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Os pobres

No final deste primeiro mês do ano de 2015, o relatório sobre a pobreza do INE veio esclarecer que os tempos sombrios que vivemos são invernais também do ponto de vista da nossa condição humana e do espaço vazio que a política ocupa nela.

Janeiro costuma ser um mês austero que não nos deixa esquecer que estamos no Inverno. Porém, no final deste primeiro mês do ano de 2015, o relatório sobre a pobreza do INE veio esclarecer que os tempos sombrios que vivemos são invernais também do ponto de vista da nossa condição humana e do espaço vazio que a política ocupa nela.

A taxa de pobreza voltou a subir e mais de um quarto da população vive em privação material. As crianças, as mulheres e as pessoas idosas sentiram um maior impacto deste aumento da pobreza e muitos dos que até têm trabalho não conseguiram converter o seu salário em pão ou dignidade. É um retrato cru, aparentemente sem rostos.

São os números de um país submerso pelo peso da arrogância neoliberal do governo de Passos Coelho e da UE de Angela Merkel: o risco de pobreza aumenta e abrange quase uma em cada cinco pessoas, a desigualdade na distribuição de rendimentos agrava-se, a taxa de privação material cresce, há mais pessoas em risco de exclusão social.

Note-se bem um indicador que é tão avassalador como também revelador dos tempos que correm, soprando o vento na direção do passado:

Mais do que um quarto da população (27,5%) está em risco de pobreza ou exclusão social, vive já numa situação de privação material severa e mesmo quando trabalha não recebe o suficiente para viver. Porém, quando são considerados isoladamente os rendimentos do trabalho, de capital e transferências privadas, sem contar com as transferências sociais, a taxa sobe para 47,8% e temos quase metade da população residente em Portugal em risco de pobreza.

Ou seja, quase metade da população trabalha para ser pobre e, se não fosse o magro Estado Social que ainda nos resta, esta situação resultaria numa abrangente calamidade social. O sinal contrário dos tempos é este: os salários voltaram a ser tão baixos, ou o seu roubo indireto voltou a ser tão grande, que se torna claro que, hoje, o Trabalho não garante sequer a sobrevivência, quanto mais o viver bem. As desigualdades nunca foram tão estruturais. O capitalismo é a barbárie e nem a atual fina rede do estado de providência o consegue mascarar.

A persistência da violência das escavadoras e da polícia nos bairros da Amadora, em Lisboa, são um também reflexo duro dessa barbárie. Quando uma Câmara Municipal usa recursos públicos para demolir casas e desalojar famílias, desprezando completamente a sua sorte e a sua condição, e ainda para mais agindo para proteger um fundo imobiliário de um banco, percebemos que a crueldade se encontra instituída e que a banalidade do mal organiza o dia-a-dia dos fiscais municipais ao serviço do Estado democrático português. Quando um corpo de polícias de uma esquadra pode agredir brutalmente jovens moradores de um bairro social, ameaçando-os verbal e fisicamente com o seu racismo extremo e estupidez atroz, e tudo parece seguir impune, percebemos que a humildade que as pessoas “dos bairros” trazem nos rostos todos os dias, é uma humildade amarga e demasiado verdadeira, gravada na sua vida e nos seus corpos – nada têm ou possuem e há quem ache que nem dignidade têm, são os pobres.

Não consigo não referir a lembrança que estes tristes acontecimentos recentes me provocaram: a história de Ventura e do seu cavalo chamado Dinheiro, no último filme de Pedro Costa. O jogo de luz e sombra tão fortemente acentuado que marca quase todos os planos deste filme é um significativo gesto estético que configura genialmente a barbárie da desigualdade e do racismo que perduram. Só a invocação da penumbra pode lembrar exemplarmente o nosso desejo grego de um meio-dia solar.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora e doutoranda em Filosofia Política (CFUL), ativista, feminista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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