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O que os administradores da PT ainda não conseguiram explicar

Foto de Paulete Matos

Segundo a auditoria interna da PT, desde pelo menos 2007 que metade do excedente de tesouraria da PT era colocado no BES e no GES, quota que foi subindo até aos 80%, em valor acumulado (ou seja, contando com as renovações dos investimentos) [ver tabela abaixo]. Por Mariana Mortágua.

É verdade, desde 2000 que a PT tinha uma parceria estratégia com a Caixa Geral de Depósitos e o BES que previa tratamento preferencial e recíproco da operadora para com os dois bancos. Mas ao contrário do que foi sendo dito, e mais uma vez em termos acumulados, a repartição entre CGD e BES não era equitativa. Se analisarmos anualmente, sem contar com as renovações, no ano da venda da VIVO os recursos foram repartidos entre os dois bancos, mas essa não era a regra (a CGD tinha muito menos de metade dos fundos destinados ao BES/GES).

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

GES/BES (%)

48%

59%

70%

60%

63%

78%

80%

Para além da excessiva concentração, as auditorias não encontraram evidência de que tenham sido efetuados estudos de mercado comparativos (com outros produtos de investimento), ou que tenham sido cumpridas as regras internas de decisão e aprovação destas operações. Não existia também registo de contas atualizadas da ESI ou Rioforte, ou avaliações de rating destas empresas.

A forma como, numa das maiores empresas do país, investimentos em tranches de 200 ou 500 milhões de euros eram decididos e aprovados ainda permanece um mistério. Tudo é pouco claro, inclusive a informação que a PT foi prestando ao longo dos anos sobre o destino dos seus fundos de tesouraria.

Em vários Relatórios e Contas era possível ler, sobre os riscos de crédito da PT: “ Com o objetivo de mitigar este risco, a política da Portugal Telecom é a de investir em aplicações de curto prazo, junto de instituições financeiras diversificadas e com reputação no mercado”. O que é que há de errado com esta informação? Em primeiro lugar as instituições não eram, de facto, diversificadas. Em segundo lugar, investimentos não se restringiam a instituições financeiras – ESI e Rioforte eram empresas do ramo não financeiro.

Mais, ao referir-se aos investimentos de curto prazo, nunca foi feita qualquer referência à elevada exposição ao GES.

Ambos estes exemplos são retirados do relatório de 2011 mas há vários, de outros anos, com as mesmas omissões. Nos relatórios de 2012 e de 2013 há inclusivamente uma nota que identifica investimentos que se sabem hoje ser no GES como sendo em títulos da própria PT.

E eis que chegamos aos primeiros meses de 2014. Quem sabia? A confusão sobre se, à data das ultimas operações, a tesouraria estaria concentrada na PT SGPS (sob o controlo de Granadeiro) ou na PT Portugal (sob o controlo de Bava) é importante mas também enganadora.

Enganadora porque o problema não está apenas nas ultimas operações que deram prejuízo, mas em todas as outras, que se prolongaram durante anos ao arrepio de tudo o que as boas práticas recomendariam. Importante porque revela o grau de informalismo com que estas decisões eram tomadas – de tal forma que é impossível provar quem controlava a tesouraria de uma gigante multinacional.

A acompanhar tudo isto, sobram contradições entre os administradores da PT e do BES, cada um com uma versão diferente dos mesmos factos.

Nota: Os dados divulgados foram tornados públicos durante as audições de Zeinal Bava e Henrique Granadeiro.

Artigo de Mariana Mortágua, publicado no blogue Disto Tudo

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
Termos relacionados Crise do BES, Política
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