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Líder do Podemos diz que arrogância despótica põe em risco o projeto europeu

Para Pablo Iglesias, é imprudente pôr um governo democrático entre a espada e a parede. “Os ventos de mudança que sopram na Europa podem tornar-se numa tempestade que acelere mudanças geopolíticas, com consequências imprevisíveis”, adverte.
Pablo Iglesias com Alexis Tsipras num comício do Syriza na campanha eleitoral de janeiro. Foto Syriza.

Pablo Iglesias, secretário-geral do Podemos, de Espanha, escreveu um artigo de opinião no diário britânico The Guardian em que denuncia a arrogância e miopia da velha elite europeia, que responde com dogmatismo e incoerência às propostas do novo governo grego.

O também eurodeputado do Podemos recorda que no seu discurso de posse, Alexis Tsipras afirmou como objetivo chegar a uma solução mutuamente benéfica tanto para a Grécia quanto para os parceiros.

Mas a resposta do Banco Central Europeu (BCE) foi negativa. “Ou o governo grego abandona o programa pelo qual foi eleito, e continua a fazer as mesmas coisas que foram desastrosas para a Grécia, ou o BCE deixa de apoiar a dívida grega”.

Para Iglesias, “o cálculo do BCE não é apenas arrogante; é incoerente. O mesmo banco central que há algumas semanas reconheceu os seus erros e começou a comprar dívidas do governo, nega hoje o financiamento aos mesmos Estados que durante anos defenderam que o papel do banco central deveria ser o de apoiar os governos na proteção aos seus cidadãos, em vez de resgatar os corpos financeiros que causaram a crise”.

Matar o mensageiro

“O BCE decidiu matar o mensageiro”, denuncia o líder do Podemos, que adverte para os “excessos de arrogância e de miopia política” que “custam caro”.

Iglesias afirma que o facto de “os gregos terem votado numa opinião diferente daquela que os levou ao desastre” é apenas normalidade democrática. Não é esse, pois, o problema. “O triplo problema da Europa é a desigualdade, o desemprego e a dívida – e nenhum deles é novo ou exclusivamente grego”.

“Vamos falar claro: os diktats daqueles que ainda parecem controlar as coisas na Europa fracassaram, e as vítimas desta ineficácia e irresponsabilidade são os cidadãos da Europa”.

Ora a austeridade não os resolveu: “Vamos falar claro: os diktats daqueles que ainda parecem controlar as coisas na Europa fracassaram, e as vítimas desta ineficácia e irresponsabilidade são os cidadãos da Europa”.

É essa a razão do colapso da velha elite política, que explica a vitória do Syriza na Grécia e também o facto de o Podemos poder ganhar em Espanha.

Recordando as mais recentes propostas do governo grego ao Eurogrupo, Iglesias ressalta que o executivo liderado por Tsipras mostrou grande vontade de cooperar. Mas “diante da moderação de estadista de um governo que teria todas as razões para ser mais drástico, o BCE e a chanceler alemã, Angela Merkel, respondem com uma arrogância dogmática que nada tem a ver com os valores europeus. A questão é: quem vai pagar a sua arrogância? O mais míope dos cínicos talvez pense que isso é um problema do governo grego, que não afeta o resto da família europeia”.

A austeridade destruiu o espaço da social-democracia

A realidade, porém, é muito diferente. “Basta olhar o que aconteceu ao movimento socialista grego Pasok; o antes poderoso SPD alemão, que hoje é absolutamente subordinado a Merkel; o colapso ideológico do Partido Socialista Francês, a caminho de uma humilhação histórica às mãos de Marine Le Pen; e os socialistas de Espanha, que estão tão desesperados que preferiam que fosse a direita a vencer as próximas eleições em vez do Podemos”, enumera Iglesias, que resume: “A austeridade destruiu o espaço político historicamente ocupado pela social-democracia, e por isso seria do interesse destes partidos mudar de rumo e apoiar o governo grego”.

Para líder do Podemos, parece ser Matteo Renzi, da Itália, “o único a compreender plenamente o que está em causa na Grécia. Ou será que pensam talvez que se a liderança europeia não quiser mudar de atitude, a 'normalidade' da austeridade pode ser restaurada? É imprudente pôr um governo democrático entre a espada e a parede. Os ventos de mudança que sopram na Europa podem tornar-se numa tempestade que acelere mudanças geopolíticas, com consequências imprevisíveis”.

E conclui: “Está em causa a viabilidade do projeto europeu. Os pró-europeus, especialmente os da família socialista, deveriam aceitar a mão estendida por Tsipras e ajudar a moderar as exigências do lóbi pró-austeridade. Não é apenas a sua própria sobrevivência que está em causa, mas também a da própria Europa”.

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