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Ainda Esta Madrugada

“Então borracho, o que te apetece fazer?” “São 40 euros.” 30 estão já destinados ao malandro que lhe dá guarida. R. levanta a curta saia que veste e fecha os olhos. Já não dói, como das primeiras vezes, e agora raramente lhe batem.

Três passos em frente é o quanto basta para fechar um negócio. Sim, um negócio, é disso que se trata. Há muitos anos que é assim. Mesmo quando não pagavam em dinheiro e apenas lhe roubavam a alma, pedaço a pedaço, gota por gota. De suor e das lágrimas que há muito deixara para trás. Secaram dentro de si, desde a última vez que viu a mãe, que morrera sem a conseguir salvar.

R. já não espera que a salvem. A salvação é para quem tem esperança e alento e ela há muito que esquecera o significado de tais palavras. Chegou a sonhar com isso, no dia que o pai saiu de casa para ir trabalhar para França, mas os que ocuparam o seu lugar não eram muito diferentes e o cheiro a bagaço nunca desapareceu daquela casa e do seu corpo. A sobrevivência tornou-se o seu lema, até porque ainda não teve a coragem necessária para saltar da ponte. Às vezes pensa que deve ser uma viagem bonita. Talvez muito rápida, mas terá os seus encantos. Será que se consegue vislumbrar a paisagem ao redor ou fica-se apenas com a sensação de partida dum mundo terreno sem afetos onde lhe calhou nascer e sobreviver? E será mais belo viajar de noite ou de madrugada?

“Então borracho, o que te apetece fazer?” “São 40 euros.” 30 estão já destinados ao malandro que lhe dá guarida. R. levanta a curta saia que veste e fecha os olhos. Já não dói, como das primeiras vezes, e agora raramente lhe batem. Aconteceu no início, quando o dinheiro era pouco para pagar a renda, mas a experiência também caleja. O corpo habitua-se à pancada e o espírito muitas vezes morre antes dele.

Tem uma vaga ideia de ser criança, do abraço do avô e de brincar com uma boneca de trapos, que ainda hoje mora entre os poucos pertences que tem. Está velhinha, agastada e quase sem roupa, mas parece que sempre a conheceu assim, com remendos e sujidade. Se um dia saltar, leva-a consigo. Talvez também ela anseie por um breve momento de liberdade. Não se recorda quem lha deu. Sempre fez parte de si, sempre foi a única que a compreendia, mesmo que em silêncio. A mãe estava demasiado amargurada para lhe escutar as inquietações. Quando adoeceu fortemente, antes de fechar os olhos para sempre, parecia a mesma. Uns quilos a menos, mas sem qualquer diferença no olhar.

Saiu de casa aos 17 anos para ir viver com um namorado. Ficou grávida pouco tempo depois, mas um encontrão não permitiu mais uma vida naquelas vidas. Talvez fosse mais uma a sentir o cheiro a bagaço no corpo. Sim, porque naquela altura não sobravam forças para mudar o que quer que fosse. As pessoas já nascem com o seu karma, não adianta acalentar falsos desejos. É o destino, diz-se por aí.

O segundo companheiro não dormia em casa todas as noites. Aparecia às vezes para roubar carinhos e alguma bebida, quando havia. R. não se importava, até ao dia que ele a convidou para dar uma volta. Levou-a a outra zona da cidade e apresentou-lhe o passeio da fama que 'adotou' há quatro anos.

Será que muitos se arrependem depois de saltar ou não há tempo para isso? Demorará muito tempo a chegar a Paz? Um dia tem de saber. Talvez ainda esta madrugada.

Artigo publicado em mariacapaz.pt

Sobre o/a autor(a)

Trabalhadora da administração local
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