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Invasão do Iraque: crime de guerra

Há doze anos uma coligação dos EUA e seus lacaios europeus invadiram o Iraque. “Crime de Guerra” foi, na altura, uma tentativa a quente de caracterização do ato sem precedentes (Afeganistão incluído) de violação ostensiva e consentida das regras de relacionamento internacional inscritas na Carta da ONU. Por Mário Tomé
Tanques dos EUA entram em Bagdade. Parecia um passeio. Só parecia. Foto de: Technical Sergeant John L. Houghton, Jr., United States Air Force - http://arcweb.archives.gov/
Tanques dos EUA entram em Bagdade. Parecia um passeio. Só parecia. Foto de: Technical Sergeant John L. Houghton, Jr., United States Air Force - http://arcweb.archives.gov/

Nota prévia:

Há doze anos uma coligação dos EUA e seus lacaios europeus invadiram o Iraque.

Para além do petróleo e do controlo geoestratégico da região tratou-se de cumprir o programa de execução permanente do complexo industrial militar que tem no Pentágono a sua ponta de lança.

O objetivo anunciado, impor a Saddam a destruição de armas químicas e implantar a democracia no Iraque pelo derrube do ditador, foi vivamente denunciado como fraudulento e inexequível, por amplos sectores políticos e da opinião pública inclusive nos próprios EUA.

Mais tarde, a sede de democracia das administrações ianques – democratas e republicanos – levou-as a liquidar os movimentos genuínos de luta popular por reais transformações políticas e económicas no Médio Oriente. Desta vez por interpostos agentes que, apoiados e armados pelas potências imperialistas, impuseram verdadeiras intercepções armadas desarticulando brutalmente as chamadas “primaveras árabes”.

Os resultados estão à vista.

Crime de Guerra” foi, na altura, uma tentativa a quente de caracterização do ato sem precedentes (Afeganistão incluído) de violação ostensiva e consentida das regras de relacionamento internacional inscritas na Carta da ONU. Tinha início aquilo a que Mohamed Elbaradei veio a chamar mais tarde num livro recente, “A era da mentira”

O movimento anti-guerra que nasceu, também enfraqueceu na sua virulência inicial. Malhas que o império tece…

Milhares de mortos, destruições incalculáveis no património de um povo e de uma civilização, a nossa exatamente, num confronto impensável entre o maior poderio militar do planeta e um país que desde há 12 anos está impedido de se armar, foi obrigado a destruir todas as armas de defesa com um mínimo de eficácia, e cujos chefes militares passariam a ser acusados de terroristas se se opusessem à invasão inimiga.

Nunca uma invasão tinha tido lugar sendo ao invadido “proibido” resistir. Foi isso que aconteceu agora.

Enviados de Deus

Pela primeira vez a Saddam Hussein faltou-lhe a esperteza no seu jogo com a ONU, com os EUA e com os vizinhos, que lhe permitisse continuar a reivindicar o estatuto de herói da resistência árabe. Agora, já ameaça sem crédito nem meios, mas ainda útil para ser exemplar e simbolicamente eliminado num último ato de cinismo, mentira e vandalismo: os EUA avançaram para destruir o que eles bem sabiam ser a força inerme, a ameaça inexistente. Nunca uma ação militar desta envergadura foi tanto um ato de propaganda, de liturgia de poder, de arrogância dominadora, de sarcasmo humilhante, não só contra a vítima imolada mas também contra a corte rendida e veneradora da generalidade dos Estados. Nenhum governo quis ou teve a coragem de contribuir para desmontar a paranoia criminosa de mentira, encobrimento e crime que caracterizam a diplomacia, as ameaças e as ações da Administração Bush.

Saddam Hussein cumprimenta Rumsfeld, então enviado do presidente Reagan, em 1983.


Depois de, na guerra de 91, o pai Bush ter mantido o regime, Saddam deve ter pensado que continuava a ser uma pedra importante para o jogo estratégico dos EUA na região. Mas o 11 de setembro permitiu ao regime imperial dos EUA arrastar todos os pusilânimes para a sua estratégia de domínio mundial sem concorrência. O choro das vítimas das torres gémeas tornou-se num coro de hunos -. emergiu sem pudor a verdadeira face do imperialismo norte-americano. Quando “Le Monde”, na vanguarda das boas causas, proclamou em 12 de setembro de 2001, “somos todos americanos” já estava criado o ambiente para W. Bush anunciar: a ONU será o que nós quisermos, o mundo será como nós queremos, a democracia é a nossa grande arma porque não a respeitamos; os direitos humanos são o nosso objetivo... a abater. Nenhuma lei vigorará desde que limite o nosso poder, nenhum direito subsistirá se nos quiser ser aplicado. A nossa força não é só a força bruta. Não nos faltam Pachecos Pereira, Josés Manuel Fernandes, Vascos Graça Moura e Rato, Proenças de Carvalho e, a nível da calçada, Luíses Delgado e Antónios Ribeiro Ferreira para argumentarem a superioridade da democracia americana. Ela é possível, necessária e urgente no mundo inteiro. A ciência da química e da física, a técnica das armas e do petróleo são mais positivas, mais rápidas, mais otimistas do que a arrastada ciência que se debruça sobre as civilizações, as sociedades, as religiões, as pessoas humanas.

A democracia do Novo Mundo é a mais avançada e a única em consonância com a suprema vontade de Deus. Ir além dela não é possível. Ficar aquém dela não é tolerável. Como diz o nosso amigo e eminente diretor José Manuel Fernandes (JMF), o Islão é compatível com a nossa democracia se houver boa vontade e bombas a tempo. Para não correr o risco de uma votação livre poder ser ganha pelos fundamentalistas1 – no Iraque a maioria é xiita, amiga do Irão - e por isso tal resultado ser inaceitável, como na Argélia, a democracia será assegurada por gente da melhor estirpe. O chefe da oposição do Iraque no exterior, senhor Ahamad Chalabi que não tem ambições e não quer nenhum cargo e, segundo parece, nenhum iraquiano conhece, reúne as melhores condições para ter o nosso apoio para nos apoiar, não suscitando visivelmente opiniões contraditórias. Tendo ele já dito que o povo iraquiano não quer nada com a França nem com a Alemanha e que considera a ONU um instrumento de Saddam Hussein, trata-se de um verdadeiro amigo da Nação Americana.

Filhos de um talibã menor

O saque e pilhagem do Museu Nacional de Bagdade e do Museu de Mossul e a pilhagem e incêndio da Biblioteca de Bagdade, o Templo da Sabedoria, e da Biblioteca de Bassorá são perdas irreparáveis, de magnitude incalculável. O incontornável JMF já veio desculpar e relativizar a situação: a destruição dos Budas no Afeganistão foi intencional, comandada pela ideologia (do eixo mal, I presume..); “o desaparecimento das provas de que aqui houve um dia uma civilização” conforme o título da crónica de Paulo Moura no jornal de JMF, sendo grave não é imputável. Dando de barato que a culpa última é de Saddam, sabe-se, todavia, que as tropas americanas estiveram lá e que depois deixaram campo livre aos saqueadores, segundo testemunho citado no mesmo “Público” de JMF. Parece plausível a hipótese de instigação e orientação de quem possa vir a beneficiar com o saque: personalidades do regime, personalidades iraquianas dadas ao negócio, personalidades ocidentais do “ramo” ou cultos generais coligados! Mas mantém-se brutal, na dor imensa que exprime, a acusação: “Os iraquianos não sabem o valor destas peças. Isto foi um roubo organizado, concebido para aniquilar o Iraque e para fazer fortunas incalculáveis com estas peças. Há testemunhas, pessoas que viram os americanos roubar” (“Público”, 15 abril)

De qualquer forma a permissão das tropas ocupantes materializa o crime maior, quer pelas responsabilidades que lhes cabem como única força existente que destroçou e destruiu a organização e ordem anteriores, quer pelas leis da guerra. Os senhores da guerra, a Administração dos EUA, manifestam um total desprezo pela civilização universal, logo pela própria humanidade. Veio a público que o Pentágono foi alertado para os riscos de saque na sequência da destruição do regime. O próprio responsável da American Association for Research in Bagdade, citado no Washington Post o declarou. Collin Powell na boa tradição americana já garantiu que vão proteger o património histórico e ajudar a restaurar o Museu Arqueológico e já terá mesmo posto em marcha (I presume) a execução em plástico do melhor, das réplicas e duplicados de todas as peças catalogadas. Para além dos contactos com os receptadores seus amigos. Boas notícias para um próximo editorial de JMF, um artigo de Pacheco Pereira ou de Vasco Graça Moura.

Também matamos jornalistas

(ninguém os mandou meter o nariz)

José Couso Permuy, um dos jornalistas assassinados


O assassinato de três jornalistas na sequência do ataque às instalações da Al Jazeera e ao Hotel Palestina onde se instalavam desde o início da invasão cerca de 200 jornalistas dos media ocidentais, simboliza dramaticamente o ataque às liberdades desde que os EUA declararam guerra ao mundo, na exploração do sucesso do cada vez mais ambíguo ataque às Twin Towers.

Este “crime de guerra” como foi definido prontamente pela Associação Internacional de Jornalistas, resulta da atitude do agressor sem oposição credível, cobarde na desproporção de meios, decidido a fazer uma guerra sem perdas, medroso e histérico na reação a qualquer suspeita de ameaça, temeroso da informação livre, justificando todos os crimes e a barbárie imposta a milhões de iraquianos como “danos colaterais”.

O General Vincent Brooks negou o que o comando central confessara já ao Governo espanhol, quando este pediu explicações pela morte do jornalista José Couso Permuy, que o hotel fora classificado como objetivo militar 48 horas antes do ataque.

A mentira e o crime são a grande força da atual democracia norte-americana. Powell mentiu descaradamente ao Conselho de Segurança quando expôs as falsas provas de que o Iraque possuía armas químicas. A existência dessa mentira, insinuada na altura pelo chefe dos inspetores Blix, foi agora confirmada sem rebuço, perentória e firmemente por dois inspetores da ONU que estiveram no terreno, um alemão e outro norueguês. Mas nada disso impede, nem o facto de Saddam não ter utilizado, perante a derrota total, as famosas armas químicas, que a Administração norte-americana diga que vai encontrá-las e que avise a Síria de que tenha ou não armas químicas vai ser atacada se não obedecer sem hesitações a tudo o que Bush mandar. E sabe-se como isso já não é suficiente.

Náusea”

Rumsfeld e Franks: "Nós não contamos mortos". Foto de Helene C. Stikkel, domínio público


“O país que mais armas e mais mentiras fabrica no mundo despreza a dor dos outros: 'Nós não contamos os mortos' respondeu o general Franks quando alguém lhe perguntou sobre os 'danos colaterais' como se chamam os civis que voam em pedaços sem esta nem mais aquela. Aliás, enquanto Rumsfeld dizia: 'estes são bombardeamentos humanitários', as bombas estripavam crianças e arrasavam mercados e hospitais”.2

O desígnio dos EUA foi definido desde o século XIX, e reforçado logo a seguir à segunda guerra mundial – dominar o mundo custasse o que custasse, a partir da posição dominante obtida ao entrarem tarde e a más horas na guerra contra o nazismo e com a derrota do Japão em que se instituíram como vencedores únicos e absolutos ao terem mandado a fortaleza voadora “Enola Gay” lançar as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, quando a derrota do Japão era uma realidade e estava acordada a investida soviética a partir de Vladivostok.

“Quem o arrastou (Roosevelt) para a guerra não foi Churchill (que pedia e mendigava apoio durante dois anos NR) mas Hitler que lhe declarou guerra uma semana depois (de Pearl Harbour)”.3

“Enquanto a Europa se afundava a ferro e fogo, sob a bota nazi, na América fazia-se business as usal”.4 “Os EUA emergiram (em 1945) com a sua indústria e terrenos agrícolas intactos e uma economia mais forte que antes da guerra. (Nesse ano) o PIB dos EUA elevava-se a 213 mil milhões de dólares contra 91 mil milhões quinze anos antes” (Jack Watsojn in Success in World History since 1945)5

Dizia o Secretário de Estado George Kennan em 1948: “Os EUA possuem cerca de 50% da riqueza mundial mas apenas 6,3% da sua população. Nesta situação, não podemos deixar de ser objeto de inveja e de ressentimento. A nossa verdadeira tarefa no período que se avizinha é arquitetar um padrão de relações que nos permita manter esta posição de disparidade sem prejuízo grave para a nossa segurança nacional. Para tal teremos de nos deixar de todo o sentimentalismo e utopia e a nossa atenção terá de se concentrar nos nossos objetivos imediatos.”6

Assassinos de voz meiga

Derrube da estátua de Saddam


Com a vitória dos coligados na batalha de Bagdade e o desmantelamento do regime, a tirania de Saddam chegou ao fim. Os assassinos de voz meiga já estão a lembrar-nos que os iraquianos foram libertados. Um sabujo parlamentar, Telmo Correia/CDS/PP, chega mesmo a dizer que quando os americanos tomaram conta do centro de Bagdade e a estátua de Saddam foi derrubada tal equivalia ao 25 de Abril. O 25 de Abril acabou com a guerra, com a ocupação das colónias e foi feito para acabar com as mortes e pela tropa sofredora da política do império, caduco mas império. Ele era miúdo na altura mas o papá deve ter-lhe dito que os comunistas iam dar cabo do país. Ele é apenas um provocador afascistado.

Mas os iraquianos vão querer mesmo a sua liberdade. Coisa que os exércitos americanos não vão conseguir proporcionar-lhes.

Com os nazis, a colaboração dos EUA foi bastante boa no fim da segunda Guerra Mundial. E não me refiro apenas aos colaboradores científicos e burocráticos, muitos deles empenhados no programa armamentista que hoje faz dos EUA a hiper-potência militar; refiro-me aos homens e mulheres do aparelho nazi considerados úteis para garantir um novo poder.

No Iraque o povo era esmagado. Mas muitas centenas de milhar constituíam a base familiar, tribal, clãnica que dominava a rede onde o povo estava enleado, beneficiava dos extraordinários rendimentos do petróleo e pouco ou nada tendo sido afetada pelas sanções - pelo contrário enriqueceram ainda mais. Esses vão , muito provavelmente, exceto alguns cabeças que terão mesmo que rolar, manter as suas posições de controlo “necessário” ao regime marcial que vai ser implantado, esses que assegurarão a continuação do negócio petroleiro agora subordinado ao ocupante. Esses que ajudarão a orientar e a recrutar os trabalhadores que irão reconstruir o Iraque às ordens das empresas norte-americanas. Esses que garantirão a construção da democracia.

O povo que morreu na guerra contra o Irão apoiada pelos EUA, nomeadamente pelo fornecimento de informações e armas, que morreu na guerra de 91, que morreu às mãos das tropas de Saddam com armas vendidas pelo governo de Cavaco/Durão Barroso e na presença neutra das tropas norte-americanas, que morreu em 98, que morreu e sofreu com as sanções e os bombardeamentos nas áreas de exclusão durante anos, com a contaminação do urânio empobrecido e agora com os “danos colaterais” desta obscenidade militar, esse vai continuar a viver como sabe e pode e a traçar a sua luta. É contra esse povo que a rede antiga vai continuar – não digo intacta – mas a funcionar, primeiro no regime da lei marcial depois no regime “democrático” imposto pelos norte-americanos.

Os grandes estrategas

Os fazedores de opinião e a sua corte de comentadores e analistas puseram-nos a assistir, na TV, a uma feira da ladra e de vaidades sem precedentes. Ao ponto de o prestimoso ministro da Defesa ter mandado especialistas encartados, com provas dadas na Bósnia - que foi, nos tempos modernos, a guerra que se arranjou para medalhar os nossos tropas e mostrar ao mundo as nossas gloriosas forças armadas, -explicarem-nos a inteligência estratégica dos generais americanos. E de facto nunca se viu.

Tanque e blindado iraquianos abandonados na estrada.


Num Teatro de Operações sistematicamente “amaciado” por bombardeamentos desde dezembro de 19987, assegurando um “espaço de batalha suplementar” muito útil para desenvolvimentos futuros8; um terreno sem qualquer cobertura a não ser quando Alá enviava - e fê-lo uma ou duas vezes – uma tempestade de areia; onde qualquer movimento suspeito, mesmo que de jornalistas, amigos e aliados, apanhava com uma das trinta mil missões aéreas, sem qualquer oposição, com domínio aéreo total, matando-se até uns aos outros de vez em quando para compensar a falta de eficácia ou a fragilidade real do inimigo, um exército de 150 mil homens avançou em tenaz umas vezes ou como aríete outras, apoiado por milícias Curdas no Norte e às vezes por alguns jornalistas no sul. Avançou por uma terra que há anos é bombardeada praticamente todos os dias, com uma população debilitada pela bruteza do ditador e pelas consequências de um embargo que conseguiu reforçar o poder real do ditador e da sua corte.

Então as tropas marcharam, garantindo a liberdade aos habitantes de cidades que, na primeira fase, só ao fim de 15 dias fizeram render pela fome e pela sede, aos camponeses a quem presentearam com bombas de fragmentação ou assassinaram a tiro se lhes apareciam pela frente enquanto a coluna progredia rapidamente: “Na região de Kerbala foi horrível, havia aldeias, muita gente, muitos carros civis. Nós não podíamos parar, abríamos fogo sempre em frente. As pessoas fugiam, saíam das casas e corriam pelo meio do fogo. Matámos muitos civis. Mas era impossível evitá-lo. As pessoas corriam e nós matávamo-las”9.

Suave milagre

O recém nascido estava na incubadora mas o oxigénio estava a esgotar-se no hospital. O bebé já mal respirava, ia morrer. Mas eis que, de repente, chegam “Os Ratos do Deserto” a divisão inglesa que atacou no sul. Eles tinham o oxigénio salvador.10 E a criança viveu para poder dar graças à coligação.

De qualquer forma a culpa das mortes, dos saques, da sede e da fome, da destruição brutal, não cabe ao exército invasor. Dizem os nossos assassinos de voz meiga que a culpa de tudo o que aconteceu e vier a acontecer é todinha do Saddam. Nomeadamente a culpa de não aparecerem as armas de destruição massiva. (Perguntem ao FBI como eles encontram o pacote de heroína na casa das pessoas).

Uma linha de defesa do indefensável tem sido, depois de iniciada a invasão, a de colocar as pessoas e o movimento anti-guerra, que não propriamente pacifista, perante um dilema cretino e pérfido: pois bem, és contra a guerra, eu também não gosto nada, quem gosta?, é sempre terrível, mas agora quem queres que ganhe? Os EUA ou o ditador Saddam? A pergunta do DN durante o tempo que durou a guerra foi: o Iraque vai ficar melhor ou pior sem Saddam? Praticamente sem exceção as pessoas foram respondendo: melhor. Eis como, enquanto decorria a chacina e a destruição do Iraque, as pessoas foram levadas a colocar-se, sem quererem, na posição de defensores da guerra, que irá levar “o Iraque a ficar melhor”.

Os assassinos de voz meiga abundam desde que se delineou o conflito. Entrámos de facto não só no assassínio do direito internacional, no assassínio da liberdade de imprensa11, no assassínio de jornalistas, mas também no assassínio da razão. Justificar e defender uma guerra preventiva ilegal, assassina e destruidora - quando o mundo já tinha, por entre imensas dificuldades, chegado ao primado do direito nas relações entre Estados - com base no resultado obtido, fora de qualquer apreciação da proporcionalidade, adequação e legalidade dos meios, passa pelo assassinato não só do direito mas da razão, da inteligência, do pensamento crítico.

Esta guerra só tem um vencedor: o imperialismo norte-americano; a recolonização à americana, com os lacaios do costume. Depois de atingidos os objetivos principais - revitalização da economia através da indústria do armamento, controlo do petróleo através do controlo do Iraque, preparação do controlo da Região e das guerras necessárias para tal (os avisos à Síria são sinistros), colocar definitivamente a ONU reduzida a uma espécie de Cruz Vermelha Internacional um pouco mais abrangente, reforçar a posição de Israel contra a resistência palestiniana12, esta guerra tem como finalidade decorrente a apropriação pelas empresas norte–americanas da reconstrução do Iraque totalmente arrasado: infraestruturas, cidades, monumentos. Os arquitetos das grandes obras que se preparem: os Zigurates vão ser substituídos por torres de vidro. Esta será a grande vingança cultural dos EUA pós 11 de setembro.

Gangsters à solta

A cimeira dos Açores que decidiu a guerra. Foto By Staff Sgt. Michelle Michaud (DefenseImagery.mil, VIRIN 030316-F-1698N-007) [Public domain], via Wikimedia Commons


Noam Chomsky num recente livro “Piratas e Imperadores. Velhos e Novos. O terror que nos vendem e o mundo real”, inspira-se numa história passada com Alexandre Magno que captura um pirata e o acusa de molestar o mar, ao que o pirata responde que o rei faz pior pois molesta o mundo inteiro. Esta história, faz lembrar o general Simedley Butler que, em 1935, resumiu assim as suas três décadas de ação como oficial de marines: “Eu fui um pistoleiro do capitalismo” acrescentando que podia dar alguns conselhos a Al Capone, porque os marines operavam nos três continentes e Capone actuava apenas em três distritos de uma só cidade.

Espalhar a democracia à bomba parece ser, a partir de agora o objetivo anunciado dos EUA.

Não se sabe bem qual a democracia que os EUA quererão espalhar pois a democracia nos EUA está a desaparecer e a ser substituída por uma espécie de ditadura atípica a que, no entanto, há quem chame “Estado teocrático e fascista dos EUA”13.

A este Brave New World aderiu sem hesitação o governo de Durão Burroso, na doce linguagem do querido George. Arrastando consigo a dignidade de todo um povo. Cobardia, mão estendida e lambebotismo passaram a fazer parte, como nunca até hoje, da política externa portuguesa.

Barroso alinhou com Saddam, vendendo-lhe armas que reforçaram o seu poder contra o próprio povo, alinha com Bush contra a ONU e contra o mundo. Contra a opinião do povo português (pensa ele, como Goering, que bastará dizer às pessoas que estão a ser atacadas e denunciar os pacifistas pela sua falta de patriotismo e por porem o país em perigo para fazer o que quer?) desonra o país, sujeita-o a atos de retaliação terrorista, cede a Base das Lajes para uma guerra privada e ilegal dos EUA e da Grã-Bretanha, contra a Carta das Nações Unidas, contra o direito internacional e o juízo mundial, alinhando no delinear de uma estratégia de “Guerra Infinita”14 e de domínio mundial da administração G.W.Bush.

Por isso as comparações que Bush fez de Saddam com Hitler caem-lhe todas em cima da cabeça e servem-lhe como fato feito por medida. Não no “Alfaiate do Panamá” o romance onde John Le Carrée descreve sem ambiguidade – seguido de perto pelo filme do mesmo nome – o ataque dos EUA ao Panamá que incluiu o bombardeamento planeado dos bairros pobres onde se escondiam a oposição e os sindicalistas, tendo chacinado milhares de pessoas.

Bush decidira fazer a guerra com ou sem ONU. O apoio semidiscreto que tinha no início por parte da Rússia e França foi retirado face às posições contra a guerra das respetivas opiniões públicas e perante a consciência de que iriam beneficiar colocando-se numa posição de contraponto. Bush andou em frente sem hesitação: a sua guerra privada ia ser um êxito e as potências rivais iam rabiar para terem papel na reconstrução, ou seja no saque15. Elas aí estão dispostas a aceitar um papel dispiciendo para a ONU desde que possam mamar na grande teta mesopotâmica.

Amor à pátria

Para manter o Comiberland em Oeiras, certamente aconselhado por Isaltino Morais, Durão Barroso colocou-se na posição de fora da lei internacional, de cúmplice de uma guerra privada. Para isso e também para ver se contempla a sua querida pátria com algo que sobre do grande saque e do espólio do Iraque, e para poder enviar uns militares que mostrem ao mundo o poderio de Portugal e a sua capacidade de projeção de forças.

Não suficiente – o mundo de hoje é de cooperação e solidariedade como é sabido – mas que será um crédito quando precisarmos que o exército norte-americano nos venha defender das ameaças árabes do norte de África, segundo o miserável pensamento estratégico de Durão Barroso, Paulo Portas e Martins da Cruz.

Mas Durão Barroso está fora das grandes jogadas. Da jogada dos EUA porque não passa de um lacaio menor. Resta ainda, aliás, saber quanto nos vai custar esta guerra.16

E está fora do grande movimento que está ser gerado em oposição à guerra porque «as pessoas já não acreditam mais neles. É por isso que temos oposição mesmo antes de uma guerra ter estalado, porque as pessoas desafiam as premissas básicas da guerra. Sabem que as razões que o ocidente está a dar para esta guerra são completas mentiras. As pessoas estão a ver para além disso. Não acreditam. Sabem que se trata de petróleo e de refazer o Médio Oriente. E eu penso que esta guerra no Iraque, apesar de serem um pouco imprevisíveis as consequências para o Médio Oriente, pode provocar uma balbúrdia, mas o que ela provocará é a criação de uma oposição na Europa e quando tivermos políticos que não reflitam a opinião pública nos países europeus, então tudo será possível.”17

O movimento global contra a guerra tem todas as condições para se desenvolver como movimento anti-imperialista. Esse é hoje o objetivo fundamental de todas as forças da paz e do progresso. Esse movimento anti-imperialista, hoje mais do que nunca, precisa de contar com uma forte organização dentro dos próprios Estados Unidos. É isso que se delineia com figuras poderosas do ponto de vista moral, político, intelectual, e o movimento que toca aceleradamente a juventude que se vai libertando do medo espalhado pelo poder e pelas organizações de extrema direita, KKK e Movimento do Cidadão Armados (MAC)18.

As guerras futuras, a guerra infinita que os EUA se propõem manter, têm pela frente um grande movimento mundial que promete ser imparável e que exige a retirada das tropas da coligação do Iraque e a entrada da ONU para ajudar a sociedade iraquiana a erguer-se. Depende de nós.

Artigo de Mário Tomé

1 Não será uma democracia igual às ocidentais. Começa por não poder ser laica , sobretudo numa época em que o Islão é visto como panaceia para todos os males. Há anos atrás talvez isso tivesse sido possível; hoje não. As pessoas não sabem mas mesmo a Jordânia e o Egito aprovaram nos últimos anos várias leis que são violações significativas dos princípios democráticos, desde censuras a programas de televisão à imposição de divórcios. Fizeram isso para responder à crescente sensibilidade islâmica das suas populações.

Só haverá democracia quando as elites políticas, económicas e tribais, os grupos de influência e as famílias tradicionais se convencerem que é esse o caminho que devem seguir: para já não têm nenhum interesse na liberalização. As pessoas têm de meter na cabeça que no mundo árabe não há tradição democrática, a política sempre teve uma dimensão tribal ou clãnica.”

“Esta guerra vai exacerbar os problemas. Vai reforçar o islamismo radical e os fundamentalistas.”

Maria do Céu Ferreira Pinto, (doutorada em política do Médio Oriente; diretora do Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Minho) Entrevista na Pública, 13/4/03

2 Eduardo Galeano, Náusea: “O país entregue a bombardear os outros países, que desde há anos e anos vem infligindo ao planeta uma quantidade inumerável de onzes de setembro proclamou a terceira guerra infinita. O presidente que não foi ao Vietname graças ao papá e que só conhece as guerras de Hollywood manda matar e manda morrer. Não em nosso nome, clamam os familiares das vítimas das torres. Não em nosso nome, clama a humanidade.”

3 António Mega Ferreira, Para refrescar a memória, Visão

4 idem

5 idem

6 Rivers Pitt, Guerra contra o Iraque, Europa América

7 Steven Lee Myers, In Intense But Little-Noticed Fight,Allies Have Bombed Iraq All Year, New York Times 13ago99 in Cerco ao Iraque, Anthony Arnove, Campo das Letras: “Ao longo dos últimos oito meses, os pilotos americanos e britânicos dispararam mais de 1100 mísseis contra 359 alvos no Iraque. (…) Por comparação, os pilotos realizaram quase mais dois terços das missões que os pilotos da NATO fizeram sobre a Jugoslávia em setenta e oito dias de guerra permanente nesse país[em1999]”

8 William M. Arkin, America Cluster Bombs Iraq especial do Washington Post.com, 26fev2001 idem

9 Paulo Moura, declarações do tenente Casswell, Público

10 Jornal da Noite, 14 abril, SIC

11 “Jornalistas disfarçados de soldados que mais parecem soldados disfarçados de jornalistas, contam a guerra do Iraque para as grandes antenas de desinformação globalizada. Mortandade em mercados cheios de gente? São bombas Iraquianas. Civis mortos? São escudos humanos usados pelo ditador. Cidades cercadas sem água nem comida? A sede e a fome são missões humanitárias. Resistem as cidades? Na TV rendem-se todos os dias. Os invasores são heróis. Os invadidos são instrumentos da tirania acusados de defender-se.

A maioria dos norte-americanos está convencida que Saddam Hussein destruiu as torres de Nova Iorque. Também acredita essa maioria que o seu presidente fez o que fez pelo bem da humanidade e por inspiração divina. Os meios de comunicação massivos vendem certezas e as certezas não precisam de provas. Porém o mundo está farto de que mais uma vez o obriguem a comer todos os dias os sapos desse menu.”

Eduardo Galeano Náusea

12 “A médio prazo é completamente impossível haver democracia na zona. Enquanto não for resolvido o conflito israelo-árabe, que joga a favor dos regimes ditatoriais, será impossível haver estabilidade na zona. Como esse ambiente tem sido agravado pelas intervenções dos EUA, isso passa também por uma política americana de menor interferência e de maior respeito pela sensibilidade das populações muçulmanas. É necessário um longo período de low profile.”

Maria do Céu Ferreira Pinto, ibidem

13 John Staton/Wayne Madson, The emergency of the Fascist American Theocratic State, 10 fevereiro2002

14 Francisco Louçã/Jorge Costa, Guerra Infinita, Afrontamento

15 “Os EUA foram o único beneficiado com a II Guerra Mundial. Durante e depois do conflito. Durante, como bem explica Heinz Dieterich em La Republica, porque desenvolveu longe dos campos de batalha a sua indústria e agricultura aumentando os salários reais de 1941 a 1945 em cerca 27% gerando 17 milhões de novos postos de trabalho e oferecendo em 1944 mais produtos e serviços à sua população que antes da guerra.
E depois da guerra cobrou dez por um na sua participação

Federico Fassano La República, Montevideo

16 “Washington espera convencer outros países a pagarem a fatura da limpeza da devastação, como aconteceu após a última Guerra do Golfo.(...) Segundo o Washington Post, 'A Guerra do Golfo em 1991 custou 61 mil milhões de dólares, mas cerca de cinquenta mil milhões foram pagos pelos aliados dos EUA, nomeadamente Arábia Saudita, Kuwait e Japão, que não deverão contribuir desta vez'. As estimativas de custos do ataque ao Iraque ascendem a valores na ordem das dezenas ou centenas de milhares de milhões de ou até mesmo biliões de dólares”.

Anthony Arnove Cerco ao Iraque, Campo das Letras

17 Tariq Ali Entrevista de Carrol Cox a Chomsky, Ali, Achar, 22 dezembro2002.

18 Michael Moore, Bowling for Columbine (filme)

Sobre o/a autor(a)

Coronel na reforma. Militar de Abril. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
(...)

Resto dossier

O Iraque 12 anos depois da invasão

Foi há 12 anos que as tropas comandadas pelos EUA e o Reino Unido invadiram o Iraque, numa ação militar que parecia um passeio e se tornou no pior dos pesadelos. Um inferno desde logo para o massacrado povo iraquiano, mas também para Washington, que acumula desastres e hoje, 3 anos depois da saída das suas tropas, assiste impotente às vitórias do Estado Islâmico e ao crescimento da influência do Irão. Esse é o tema deste dossier, coordenado por Luis Leiria.

Tanques dos EUA entram em Bagdade. Parecia um passeio. Só parecia. Foto de: Technical Sergeant John L. Houghton, Jr., United States Air Force - http://arcweb.archives.gov/

Invasão do Iraque: crime de guerra

Há doze anos uma coligação dos EUA e seus lacaios europeus invadiram o Iraque. “Crime de Guerra” foi, na altura, uma tentativa a quente de caracterização do ato sem precedentes (Afeganistão incluído) de violação ostensiva e consentida das regras de relacionamento internacional inscritas na Carta da ONU. Por Mário Tomé

A mentira inicialmente repetida como um refrão; a euforia das semanas da invasão, com os bombardeamentos e o avanço dos tanques pintados como uma “libertação”.

(Ex)citações de apoio à guerra

O mais empenhado propagandista da invasão do Iraque foi José Manuel Fernandes, hoje mentor do diário de direita Observador. Há doze anos, não esteve sozinho. Lembremos quem fez da palavra a apologia de um crime.

Cronologia: da invasão ao Estado Islâmico

Entre janeiro de 2002 e março de 2015, 13 anos de cronologia. Da invasão e derrube de Saddam Hussein à explosão da guerra civil; do proconsul Paul Bremmer ao governos de Al-Maliki; da saída das tropas dos EUA à conquista de amplo território pelo Estado Islâmico.  

Execuções em massa divulgadas em vídeo para provocar pavor

Estado Islâmico: Gestores de selvajaria

A brutalidade sectária do Estado Islâmico (EI) permitiu ao presidente sírio, Bashar al-Assad, fazer-se passar dissimuladamente por vítima: o incendiário que aparece como um bombeiro. Artigo de Muhammad Idrees Ahmad, publicado no In These Times.

Abu Baqr al-Baghdadi declarou o califado em 29 de junho do ano passado.

O dinheiro do petróleo do Golfo está a sustentar o Estado Islâmico

Doadores privados de Estados do Golfo ajudam a suportar salários de até 100.000 combatentes do EI. Por Patrick Cockburn.

O general iraniano Qassim Suleimani passou mais tempo no Iraque que no Irão desde o verão do ano passado. Foto Isna

Washington assiste impotente à intervenção do Irão no Iraque

Diante do desmoronamento do Exército iraquiano, foram as milícias xiitas, organizadas, armadas e dirigidas por oficiais iranianos, que detiveram o avanço do Estado Islâmico em direção a Bagdade. Por Luis Leiria

Militantes do EI destróem a marreta estátuas com 3.000 anos, num vídeo divulgado pela própria organização.

O Estado Islâmico e a tentação do zero

Aquele que mata um homem – ou mil – é um assassino; o que destrói a memória da humanidade é pura Natureza: opera como esses cataclismos que, segundo Platão, destruíam a cada 10.000 anos a civilização, obrigando um punhado de “homens toscos e ásperos” a começar de novo. Por Santiago Alba Rico, Quarto Poder