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A luta pelo Conservatório Nacional continua

A mensagem que os estudantes, pais, professores e apoiantes da Escola de Música têm passado ao governo é clara: não desistiremos de lutar enquanto não alcançarmos as necessárias e dignas condições para a aprendizagem e ensino. Um país sem Cultura é um país sem vida. Por Ricardo Cabral Fernandes e Beatriz Viegas.
Abraço à Escola de Música do Conservatório Nacional. Foto dde Paulete Matos
Abraço à Escola de Música do Conservatório Nacional. Foto dde Paulete Matos

A perseverança diária que os alunos, professores e pais demonstram na formação académica dos primeiros é também pautável na luta pela defesa da Escola de Música do Conservatório Nacional.

Passaram pouco mais de três semanas desde que a luta pela requalificação do Conservatório se iniciou com a realização de várias açõesreivindicativas, como a Marcha Fúnebre, a Vigília e as Aulas Públicas. As reivindicações mantêm-se e as ações têm sido inúmeras com o objetivo de mostrar à opinião pública nacional e internacional, bem como ao Ministro da Educação, Nuno Crato, que as obras são extremamente necessárias, obras profundas e não puramente superficiais, facto que o orçamento de apenas 43 mil euros coloca em causa.

Miopia política e autismo político

O Ministro mantém a sua característica principal enquanto governante: a sua miopia política. Faz discursos, elogia os estudantes e professores, dá ordens para que estudos sejam feitos; ao mesmo tempo faz experiências educativas nunca antes vistas em Portugal, e que falharam redondamente, prejudicando a vida tanto dos estudantes e seus encarregados de educação como dos professores. Tudo dentro do seu Ministério sem qualquer contacto com a verdadeira realidade, apenas vê a “realidade” das folhas de excel, a dos cortes cegos. O Conservatório Nacional é a demonstração desta sua forma de tutelar a Educação em Portugal. À sua miopia política acrescenta-se um acérrimo autismo político. A luta pela defesa do Conservatório é mais do que uma causa particular, é a defesa do ensino público, democrático e universal, seja artístico seja regular, contra um ensino das e para as elites. No fundo, é também uma luta contra esta forma de governar: o de colocar os números à frente do presente e do futuro das pessoas e da Cultura. Um país sem Cultura é um país sem vida.

Petição nacional recolheu cerca de 7 mil assinaturas em poucos dias

Mesmo com as promessas – e até agora não passaram disso – de obras parciais e de uma eventual reunião com Nuno Crato, a Comissão continua a realizar açõesreivindicativas. Foto de Paulete Matos

Após as Aulas Públicas, a Comissão pela Defesa da Escola de Música do Conservatório Nacional colocou em prática as suas promessas – ao contrário de certos governantes em Portugal –, que resultaram num apoio acima das expectativas, como as petições nacional e internacional. A petição nacional em poucos dias recolheu cerca de 7 mil assinaturas, quando o objetivo apontado eram as 4 mil. Entretanto, a Comissão Parlamentar para a Educação visitou a instituição, tendo sido confrontada com um protesto que demonstrou a vontade dos estudantes em estudar e dos professores em ensinar. No final, todos os deputados da Comissão Parlamentar concordaram na necessidade de uma intervenção profunda às instalações do Conservatório. No dossier que a Comissão de luta entregou à Comissão Parlamentar foram apresentadas duas reivindicações: i) ser recebida pelo Ministro, pois até ao momento Nuno Crato não demonstrou disponibilidade em receber os membros da Comissão de luta, furtando-se ao diálogo e ao compromisso; ii) o compromisso, por parte do Ministério, da realização de obras profundas de requalificação do Conservatório, sendo a respetiva necessidade corroborada pela 3ª fase do programa do Parque Escolar.

Perante a crescente mediatização da luta do Conservatório e o aumento do apoio dos cidadãos à causa, o Ministério decidiu responder parcialmente à primeira reivindicação com um primeiro fax – que por acaso foi enviado por engano a outra escola – em que convidava a Comissão a reunir-se com um grupo de representantes governamentais, não especificando se o Ministro estaria presente ou não. Segundo Bruno Conchat, docente e membro da Comissão, a Comissão abandonará a reunião no momento em que constatar que o Ministro não marcará presença para dialogar e assumir compromissos. Prevê-se que a resposta de agendamento da reunião, por parte do Ministério, seja enviada até à próxima sexta-feira, 20 de Março.

Ações reivindicativas continuam

O abraço à Escola de Música foi um ponto alto, mas a mobilização continua. Foto de Paulete Matos

Mesmo com as promessas – e até agora não passaram disso – de obras parciais e de uma eventual reunião com Nuno Crato, a Comissão continua a realizar açõesreivindicativas com o intuito de sensibilizarem os cidadãos e aumentarem a pressão sobre a tutela. Para tal, realizou-se hoje, 14 de Março, pelas 14 horas e 30 minutos no Largo Camões, a Marcha Musical. Esta ação consistiu no canto e marcha por vários largos e praças lisboetas, como o Largo Camões, a Praça do Município, a Praça D. Pedro IV, entre outras. As canções entoadas foram o Hino do Movimento “Eu sou Conservatório Nacional” de Camila Mandillo e Eurico Carrapatoso, o “Acordai!” de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes-Graça, “Grândola” de José Afonso e a “Portuguesa” da autoria de Henrique Lopes de Mendonça. Durante a acção vários cartazes com palavras de ordem, como “Vamos falar”, “Diálogo”, “Não tive aula de inglês”, “Atenção”, “Compromisso”, chamaram a atenção das pessoas que circulavam por esses locais, tendo inclusive parado para ouvir o entoar das canções e aplaudido.

A mensagem que os estudantes, pais, professores e apoiantes têm passado ao governo é clara: não desistiremos de lutar enquanto não alcançarmos as necessárias e dignas condições para a aprendizagem e ensino na Escola de Música do Conservatório Nacional. Crato, por uma vez, deveria abandonar a realidade fechada do seu gabinete e tomar a devida atenção a estes cidadãos, reunindo-se com a Comissão para se alcançar um compromisso. Compromisso que rompa, por uma vez, a forma indigna como este Governo tem tratado o Ensino e a Cultura em Portugal.

Ricardo Cabral Fernandes

Beatriz Viegas

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