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O que vale uma mulher?

E foi 8 de Março, Dia Internacional da Mulher… outra vez. E, como sempre, houve quem perguntasse se ainda faz sentido celebrar este dia, justamente agora, que as mulheres já conquistaram tudo quanto havia para conquistar.

E, como tantas outras vezes, apercebemo-nos da ironia irritada de quem pergunta se não deveria haver, também, o ‘dia do homem’. E não é que há?! É o dia 19 de Novembro de cada ano, foi instituído em 1999 e tem a aprovação e o apoio da ONU. E blá e blá e blá… Podemos passar à frente?

Então, falemos de coisas sérias.

Falemos da diferença salarial, entre homens e mulheres que, no nosso país, é de 17,9%, ou seja, para funções iguais mas sexo diferente, ordenado inferior, pois claro. Uma diferençazinha de centenas de euros a menos, no fim do mês e que vai aumentando, consideravelmente, à medida que chegamos a funções de topo.

Falemos do alerta da Organização Internacional do Trabalho, segundo a qual, “Ao ritmo atual, sem uma ação orientada, a igualdade de remuneração entre homens e mulheres não será atingida antes de 2086, ou um período de, pelo menos, 71 anos”.

Falemos de Portugal, como o país onde a diferença salarial entre géneros mais cresceu, fruto da receita de uma austeridade que despoja e castiga quem nunca viveu acima das suas possibilidades.

Falemos das principais vítimas da pobreza e do desemprego e da precariedade, tudo bem evidente nos números do Rendimento Social de Inserção: 51,4% dos beneficiários deste apoio social são mulheres.

Falemos das quase 6 horas, por dia, que as mulheres portuguesas despendem a tratar da casa e dos/as filhos/as, trabalho não remunerado e que representa quase o dobro do disponibilizado pelos homens.

Falemos dos 61% dos alunos universitários que são mulheres e de como, mais de 50% das teses de doutoramento, têm autoras do sexo feminino. E, no entanto, apenas 5% das empresas portuguesas cotadas em Bolsa são lideradas por mulheres e a presença feminina não ultrapassa os 9,7% nos conselhos de administração.

Falemos do crime com marca de género que, no ano de 2014, ceifou a vida de 43 mulheres (4 mulheres assassinadas, em média, a cada 30 dias) e, nos últimos 10 anos, enterrou 399, 80% das quais assassinadas dentro de casa, dentro do lar, dentro do “ninho de amor” que era suposto protege-las e confortá-las. Atentemos bem no facto de não haver crime, em Portugal, que mate mais do que a violência doméstica, sendo este o segundo crime mais denunciado às forças de segurança.

Falemos de outros países – que não apenas deste ‘paraíso à beira-mar plantado e de brandos costumes’ – e não esqueçamos que, em muitos deles, as mulheres, pelo simples e único facto de o serem: não estão autorizadas a conduzir, não podem mostrar o rosto e o corpo, não podem trabalhar, não podem votar, não podem sair à rua, não podem ter conta bancária ou qualquer tipo de bem em seu nome, não podem ter os filhos que desejam, não podem divorciar-se, não podem ausentar-se do seu país, não podem estudar, não podem amar livremente e casar com quem amam, mas podem – ignomínia máxima! – ser violadas coletivamente, em transportes públicos ou na rua, sem que alguém tenha visto ou sequer ouvido os seus pedidos de socorro…

E, portanto, façam-me um favor: não finjam que não veem e que não ouvem! Denunciem, porque o silêncio só pode ser cúmplice desta barbárie!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
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