You are here

O regime do banco

A falcatrua é o lado sexy do caso BES, como tinha sido antes do caso BPN ou do caso BPP. O BES era o banco do regime, diz-se. Pois bem, de que regime foi o BES o banco?

A falcatrua é o lado sexy do caso BES, como tinha sido antes do caso BPN ou do caso BPP. Em todos eles os banqueiros de turno se sentiram à vontade para cometer desmandos engenhosos com o dinheiro das pessoas e para violar todas as regras. A falcatrua, em doses variáveis, fez sempre parte do jogo da acumulação de capital e os nossos banqueiros mostraram-no à saciedade.

Mas faremos mal se reduzirmos o ‘caso BES’, o ‘caso BPN’ ou o ‘caso BPP’ a isso mesmo: casos isolados, falcatruas com que uns maus rapazes gananciosos mancharam a reputação da coroporação.

O BES era o banco do regime, diz-se. Pois bem, de que regime foi o BES o banco? O regime foi/é o rotativismo ao centro para pôr em prática o mesmo programa para o país. O regime foi/é a centralidade das privatizações e das parcerias público-privado na condução da política nacional e a tomada do Estado como refém às mãos de um pequeno conjunto de grupos económicos. O regime foi/é o vai-vem entre esses grupos, a decisão política e a elaboração legislativa, seja a formal (no governo e no parlamento) seja a outra (nos escritórios de advocacia). O regime foi/é a cumplicidade dos grande de Portugal com traficantes de armas, magnatas de offshore e aristocratas de ditaduras de “países amigos” e de “mercados em grande expansão”. O regime foi/é a moldagem da opinião pública por redes de cumplicidade ideológica com um pé nas universidades e outro nos meios de comunicação, que eficientemente puseram o país a convencer-se de que o que é bom para o BES é bom para Portugal.

Foi deste regime que o BES foi o banco. Convém nunca o esquecer. Convém vincar que foi este regime que entronizou a austeridade como seu modo de ser para repor brutalmente as taxas de acumulação perdidas. E, como mostram a pressa e a convicção com que PSD e PS o aprovaram, o Tratado Orçamental é a constituição real desse regime.

Denunciemos pois a falcatrua em toda a sua extensão e profundidade. Mostremos como ela é reveladora do modo de operar da burguesia portuguesa. Mas vamos sempre ao essencial: oponhamos a democracia, o regime dos bens públicos e da soberania popular ao regime de que o BES foi o banco.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
(...)