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A Grécia conseguiu o seu acordo… mas se os pormenores não baterem certo, “estamos acabados”

A crise estratégica não acabou. Mas os danos para a confiança e solidariedade, com um país - a Alemanha - a ser visto como tentando forçar outro eleitorado à rendição total - é real. Artigo de Paul Mason, jornalista do Channel 4.
Foto EU Council Eurozone/Flickr

A zona euro e o FMI fizeram um acordo com a Grécia, prolongando o seu resgate por quatro meses em troca de um compromisso de fazer passar pelo crivo dos credores todas as medidas com impacto económico significativo. A segunda parte do acordo tem de ser feita segunda-feira, com a Grécia a apresentar uma lista das medidas que propõe.

Em linguagem futebolística o ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis conseguiu uma “derrota fora de casa pela margem mínima” em vez da potencial eliminação - da taça e do campeonato ao mesmo tempo.

Eis o porquê. O texto não dá à Alemanha tudo o que ela queria. Permite à Grécia alterar o objectivo orçamental para este ano - quer dizer que pode ter um excedente menor, mas ainda por definir. Além disso, de acordo com Varoufakis, existe uma “ambiguidade criativa” no que respeita aos excedentes que é suposto a Grécia alcançar para além deste ano.

Na segunda-feira a Grécia tem de apresentar uma lista de medidas, de forma a conseguir dinheiro para recapitalizar os seus bancos e fazer rolar os empréstimos. Varoufakis apresentou isto na conferência de imprensa como algo que seria avaliado em conjunto - pelo que o jogo de poder entre a Alemanha, a Grécia e toda a gente pelo meio é para continuar, mas com o FMI - cujas metodologias são consideravelmente menos doutrinárias que as do BCE no que respeita às propostas do Syriza - na jogada.

Em segundo lugar, ele mantém as palavras propostas por Varoufakis na quinta-feira: que a Grécia não irá desmantelar as medidas existentes ou tomar medidas unilaterais “que possam ter impacto negativo nas metas orçamentais, recuperação económica ou estabilidade fiscal” - mas acrescentando as palavras “na avaliação das instituições”. Isto torna claro quem vai decidir se a revisão do programa grego ameaça esses aspetos.

Na segunda-feira a Grécia tem de apresentar uma lista de medidas, de forma a conseguir dinheiro para recapitalizar os seus bancos e fazer rolar os empréstimos. Varoufakis apresentou isto na conferência de imprensa como algo que seria avaliado em conjunto - pelo que o jogo de poder entre a Alemanha, a Grécia e toda a gente pelo meio é para continuar, mas com o FMI - cujas metodologias são consideravelmente menos doutrinárias que as do BCE no que respeita às propostas do Syriza - na jogada.

Para além disso, a palavra “ponte” está no acordo. Dijsselbloem indicou que ele seria uma ponte para qualquer futuro acordo - e nesse sentido, a oposição alemã a qualquer sinal da possibilidade de uma fase de transição foi ultrapassada.

Aspetos positivos para a Grécia

Eis porque entendo que Varoufakis conseguiu alguma coisa. Nas horas antes do acordo, os media gregos relataram que a fuga de depósitos tinha aumentado significativamente. Então, não foi o BCE a ameaçar a Grécia com controlo de capitais, mas sim o banco central grego e o ministério das Finanças que sabiam que teriam de limitar os levantamentos multibanco logo na terça-feira.

Sob o peso desse prazo, os negociadores gregos temeram claramente que a posição que assinaram este noite seria triturada pelos seus adversários - ou seja, aproximando-se da posição alemã. Ao assinar já, eles - é o que acreditam - afastaram esse problema da contagem decrescente, e se o BCE - como espera Varoufakis - fizer aníncios positivos para repor as linhas normais de crédito aos bancos gregos, os bancos estão seguros.

Ele disse na conferência de imprensa que os bancos irão manter-se abertos “terça, quarta e ad infinitum”.

Um cenário de pesadelo para a Grécia seria, caso impusessem limites nos levantamentos na terça, o da UE/FMI poderem marcar passo, como fizeram com o Chipre, obrigando à capitulação total.

A verdadeira substância do que foi acordado só ficará  decidida quando o FMI/UE e o BCE disserem sim ou não a cada medida proposta pela Grécia. O ministro das finanças alemão, e mesmo o “tom” alemão, estiveram ausentes do anúncio final do acordo. Por isso ainda se está para ver qual será a resposta do legislador alemão.

A esquerda do Syriza

Varoufakis estava visivelmente aliviado. Ele conseguiu - acho eu - evitar uma corrida aos bancos e a rendição total, mas à custa de recuar nas promessas do Syriza na sequência das eleições.

A esquerda do Syriza irá criticar isto - e irão criticar a conduta de Varoufakis e da sua equipa, a quem pareceram sobrar muito poucas balas no carregador esta noite. Mas como Varoufakis pode apresentar este acordo como “melhor do que podia ter sido”, eu antecipo que haja algum alívio, e a raiva seja dirigida à Alemanha nas ruas gregas neste fim de semana.

Quando perguntado sobre o que aconteceria se a UE/FMI não concordarem com a lista que o Syriza apresentará na segunda-feira, Varoufakis respondeu de forma desarmante, “então estamos acabados”. Mas se ela pode ser negociada, há imensa coisa que o Syriza pode fazer nas políticas que não estão ligadas aos seus objetivos orçamentais, e quatro meses só nos levam ao fim de junho, que tem sido sempre “época de motins” na crise grega.

Quando perguntado sobre o que aconteceria se a UE/FMI não concordarem com a lista que o Syriza apresentará na segunda-feira, Varoufakis respondeu de forma desarmante, “então estamos acabados”. Mas se ela pode ser negociada, há imensa coisa que o Syriza pode fazer nas políticas que não estão ligadas aos seus objetivos orçamentais, e quatro meses só nos levam ao fim de junho, que tem sido sempre “época de motins” na crise grega.

A crise estratégica não acabou. Mas os danos para a confiança e solidariedade, com um país - a Alemanha - a ser visto como tentando forçar outro eleitorado à rendição total - é real.

Perguntei a Dijsselbloem na conferência de imprensa: “O que tem a dizer ao povo grego, cuja democracia acabou de mandar para o caixote do lixo”. Ele respondeu que não achava que fosse uma pergunta muito objetiva. Teremos de concordar em discordar.


Artigo publicado no blog do Channel 4. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

 

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