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Algumas impressões em Donetsk

Alberto Sicilia, autor do blog Principia Marsupia, publicado no Público.es, voltou a Donetsk, onde esteve no início do conflito, e relata o que viu agora. Encontrou uma cidade irreconhecível onde o cessar-fogo nunca foi respeitado. Por Alberto Sicília, de Donetsk
O aeroporto internacional de Lugansk em 4 de setembro de 2014. Foto de newsanna, https://www.youtube.com/watch?v=0k0TDh3tOf4 (Creative Commons Attribution)
O aeroporto internacional de Lugansk em 4 de setembro de 2014. Foto de newsanna, https://www.youtube.com/watch?v=0k0TDh3tOf4 (Creative Commons Attribution)

Como está Donetsk?

A cidade está irreconhecível desde a última vez que aqui estive. O aeroporto e os bairros ao norte da estação ferroviária estão destroçados pelos combates. A maioria das lojas e negócios estão fechados, a Universidade está fechada, não funciona nenhum banco. Quase não há trânsito. Ainda que em termos mínimos, o transporte público dentro da cidade continua a funcionar.

Do grupo de amigos que tinha por aqui, muitos foram-se embora: uns para Kiev e outros para a Rússia.

Quem apoia o povo de Donetsk?

A maioria que permanece em Donetsk apoia os pró-russos.

Em Donetsk tinha amigos que apoiavam os pró-russos e amigos que apoiavam Maidan. [Para dizer a verdade, eram e continuam a ser amigos entre eles].

Todos os amigos que apoiavam a unidade da Ucrânia saíram de Donetsk. Entre os amigos que apoiavam os pró-russos, alguns foram para Rostov (na Rússia) e outros continuam aqui.

Outra coisa importante de que acho que se fala pouco: a violência criou, inevitavelmente, dois lados. Mas dentro da cada lado há opiniões bastante diferentes.

Por exemplo, entre os que continuam em Donetsk e com quem falei, há alguns que querem a unidade de Ucrânia mas não reconhecem o atual governo de Kiev, outros querem que Donetsk se converta num estado independente, outros querem ser parte da Rússia como aconteceu na Crimeia.

O cessar-fogo foi respeitado?

Não. Passaram cinco dias desde o teórico “cessar-fogo” e não pararam de se ouvir explosões e ruído de metralhadoras sem pausa.

É verdade que há russos a lutar?

Sim. Na cidade de Donetsk há muitos russos que vieram combater.

De facto, a pensão onde escrevo este post está cheia de jovens russos com as suas kalashnikovs. “Viemos defender a nossos irmãos do Donbass”.

Quer dizer que é certo que há voluntários russos.

E soldados russos?

Provavelmente também. Não vi batalhões do exército russo como vi na Crimeia. [Mesmo não tendo insígnias, a sua disciplina, a sua forma de comportar-se e o equipamento que levavam deixava muito claro que eram soldados].

Toda a gente a quem perguntei em Donetsk disse-me que há sim soldados russos. [E em geral, estão contentes de que eles estejam aqui].

A batalha por Debatsevo foi a mais importante nesta fase do conflito. Por que Debaltsevo era tão importante?

1) Debatsevo é um dos entroncamentos ferroviários mais importantes do Leste da Ucrânia: de facto, a cidade foi fundada em 1878 em torno da infra-estrutura ferroviária.

2) Debaltsevo é também um importante cruzamento de estradas. Nesta localidade cruzam-se a M04, que liga Donetsk a Lugansk, a M03 que, da Rússia (Belgorod), que atravessa de norte a sul o Donbass e termina na Rússia (Rostov).

Debaltsevo mudou várias vezes de mãos durante o conflito: foi tomada pelos pró-russos em abril de 2014, conquistada pelo exército ucraniano em julho de 2014 e agora volta ao controlo pró-russo.

Quantos soldados perdeu a Ucrânia em Debaltsevo?

Este é um tema de que se fala pouco por agora e acho que serrá chave nas próximas semanas: o governo de Poroshenko poderia confrontar-se com uma crise grave.

O presidente da Ucrânia tentou vender a retirada de Debaltsevo como uma vitória: disse que o seu exército se tinha retirado da cidade por ordem sua e de maneira organizada.

Mas todos os depoimentos dos soldados que saíram desmentem essa afirmação.

Horas após as palavras de Poroshenko, o comando do exército ucraniano reconheceu que na retirada teriam morrido 14 soldados e haveria 90 capturados e 82 desaparecidos. Todos os depoimentos indicam que o número de baixas nas fileiras ucranianas poderia ser bem mais alto.

De facto, vários batalhões ucranianos estão a rebelar-se contra o Estado-Maior de Kiev. [Consideram que Poroshenko se rendeu a Putin e que abandonou os seus soldados].

E agora o que vai acontecer?

Eu acho que há vários pontos a que será necessário ficar atentos:

1) Depois de Debaltsevo, os pró-russos vão continuar o seu avanço? Muitas das pessoas com quem falei por aqui diz que sem Mariupol (o porto ao sul sob controlo do governo ucraniano), Donetsk não tem nenhum sentido.

2) As autoridades pró-russas de Donetsk são populares pela questão da guerra, mas a nível organizativo são uma calamidade. [E isto é dito pelas mesmas pessoas que os apoia pelo seu valor na luta]. Poderão manter a sua popularidade quando os combates sejam suspensos? Poderão organizar e recuperar a atividade económica da região? Entre os seus próprios seguidores, há muitas dúvidas a este respeito.

3) Poroshenko encontra-se numa posição muito delicada. Muita gente que apoia Kiev considera que se rendeu e cedeu “de facto” Donetsk e Lugansk. Vários batalhões estão a formar um Estado-Maior paralelo. Atenção aos movimentos de Yatseniuk e de Tymoshenko nas próximas semanas. Atenção também a outros oligarcas: o lugar de Poroshenko tem muitos pretendentes e todos vão jogar a carta “temos um presidente demasiado débil”.

20 de fevereiro de 2015

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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