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Diz o Presidente que 2%

Como as crianças, as boas novas chegam de Paris no bico de uma cegonha: o Presidente Cavaco Silva anunciou que o crescimento em 2015, depois do “ano de viragem de 2014″, será de 2%. A coisa vai bem. O FMI diz que não, que tudo depende da envolvente externa e que a economia se está a perder, mas quem é o FMI. Será 2%.

O Jornal de Negócios publicou há poucos dias uma comparação, a partir dos dados do INE, sobre o peso dos vários sectores na economia portuguesa. Medidos pelo contributo para o Valor Acrescentado Bruto total, a história é esta: desde 1995, quando começa o período em estudo, a indústria perdeu e a finança (com o imobiliário) ganhou. Na indústria transformadora, os despedimentos afastaram um terço dos trabalhadores (355 mil). Na construção também decresceu a produção e o emprego, mas o aumento do peso da finança no valor acrescentado compensou esse efeito.

Em resumo, a economia que, por artes de hipotética procura externa, possa vir a crescer os 2% receitados pelo Presidente, está agora pior do que antes. Com essa recuperação ainda fica muito abaixo do que era em 2011, quando começou a era dos credores. E, sobretudo, tem um aparelho produtivo desvalorizado e depende mais de serviços vulneráveis. O Portugal que cresce está mais pequenino.

Se olhamos para o emprego, então percebemos bem o que quer dizer um país que se reduziu. Os gráficos (de José Luís Albuquerque, clique para ampliar) demonstram como se reduziu o emprego e como os desempregados estão desprotegidos. A viragem, senhor presidente, continua ainda a ser para baixo, como se diz em bom português.

Artigo publicado em blogues.publico.pt em 17 de março de 2015

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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