residentes pelo menos ao dobro do preço e sendo ao mesmo preço, os acessos têm duas viagens e não é certo no mesmo dia.

Não é verdade que este modelo acentua a dupla insularidade para a maior parte das ilhas?

Como sempre dissemos o novo modelo devia assentar na SATA, a preços competitivos. Não foi este o modelo que o Governo Regional hoje defende porque ajoelhou aos ditames do Governo da República e da lógica liberal.

Para além dos custos já anunciados para os trabalhadores da SATA, 250 despedimentos para iniciar de imediato (Já sabemos que os trabalhadores a prazo, não são pessoas nem trabalhadores).

A SATA vai cobrir nas ilhas do Faial e do Pico a saída da TAP, pois segundo esta empresa as rotas referidas vão dar prejuízo. Então quem é que vai pagar este prejuízo?

É claro que todos os Açorianos. Por acaso o governo tão pródigo em arranjar slogans para esconder as suas cedências já fez contas a quanto vai custar ao dinheiro de todos nós esta opção?

Como é claro no relatório da SATA, as compras de aviões sem necessidade, a gestão ruinosa de rotas para aviões supérfluos, mais as dívidas do governo da república e regional à empresa, etc, etc. Colocaram a SATA numa situação muito complicada, para não dizer tremenda.

Tenho para mim, e neste pensamento tenho a certeza que não estou sozinha, que para além do imperativo legal a construção de uma autonomia forte exige muito mais fatores, no quadro dos Açores, a companhia regional de aviação tem sido um desses fatores preponderantes, mas temo que a debilidade da SATA, que tem vindo a ser aprofundada e tudo indica vai ser reforçada, rime com Autonomia sustentável.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
(...)