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Raiva

Tenho raiva quando vejo, semana a semana, cada vez menos envergonhada, cada vez mais “naturalizada”, crescer a fila para a sopa quente e solidária. Mas é na escola que sinto o maior desafio.

Nunca fui capaz, nas manifestações logo a seguir ao 25 de abril e, mais tarde, quando as coisas começaram a dar para o torto, de gritar “TEMOS FOME!”

Não era verdade e a minha solidariedade com quem, de facto, tinha fome, mostrava-a estando lá.

Hoje, nos protestos contra a austeridade e perante testemunhos de privação e sofrimento, sinto quase o mesmo desconforto. Continuo a não ter fome. Tenho casa própria. Tenho carro. Tenho trabalho.

E uma raiva enorme.

Tenho raiva quando, de manhã, à espera do autocarro, vejo um casal jovem a levar os dois filhos à escola e percebo que os pais têm o resto do dia para (des)esperar até à hora de os ir buscar. Tenho raiva quando, já no autocarro, ouço as conversas das senhoras da limpeza que vão pegar ao trabalho e contam uma às outras estórias de empregos perdidos, casas penhoradas, filhos emigrados e, de seguida descarregam a raiva delas, nos “políticos” e naquela cabra da Sofia da Casa dos Segredos. Tenho raiva quando, na escola, uma escola secundária urbana, cada vez mais alunas e alunos, apesar da má qualidade do serviço, comem na escola a única refeição quente do dia. Tenho raiva quando, agora, espero por vez para aquecer a minha sopa na sala dos professores quando, dantes, almoçava com outras colegas num restaurantezinho perto da escola. Tenho raiva quando me enfiam 30 alunos numa sala pensada para 20 e me exigem sucesso. Tenho raiva quando me deparo com as consequências de, com cada vez mais alunas e alunos, sermos cada vez menos professoras e professores. Tenho raiva quando não consigo dizer às minhas alunas e aos meus alunos que estudem, porque no futuro receberão a recompensa. Tenho raiva no dia 23 de cada mês. Tenho raiva cada vez que estou no Skype e não consigo tocar na minha filha mais velha e nas minhas netas que já nasceram noutro país. Tenho raiva quando a minha filha mais nova conta os dias que faltam até ao final da bolsa e não sabe como vai ser a seguir para ela e para o filho. Tenho raiva quando tenho de decidir se este mês vou ao dentista, ao cinema, ou jantar fora. Tenho raiva quando atravesso ruas em que há mais lojas fechadas do que abertas. Tenho raiva quando noto as raízes cada vez maiores nos cabelos pintados das mulheres. Tenho raiva quando vejo miúdas cada vez mais miúdas nas sombras da noite na Avenida. Tenho raiva quando vejo, semana a semana, cada vez menos envergonhada, cada vez mais “naturalizada”, crescer a fila para a sopa quente e solidária.

Mas esta é uma raiva boa. Não me consome.

Na rua, no café, na paragem do autocarro, na minha Assembleia de Freguesia, denuncio com raiva, convicção e a certeza de que outro mundo é possível, estes energúmenos que nos infernizam a vida.

Mas é na escola que sinto o maior desafio. Quando, em cada dia, entro na escola e vejo tantas vezes mulheres e homens, “funcionários fartos de funcionar”, sem esperança, descrentes de si próprios e das alunas e dos alunos e da possibilidade de fazerem qualquer diferença, lembro-me destas palavras sábias: “Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador.”

E, de seguida, vou à luta.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda de Coimbra. Eleita na Assembleia da União das Freguesias de Coimbra pelo Movimento Cidadãos por Coimbra.
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