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Brasil: manifestação convocada pela direita contra Dilma vence a disputa nas ruas

Protestos em pelo menos 152 municípios do país levaram centenas de milhares às ruas a pedir a saída do governo de Dilma Rousseff e o fim da corrupção. Mobilização ofuscou a jornada de dois dias antes, quando as manifestações pró-Dilma foram muito reduzidas.
Manifestação na avenida Paulista. By Unknow (Agência Brasil) [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons
Manifestação na avenida Paulista. By Unknow (Agência Brasil) [CC BY 3.0 br (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/deed.en)], via Wikimedia Commons

O Brasil passou a semana a discutir dois dias de manifestações: dia 13, os defensores da presidente recém-eleita Dilma Rousseff sairiam à rua. Dia 15, seria a vez de se manifestarem aqueles que pedem o impeachment (saída por votação no Congresso Nacional) de Dilma e o fim da corrupção, cujos escândalos têm abalado o país de alto a baixo no último ano. Os dados estavam lançados e só restava aguardar os resultados. Só que, como sempre acontece, a realidade era mais complexa e as coisas não eram bem assim.

Defesa envergonhada do governo

Por um lado, a manifestação de dia 13 era de defesa de Dilma, mas uma defesa envergonhada. Foi convocada pela Central Única dos Trabalhadores, pelo Movimento dos Sem Terra e pela União Nacional dos Estudantes, entre outras entidades, e tinha como primeiro ponto “lutar contra medidas do ajuste fiscal que prejudicam a classe trabalhadora”. Ora essas medidas foram decretadas pelo governo Dilma, que mal assumiu começou a aplicar o programa do seu adversário. A convocatória incluía também a defesa da Petrobras, que está a ser ameaçada pela roubalheira praticada por administradores nomeados pelos governos do PT. Só no fim da convocatória aparecia a frase "Democracia pressupõe [...] respeito às decisões do povo, em especial as dos resultados eleitorais", referindo-se aos que defendem o impeachment da presidente. Com uma convocatória assim contraditória (contra as medidas do governo e em defesa do mesmo governo), era de esperar que não empolgasse muita gente. O próprio governo ter-se-á apercebido disso e pedido à CUT para cancelar as manifestações. Mas era tarde demais e a central sindical não quis recuar.

PSDB cauteloso

Por outro lado, o PSDB, o principal partido da oposição cujo candidato, Aécio Neves, perdeu por muito pouco as eleições, manteve uma atitude cuidadosa em relação às manifestações de dia 15, impulsionadas desde o início por setores à sua direita. O impeachment de Dilma, reivindicado pelos organizadores e levado ao Congresso pelo deputado e ex-polícia Jair Bolsonnaro, só teria sentido se houvesse comprovação material da implicação da presidente em casos concretos de corrupção – o que não ocorre – e teria sempre de passar por votação parlamentar, como foi o caso de Fernando Collor de Mello. Algo que não parece viável ao partido que lidera a oposição. Pior ainda, em caso de impeachment assumiria o vice-presidente, Michel Temer, e o PMDB passaria a ter as rédeas do governo – e não o PSDB.

Por outro lado, o governo está a aplicar a política que o PSDB defendeu na campanha eleitoral, o chamado ajuste fiscal, algo muito parecido com a austeridade na Europa. Assim, as manifestações de dia 15 eram vistas pelo PSDB como uma forma de desgastar o governo com a bandeira da corrupção, preparando uma futura e retumbante vitória eleitoral futura.

Finalmente, a esquerda socialista, o PSOL, o PSTU e o PCB, recusaram-se a aceitar a lógica da polarização 13-15 e anunciaram não participar em nenhuma das duas manifestações. A de dia 13, devido ao seu evidente caráter de defesa de um governo que mal assumiu já aplicou medidas contrárias ao seu programa e que têm como alvo os trabalhadores. A de dia 15 pela sua condução de direita, e por não concordarem com o impeachment de uma presidente recém-eleita e sem provas seja do que for.

PT perdeu a hegemonia das ruas

Foi com este quadro que chegou a sexta-feira, dia da primeira manifestação, que entretanto já mudara de eixo – passara da crítica às medidas de ajuste fiscal para a defesa aberta do governo, acusando a oposição de golpismo.

Já se sabia que o PT perdera a hegemonia das ruas, que manteve nas últimas décadas. Mas não se esperaria talvez um resultado tão fraco. A única manifestação de boa dimensão foi a de S.Paulo, que teve, segundo o Instituto DataFolha, 41 mil pessoas (100 mil segundo os organizadores), mas aproveitando a realização de uma assembleia de professores do estado convocada para votar a greve da categoria. Após essa votação, a maior parte dos professores retirou-se, deixando claro que não apoiavam a manifestação pró-Dilma. Noutras cidades, a participação foi, dadas as circunstâncias, minúscula: no Rio de Janeiro foram à rua mil pessoas, o mesmo em Brasília, em Fortaleza 500.

15 esmaga 13

Já no dia 15, ficou claro que o desgaste destes primeiros dois meses de governo Dilma foi enorme com as medidas anunciadas e a explosão do caso de corrupção na Petrobrás.

Os protestos foram esmagadoramente superiores em relação ao dia 13. Aliás, a jornada pró-Dilma já foi esquecida.

Em São Paulo foram à rua, segundo o mesmo DataFolha, 210 mil pessoas, a maior manifestação na capital desde as “Diretas Já” de 1984, superior ao protesto de junho de 2013. Mesmo que o instituto tenha exagerado um pouco (o DataFolha é propriedade da Folha de S.Paulo, jornal da família Frias que faz oposição a Dilma), não há dúvida de que foi uma enorme manifestação. Aliás, falando de exagero, a Polícia Militar do Estado (que responde ao governador Alckmin, do PSDB), disse que estava 1 milhão de pessoas na avenida Paulista, número que foi reproduzido pela imprensa internacional. Não estava. Para isso seria necessário que toda a avenida e ruas adjacentes estivesse repleta de pessoas com uma densidade de 7 por metro quadrado, ou seja, uma densidade semelhante à de uma carruagem de Metro atafulhada de gente.

Segundo as contas da Folha de S. Paulo, os protestos de domingo reuniram quase 1 milhão de pessoas nos 26 Estados do país e no Distrito Federal, ocorrendo em pelo menos 152 municípios brasileiros –incluindo todas as capitais exceto Palmas, do estado do Tocantins. Nos estados em que Dilma venceu as eleições de 2014, como Minas Gerais, Salvador e Pernambuco, também houve protestos com milhares de pessoas.

Muito ainda se irá falar destas manifestações, da sua composição de classe e do que levou essa massa de gente às ruas. Mas parece claro, para já, que este dia 15 é um marco da história recente do Brasil, o dia em que a direita mostrou que tem poder de convocação e que o PT chegou ao ponto mais alto de desgaste depois de mais de 12 anos no governo. Apesar de o desvio de fundos da empresa estatal ter beneficiado, pelo que se sabe até agora, políticos do PT, PMDB, PP, PSB, PSDB e PTB, o partido de Dilma é aquele que ficou com a imagem mais colada à corrupção. E o que levou as pessoas à rua foi o sentimento de que é preciso pôr termo à corrupção, ainda mais quando se anunciam cortes e sacrifícios para o povo.

Golpistas minoritários

Setores minoritários de algumas manifestações pediam uma intervenção militar para derrubar o governo. Mas o deputado Jair Bolsonaro, um dos defensores abertos do golpe, foi impedido de falar na manifestação do Rio de Janeiro, e uma segunda marcha convocada explicitamente para pedir um golpe militar, naquela cidade, teve apenas entre 500 e 2000 pessoas.

O candidato à Presidência derrotado por Dilma no segundo turno, Aécio Neves, não foi à rua e gravou um vídeo no seu apartamento no Rio de Janeiro. Disse que o 15 de março vai ficar lembrado como o "dia da democracia" no Brasil e pediu que a população não se "disperse".

Panelaço

No final das manifestações, os ministros Miguel Rossetto (secretário-geral da Presidência) e José Eduardo Cardoso (Justiça) foram à TV dar uma conferência de imprensa. Nesse momento começou um “panelaço” (bater de panelas) simultaneamente em diversas cidades.

Miguel Rossetto reconheceu que as medidas de cortes de gastos decretadas pelo governo, que ele definiu como “pôr as contas em ordem” (um termo muito familiar aos portugueses), são necessárias para o país voltar a crescer, mas reconheceu que podem ter irritado muita gente. Cardoso defendeu uma sempre muito falada reforma política, um pacote contra a corrupção e deu ênfase à necessidade de pôr fim ao financiamento empresarial às campanhas políticas, que definiu como a fonte de toda a corrupção.

Mesmo os comentadores mais simpáticos ao governo ouvidos na noite de domingo consideraram esta resposta “mais do mesmo”, sem nada adiantar de novo. Na manhã desta segunda-feira, os jornais diziam que Dilma Rousseff estaria a preparar uma remodelação ministerial, num governo que tem pouco mais de dois meses de existência.

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Jornalista do Esquerda.net
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