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Tsipras: “O antigo programa de austeridade está morto”

A Grécia entregou o pedido ao Eurogrupo para prolongar por mais seis meses o empréstimo, de forma a poder negociar um novo acordo sem o fantasma da chantagem. Em entrevista à revista alemã Stern, Alexis Tsipras diz que não se pode ignorar o apoio de 80% da população ao seu governo.
O primeiro-ministro grego escolheu a imprensa alemã para a sua primeira entrevista desde a tomada de posse. Foto Alexis Tsipras/Facebook

Jeroen Dijsselbloem confirmou ter recebido a proposta grega esta quinta-feira e deverá convocar os ministros das Finanças da zona euro para uma reunião na sexta-feira. Em cima da mesa estarão condições associadas ao prolongamento do empréstimo que nada terão a ver com as do memorando da troika, que o governo grego considera extinto pela vontade popular expressa nas eleições de janeiro.

Os gregos entendem este prolongamento do acordo de empréstimo como uma “guarda-chuva” para o sistema financeiro no próximo período, durante o qual o governo de Alexis Tsipras irá negociar com os parceiros da UE um novo acordo com regras bem diferentes dos memorandos de austeridade.

Neste “acordo-ponte” para os próximos seis meses, a prioridade do governo grego é debelar a crise humanitária e ao mesmo tempo assumir compromissos firmes no combate à corrupção e à fraude fiscal. “Apresentámos uma proposta que respeita o veredito popular e a dignidade da sociedade grega”, disseram fontes do governo citadas no diário Avgi. Ao mesmo tempo que permite à equipa de Tsipras “respirar” nos próximos meses para começar a pôr em prática as medidas do seu programa, Atenas acredita que este prolongamento de seis meses dará o tempo necessário para uma negociação “serena e sem chantagens” acerca de um novo contrato para a recuperação e crescimento na Europa para os próximos quatro anos.

Tsipras: “Receber Merkel em Atenas? As portas estão sempre abertas!”

Na primeira entrevista à imprensa estrangeira após a eleição, Tsipras escolheu a revista alemã Stern para declarar a morte do memorando de austeridade e recusar o seu prolongamento por mais seis meses, como lhe propôs o presidente do Eurogrupo na última reunião.

“Ninguém nos pode vir mandar que prossigamos o trabalho do governo Samaras, como se não tivesse havido eleições”, declarou Tsipras, lembrando que hoje o Syriza tem uma taxa de aprovação de 80% nas sondagens. “Se ignorássemos essa realidade, a frustração colocaria as pessoas nas mãos dos fascistas da Aurora Dourada”, acrescentou.

O combate à corrupção e à fuga ao fisco é a chave do financiamento dessas propostas, prosseguiu Alexis Tsipras, apostando com o jornalista que daqui a seis meses a Grécia será um país diferente graças às medidas que irá pôr em prática e que os anteriores governos não puseram, “por falta de vontade política”. “A razão para isso é que estavam intimamente ligados aos grandes negócios, enquanto a nossa vantagem é que temos obrigações para com o povo”, explicou.

Repetindo que não deseja receber mais resgates, mas apenas tempo para promover as reformas do seu programa, Tsipras recordou que para além dos fundos de apoio comunitários para enfrentar a crise humanitária, o seu governo pretende dispor da parte grega dos lucros do BCE e dos 11 mil milhões destinados ao fundo de recapitalização da banca.

O primeiro-ministro grego falou sobre a brevíssima troca de impressões com a chanceler alemã na cimeira europeia, dizendo não ter tido tempo para perceber se Merkel conhece a fundo as preocupações dos cidadãos gregos. E quando o entrevistador lhe sugere que convide Merkel para uma visita, recebe como resposta um “E porque não? Somos conhecidos pela nossa hospitalidade. As portas estão sempre abertas”.

Confrontado com as suas promessas eleitorais de subir o salário mínimo, recontratar os funcionários despedidos, oferecer eletricidade a 300 mil lares de baixos rendimentos, Tsipras considerou-as “uma resposta humana aos problemas que enfrentamos, quer se seja de esquerda ou de direita”. Afirmando que os gregos foram atingidos mais duramente pela crise do que outros países, Tsipras reconhece que não devem agora repetir os erros do passado.

O combate à corrupção e à fuga ao fisco é a chave do financiamento dessas propostas, prosseguiu Alexis Tsipras, apostando com o jornalista que daqui a seis meses a Grécia será um país diferente graças às medidas que irá pôr em prática e que os anteriores governos não puseram, “por falta de vontade política”. “A razão para isso é que estavam intimamente ligados aos grandes negócios, enquanto a nossa vantagem é que temos obrigações para com o povo”, explicou.

Reagindo à oferta de Schäuble de mandar 500 cobradores de impostos para ajudar o governo grego, Tsipras diz que até aceitaria 5000, mas “já que o governo alemão se oferece, pode começar por ajudar-nos a fazer alguma luz sobre o escândalo de corrupção da Siemens”, que pagou subornos a políticos e funcionários gregos para ganhar concursos nas últimas décadas, tendo parte do dinheiro sido entregue a testas de ferro da empresa e regressado à Alemanha.

Quando perguntado se quer obter financiamento da Rússia e da China, o primeiro-ministro grego diz estar empenhado “apenas numa solução europeia, enquanto país da zona euro, já que seria incorreto pôr em perigo esta união política”. Mas acrescenta estar bem consciente do papel geopolítico da Grécia no mundo, prometendo continuar a ser uma âncora estável numa área frágil entre três regiões”.

Sobre as sanções à Rússia, Tsipras diz não estar sozinho na UE, já que os governos da Áustria e da Finlândia também expressaram reservas. “Não nos esqueçamos que há muitos gregos a viver na cidade de Mariupol, transformada em campo de batalha”, prosseguiu Tsipras, acusando as sanções a Moscovo de serem “hipócritas”. “Se vamos punir a Rússia, então também devíamos punir todos os países onde os multimilionários russos têm colocado as suas fortunas”, defendeu.

A exigência de reparações pelos empréstimos forçados da Grécia à Alemanha nazi também esteve presente nesta entrevista, com Tsipras a reafirmar que mais do que uma questão financeira, se trata de “uma obrigação moral”.  

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