You are here

Por que é Ernesto Laclau a referência intelectual do Syriza e do Podemos?

A fronteira na Europa entre o povo e a elite que governa preparou o terreno para uma revolta populista, assim definida pelo académico argentino. Artigo de Dan Hancox, publicado no The Guardian.
Alexis Tsipras e Pablo Iglesias no comício de encerramento da campanha do Syriza.

Quando Ernesto Laclau faleceu no passado mês de Abril com 78 anos, poucos teriam adivinhado que este argentino pós marxista educado em Oxford se iria tornar o intelectual chave por detrás de um processo político que surgiu seis semanas depois quando o partido espanhol de esquerda Podemos conseguiu cinco lugares e 1, 200 milhão de votos nas últimas eleições europeias de maio.

Ao longo da sua carreira académica, a maior parte da qual passada como professor de Teoria Política na Universidade de Essex, Laclau desenvolveu um vocabulário para além do pensamento marxista clássico, substituindo a análise tradicional da luta de classes por um conceito de “democracia radical” que se alargou para além dos limites estreitos das urnas (ou dos sindicatos). E mais importante, para o Syriza, o Podemos e os simpatizantes fora da Grécia e de Espanha, ele conseguiu salvar o “populismo” de muitos dos seus detratores.

Íñigo Errejón, um dos estrategas principais do Podemos, concluiu em 2011 o seu doutoramento sobre o recente populismo boliviano, recebendo substancial inspiração de Laclau e da sua mulher e colaboradora Chantal Mouffe, como explica no seu obituário. Ler Errejón sobre Laclau é seguir um atalho emocionante para compreender as forças intelectuais que estão a dar forma ao futuro da Europa. A vitória do Syrisa na Grécia foi diretamente impulsionada pelas ideias de Laclau e de um grupo de Essex que inclui entre os seus alunos um parlamentar do Syrisa, o governador de Atenas e Yanis Varoufakis. O Syrisa fez a sua coligação política exatamente como Laclau prescreveu no seu livro On Populist Reason de 2005, como David Howarth um professor de Essex refere: “unir diferentes exigências, concentrando na sua oposição um inimigo comum”.

Não é difícil descobrir o inimigo comum no lado mediterrânico da Europa austeritária. Durante os massivos protestos e acampadas dos indignados espanhóis no Verão de 2011, um dos principais slogans era o protótipo populista “Não somos nem de direita nem de esquerda, vimos da base e vamos para o céu” É, segundo Laclau, “a formação de uma fronteira interna antagónica” como esta, entre “o povo” lato sensu e uma classe dominante sem vontade de se render às suas exigências, que prepara o terreno para um movimento populista como o Podemos.

Podem-se ver as mesmas realidades políticas e sociais, o mesmo terreno fértil para um movimento populista de massas e a mesma possibilidade de “democracia radical” no extraordinariamente bem-sucedido grupo ativista espanhol pelo direito à habitação PAH. Uma sondagem de 2013 do El País demonstrou 89% de apoio à campanha de ação direta do PAH, à luta contra os despejos e escarches (manifestações à porta das casas dos políticos). Incrivelmente, o número de apoio foi quase tão alto entre os votantes do Partido Popular no poder, com 87%.

Com mais de 500,000 despejos desde 2007 e com o primeiro ministro espanhol Mariano Rajoy impondo cortes draconianos nos serviços públicos decretados pela troika, houve alturas em que os serviços sociais de Espanha contactaram uma das 150 filiais locais do PAH a pedir ajuda. Quando um movimento ativista radical se tornou tão bem sucedido que é chamado para fazer o trabalho do Estado, não só pelos cidadãos vulneráveis mas pelo próprio Estado, a conjuntura política mostra a sua singularidade. O Podemos vai diretamente ao trabalho de Laclau para aproveitar ao máximo esta oportunidade, rejeitando a velha esquerda espanhola do PCE (comunistas), estilhaçando as desacreditadas políticas austeritárias do PSOE (socialistas) nas sondagens e canalizando para uma noção reabilitada de populismo esquerdista.

O objetivo de Laclau era inverter a noção de populismo – invertendo a ideia do senso comum que, explícita ou implicitamente, que utiliza sempre o termo pejorativamente. Habitualmente, descrever uma pessoa ou movimento como populista implica alguém que faz apelo aos instintos mais básicos, batendo nos mais baixos denominadores comuns tais como um martelo ou sinos de vento, sacrificando a acuidade intelectual em nome do êxito imediato.

Porque é que isto tem de ser assim? Perguntou Laclau. E se o caráter vago, se a simplificação e a imprecisão forem qualidades boas e necessárias num movimento político? Escreve ele: “O caráter “vago” dos discursos populistas não é a consequência da própria realidade social a qual é, nalgumas situações, vaga e indeterminada?” Laclau continua: “É importante “explorar as dimensões performativas” do populismo. O que é o processo de simplificação e esvaziamento em benefício de alguém? O que é “a racionalidade social que exprimem” “.  

No caso do Podemos, o ataque constante à la casta (as elites) pode parecer simples ou irrelevante como alguns argumentaram, mas expressar o repúdio no contexto da dominação de Espanha por um “regime de 78” (o ano da Constituição pós-Franco) corrupto e irreformável que está prisioneiro da troika e dos seus amigos dos bancos resgatados assim como 40 anos de patriarcado franquista, torna-se potencialmente transcendente.

Laclau também encorajou os iguais do Podemos a pensarem sobre quem é servido pelo anti-populismo. A rejeição e a depreciação do populismo tem feito “parte da construção discursiva de uma certa normalidade, de um universo político ascético do qual a sua lógica perigosa tinha de ser excluída”. É aqui que as palavras de Laclau iluminam a atual crise: este universo, esta normalidade construída é tragicamente familiar. É um universo em que o centro policia os limites do pensamento político; e é um universo em que Ed Miliband pode ser chamado de “vermelho” enquanto promete aplicar as políticas austeritárias neoliberais. É também um universo em que líderes proeminentes teoricamente da esquerda, do Partido Trabalhista  aos trotskistas, exibem uma falta patológica de fé em largas faixas da população.   

E este é o cerne da questão: o populismo é visto como perigoso porque a democracia é perigosa. “A racionalidade pertence ao indivíduo” escreve Laclau, caracterizando a tese anti-populista e quando o indivíduo participa numa multidão ou num movimento de massas está sujeito aos elementos mais criminosos ou agressivos desse grupo e passa por um “retrocesso biológico” para um estado menos esclarecido do ser.

Foi muito fácil identificar o desprezo da elite pelas massas na história recente de Espanha – uma terra de patriarcas, donos de terras, padres e, sobretudo, Franco, o pai severo do Estado-Nação. Os indignados não foram os primeiros a protestar aos milhões em Espanha. Pablo Iglesias o líder do Podemos diz que as suas primeiras memórias políticas remontam às manifestações anti-Nato dos anos 80. Também houve o Iraque e as manifestações de massas e greves dos sindicatos dos anos 70 e 80. As falhas sísmicas entre uma massa do “povo” e o “regime de 78” já existiam com um certo grau de solidez antes de 2008 – mas foi preciso uma série considerável de acontecimentos desde o começo da crise para endurecer essa “fronteira interna”.

O político espanhol Pablo Iglesias referiu que as conversas nas praças em 2011 e subsequentemente em programas de televisão como La Tuerka se tornaram muito mais importantes do que as que decorriam no parlamento. Os desenvolvimentos em Espanha desde 2008 equivalem àquilo a que Raymond Williams chamou de uma nova “estrutura de sentimento”, uma mudança na experiência vivida de pessoas comuns, uma nova cadeia de exigências distribuídas por mais público, por mais canais verdadeiramente democráticos. O que mudou foi algo nas palavras de Iglesias “que funciona no magma e de repente faz com que muita gente neste país veja um tipo de rabo-de-cavalo na televisão e o ouça”.

Tradução de Almerinda Bento para esquerda.net

Artigos relacionados: 

Termos relacionados Internacional
(...)