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Semânticas

A União Europeia confina ao campo da semântica tudo o que possa colidir com o cânone da austeridade. A soberania dos povos virou semântica pura, a manutenção de serviços públicos universais também e as propostas de governação alternativa mais ainda.

A mistura de desdém e raiva que vai para os lados dos inquietos com a assunção de responsabilidades governativas por uma esquerda que não se verga aos cânones da direita na Europa fá-los insinuar que tudo o que o Governo grego conseguiu do Eurogrupo foi semântica. Na verdade, esta é uma avaliação que antes de o ser já o era. Porque os inimigos de um governo de esquerda na Europa já tinham escrito na pedra, antes mesmo da negociação entre Atenas e a Europa, que os gregos estavam destinados a comer o pó da terra ficando no euro, sendo que o mesmo pó haviam de comer se dele saíssem. A narrativa da ausência de ganhos para a Grécia pertence, pois, ao domínio das inevitabilidades que têm marcado a cultura da falta de alternativas nesta Europa – a negociação entre a Grécia e o Eurogrupo ia sempre terminar no arrasar do governo grego porque era, ela própria, pura semântica.

Em Portugal, a autonomia reconquistada com o fim da presença da troika é o exame prévio sobre o orçamento de estado, a vigilância reforçada de Bruxelas e as sanções que são medidas adicionais de austeridade. Querem mais semântica que isto?

Ora, há nesta convicção, mesmo que desfasada dos factos, um fundo de verdade. É que a União Europeia confina ao campo da semântica tudo o que possa colidir com o cânone da austeridade. A soberania dos povos virou semântica pura, a manutenção de serviços públicos universais também e as propostas de governação alternativa mais ainda.

O Governo português apregoou, alto e bom som, que o fim do programa da Troika, em junho passado, devolvia a autonomia a Portugal e permitia ao país voltar a governar-se a si mesmo. Proclamam-no ainda agora, fazendo passar a ideia de que, graças ao cumprimento dos ditames da austeridade, o país recuperou espaço para se governar sem tutela dos credores. Pois bem, esta semana a Comissão Europeia colocou Portugal “sob vigilância reforçada”, por força dos desequilíbrios macroeconómicos causados pelo baixo crescimento económico. Estava escrito na pedra com a tinta da austeridade: um país com uma dívida pública que não para de crescer e com um PIB em persistente retração é uma bomba-relógio. O que a Comissão Europeia fez foi aplicar o seu cânone a um país assim. Mostrando que a austeridade rouba ao mesmo tempo espaço à economia e à autodeterminação.

Em Portugal, a autonomia reconquistada com o fim da presença da troika é o exame prévio sobre o orçamento de estado, a vigilância reforçada de Bruxelas e as sanções que são medidas adicionais de austeridade. Querem mais semântica que isto?

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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