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Medo do fascismo ou fascismo do medo

Precisamos da calma e da objetividade de quem quer mudar tudo o mais depressa possível. Quais as condições e quando (ou como) se criam as condições necessárias para a ruptura com o medo?

A aceitação da corrupção e das suspeitas como acontecimento natural de todos os dias de um país é um sinal preocupante que descreve bem a hegemonia criada pelo medo e pela desistência. Os grandes partidos de geografia nacional educam os cidadãos para os silêncios, para a resiganação e para a moderação. Estas atitutes podem premiar vidas; Saberão por outro lado que a energia e a frontalidade são quase sempre inconvenientes. Mas afinal, estes prismas são tão profundos que se tornam precisamente no berço de projetos políticos que treinam os seus oradores como quem treina um trapezista: equilibra-te, não caias nem para um lado nem para o outro.

É no descanso desistente do silêncio que em Portugal a elite financeira se confunde com o Conselho Nacional do PSD e com as suas ligações, o que parece não ser um problema para os eleitores do PSD. Ricardo Salgado, primos e cia. são benevolentes mecenas dos partidos de poder, e os sobreiros e submarinos são fontes inesperadas de financiamento do partido da agricultura e do mar, o CDS. É lógico, eles já nos tinham avisado que gostavam da agricultura e da defesa.

O PS, treinando já para a entrada em funções, afirma através de António Costa que os últimos anos remodelaram o país, que "está melhor". Os eleitores e aderentes do Partido Socialista esfregam as mãos e preparam-se para o próximo jogo das cadeiras: quem se conseguirá sentar?

Levantando a cabeça, e apesar das nuvens cinzentas na Europa, podemos ver que nem todo o cinzento é da mesma gravidade. Apenas desde 2013 ministros e primeiros ministros de outros países foram arrastados para a demissão: República Checa, Bélgica ou Alemanha (apesar dos esforços de Merkel). Por cá, Miguel Macedo e toda a estrutura de direção dos serviços de imigração e registos caíram com estrondo, num caso que facilmente levaria a eleições em qualquer país onde a opinião pública não fosse doutorada em resignação. Mas não levou, nem nada levará.

O ensino poeirento do vazio da cidadania veste-se de exigências de quem não sabe o que fazer e recorre ao passado. É o mesmo vazio desarmado que ensina todos os dias que há ministros, secretários de estado e até um primeiro ministro trafulha, mas nada há a fazer. Toda a gente sabe que é trafulha, mas o que divide a grande maioria dos cidadãos é saber se a trafulhice foi assim tão grave, se há ou não outros mais trafulhas, e já agora, se tirando este trafulha outro chegará tão ou mais trafulha.

Condições banais mas a ter presentes. Afinal, hoje, onde se faz a luta pelo poder e que poder queremos à esquerda?

Um país que aceita a corrupção e a suspeita diária como normal, onde o medo do fascismo se confunde ainda com o fascismo do medo, um país de pessoas que condenam a frontalidade, a energia, a agressividade, ao mesmo tempo que valorizam as lideranças caladinhas, as lideranças que sabem dominar a arte da contenção, que sabem gerir os silêncios... é este o nosso.

Precisamos da calma e da objetividade de quem quer mudar tudo o mais depressa possível. Quais as condições e quando (ou como) se criam as condições necessárias para a ruptura com o medo? Ou pode haver rutura convivendo com o medo generalizado?

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro informático
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