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Arquitetura e lamento: um complemento

Só o regresso das pessoas emigradas (também as pessoas arquitectas) pode ajudar a construir um futuro.

Quero aqui complementar a opinião que o arquitecto Paulo Martins Barata expressou neste mesmo jornal (“Arquitectura e lamento”, 26/12) sobre o “estado da arte”, crise, formas de a superar, futuro ou talvez não para a profissão.

A classe profissional Arquitectos contém diferentes classes sociais, grande amplitude de rendimentos entre os seus membros e uma enorme desigualdade entre rendimento/volume de negócios de grandes gabinetes e a precariedade a que foram habituados dezenas de arquitectos subcontratados a falso recibo verde e durante anos a fio. Este mundo de gabinetes e seus falsos independentes é um mundo anterior à troika, inventado com a desregulação, liberalização e desvalorização do trabalho nos anos 1990 – também em arquitetura. Posteriormente aprofundado com a crise (pós-2008). Por fim, explodido e banalizado com a austeridade (pós-2011). Temos hoje uma acumulação de crises que redundou em trabalho sem direitos e em desemprego sem direitos como norma, donde a falta de trabalho nem é o principal problema, antes a superdesregulação que lhe é anterior.

Esta profissão agonizou mesmo com a saída forçada de arquitetos para fora de Portugal (“não-escolha 1”) ou na mudança forçada de profissão em Portugal para uma grande parte dos arquitectos restantes (“não-escolha 2”). O orgulho da profissão no adjetivo “liberal” amargou silenciosa e continuadamente nestes anos. “Liberal” foi palavra armadilhada.

Arquitetos: gente que descontou para a Segurança Social para a nada ter direito no desemprego; trabalhadores “independentes” diariamente dependentes e às ordens e horários de gabinetes e de outros arquitetos que livremente decidiram não os contratar como sistema.

Por fim: “A desregulação e desvalorização do trabalho custa-nos gente!”

No futuro, “Hão-de querer arquitetos e não os hão-de ter”, porque emigrámos ou porque já não o somos, “arquitetos”.

De certa forma, admiro e contradigo a opinião aparentemente naif/wishfull thinking(!) do arquiteto Paulo Martins no seu artigo, ao dizer que “uma das prerrogativas da globalização é justamente a abertura de um imenso campo de oportunidades pela livre circulação de bens e serviços” (sic); campo de oportunidades esse que se fechou afinal em Portugal, onde o serviço Arquitetura foi tão desregulamentado e desempregado, ao ponto de quase não existir nem circular, muito menos livremente. Enfim: mitos, para que vos quero?

“Globalização” foi apenas o primeiro rebaptismo do sistema. “Crise” é tão-só o segundo rebaptismo do mesmo sistema.

A demonstração de preocupação pela actual falta de oportunidades para dois ou três arquitetos – excelentes, de resto – ( Siza ou Souto de Moura, por exemplo), com carreira vasta e de excelente qualidade dá para rir amargo riso por parte das dezenas de arquitetos que por razões várias, entre as quais esta exploração por parte de colegas de profissão e donos de gabinetes que os exploraram.

Estes últimos apenas conseguiram o prémio-não-consolo de ter de emigrar ou mudar de profissão.

Uma sociedade em roda livre, é o que é, sem freio, sem funcionar, sem contratar ou empregar, mas que apesar disso continuou a premiar e repremiar – coisa que sabe fazer tão bem: fria, maquinal, repetidamente, ano após ano, independentemente da crise e da austeridade, os mesmos excelentes arquitetos, esquecendo bastamente os problemas dos restantes milhares de arquitectos que parece nem existir! Mas existem? Mesmo sem obra, a sociedade premeia-se a si própria, refugia-se no vício de premiar e elaborar rankings. Crise: qual? Prémios, sim! Resolver os enormes problemas, não!

A transformação em 40 anos, do país das 500.000 casas a menos no país das 500.000 casas a mais e gente a menos para nelas habitar, faz sobretudo questionar todos os discursos poético-arquitetónicos oficiais ou apressados sobre a suposta necessidade de arquitetura ou a utilidade social e supostamente especial dos arquitetos.

Dúvidas existenciais há muitas: “Gastar o dinheiro que não existe em supostas obras (mas quais?) para investidores que não existem, estado que fechou, clientes que não têm dinheiro, apenas medo?"

Só o regresso das pessoas emigradas (também as pessoas arquitetas) pode ajudar a construir um futuro. Só a “importação” de mais gente ajudará a consolidar esse futuro. Só a revalorização do trabalho fará regressar gente. Gente dessas 300.000 que se foram entre 2011 e 2014 e que ajudariam a “preencher”, habitar e investir, comprar, arrendar, encomendar parte das 500.000 casas ditas “a mais para essa gente atualmente a menos... casas que precisam de ser reabilitadas, logo trabalho para arquitetos, ainda que não seja este apenas uma pequeníssima parte de todo o benefício deste regresso.

Contratação: “Cada qual conseguir poder adquirir o bem e o serviço que produz, auto-sustenta a necessidade da sua própria produção”, sejam casas, mesas ou sapatos. Arquitetos ou sapateiros.

Por fim, substituirmos o obsoleto sistema de produção de projetos de arquitetura, no qual quem tinha encomendas e não podia ou queria contratar gente para a sua execução, acumulava à mesma as ditas encomendas, formando assim pequenos grupos ou grandes exércitos de arquitetos não contratados para as executar. Substituiremos esse obsoleto sistema pela partilha de trabalhos, pela distribuição por quem possa e consiga contratar. Será o cooperativismo como norma laboral, em vez da hierarquização forçada das formas de trabalho.

Intervenção política e cidadã dos arquitetos na sociedade, como políticos e cidadãos “normais”, para de futuro evitarmos ser as tias de orgulho ferido, os mestres obesos de tanto prémio e homenagem, as flores na lapela de investidores e governantes, arquitetos descartáveis nas crises tornadas norma, emigrantes como se não houvesse amanhã, lamentadores em causa própria que afinal ninguém quer saber, porque a cada qual a sua crise.

Artigo publicado no jornal “Público” em 19 de fevereiro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Arquiteto
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