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Romper as muralhas da “prisão dos devedores”

Essas instituições da Inglaterra vitoriana “foram um falhanço – eram desumanas, e não contribuíam propriamente para a garantia do reembolso”, recorda Stiglitz.

Nunca tinha ouvido falar das prisões de devedores até há uns anos, quando vi a série da BBC “Little Dorrit”, baseada no romance homónimo de Charles Dickens. Uma delas, Marshalsea, foi imortalizada pelo grande escritor britânico que a conheceu muito bem: aos 10 anos, foi viver com toda a família para essa famosa instituição de Londres, devido às dívidas do pai, John. Teve de abandonar a escola e ir trabalhar para ajudar a família. Naquela época, século XIX, um devedor que não pagasse a sua dívida via todos os pertences leiloados em hasta pública e era internado na “prisão dos devedores”, podendo levar a família se não tivesse onde alojá-la. Apesar de estar preso, era autorizado a sair para trabalhar, desde que voltasse à noite, antes do encerramento dos portões. A ideia era que o condenado conseguisse pagar a dívida nestas péssimas condições. E ainda tinha de custear o “alojamento” dele e da família. Imaginem que belos trabalhos o coitado obtinha quando informava o empregador onde vivia!

Martin Wolf, no Financial Timeschamou de “prisão dos devedores” à posição dos que defendem que a Grécia tem de pagar

Estas “prisões dos devedores”, um símbolo da Inglaterra vitoriana, foram recentemente recordadas por importantes comentadores e economistas a propósito da Grécia. Martin Wolf, no Financial Times, chamou de “prisão dos devedores” à posição dos que defendem que a Grécia tem de pagar, por muito que isso lhe custe. Já Joseph Stiglitz, num artigo do Project Syndicate, lembra que estas prisões do século XIX “foram um falhanço – eram desumanas, e não contribuíam propriamente para a garantia do reembolso”.

A direita portuguesa – seguindo submissa a diretora da “prisão”, Angela Merkel – afirma que não, que a dívida é perfeitamente pagável. Mas não responde ao facto irrefutável de que tanto no caso grego quanto no português, apesar de todos os sacrifícios que os governos impuseram – da brutal recessão, do desemprego galopante, do aumento da pobreza, do desmantelamento dos serviços públicos – a dívida aumentou. E o dinheiro que entrou para supostamente “ajudar” os países foi, na verdade, usado para pagar ao sistema financeiro. Dos 226 mil milhões de euros que o FMI e a Eurozona entregaram à Grécia, apenas 11% financiaram atividades governamentais; outros 16% pagaram juros. O resto, nem chegou a entrar no país, segundo o citado artigo de Martin Wolf.

É que, tal como a outra, a moderna “prisão de devedores”, a austeridade imposta pelos carcereiros da troika, não funciona. É isso que o novo governo grego está a dizer sem subterfúgios. Farto de ser esmagado e humilhado, o povo grego quer romper as muralhas da “prisão”. Por mais que a direita persiga o seu sonho de voltar à época da Rainha Vitória.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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