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Os baixos preços do petróleo são o maior caso de falhanço do mercado da história

O preço do petróleo e da gasolina é fixado na procura e oferta atuais e não baseado nos custos para o planeta da poluição, mudanças climáticas globais, aumento do nível do mar e outros fenómenos. Artigo de Robert Kuttner, publicado em The American Prospect.
Por certo, a produção de petróleo irá, num dado momento, chegar a um pico. Mas, nessa altura, a terra poderá ser um lugar muito desagradável

Lembram-se do “Peak Oil” “pico do petróleo”? O mundo estava a ficar sem petróleo e disseram-nos que em breve os preços iam subir em flecha e era melhor procurar outros combustíveis.

Bem, esse argumento não funcionou tão bem para os ambientalistas, pois não? À medida que as reservas de petróleo e de outros combustíveis de carbono se tornaram escassas e os preços subiram, a lei da oferta e da procura atuou. A indústria investiu os lucros desses preços mais altos em novas tecnologias e os barões do petróleo encontraram maneiras ainda mais destrutivas de extrair petróleo e gasolina – explorando o esterco das areias asfálticas, inventando o hidro-fracking e destruindo fontes em países em vias de desenvolvimento.

Assim, agora, o petróleo é mais barato do que tem sido há anos, cerca de $66 o barril. A gasolina normal sem chumbo pode-se conseguir por bem abaixo de $3 o galão. 

Uma das poucas coisas que sustém o poder de compra dos consumidores norte-americanos face aos sombrios salários está próximo dos cem mil milhões de dólares poupados em custos de energia. O poder de atribuir preços por parte da OPEP foi quebrado e os Estados Unidos estão prestes a ultrapassar a Arábia Saudita como o maior produtor mundial de petróleo.

Boa! Auto-suficiência energética. Tomem lá ambiento-pessimistas.

A produção diária mundial de petróleo subiu de cerca de 75 milhões de barris em 1999 – quando as previsões do pico do petróleo eram populares – para mais de 90 milhões de barris hoje. As reservas estimadas continuam também a subir.

Economistas conservadores gostam de se vangloriar que as projeções baseadas nas atuais tecnologias são invariavelmente demasiado pessimistas.

Em 1990, o ambientalista Paul Ehrlich perdeu uma famosa aposta com o economista Julian L. Simon, sobre se os preços de cinco produtos raros iriam subir ou cair no espaço de uma década. Simon tinha razão ao dizer que os preços altos e a tecnologia iriam criar substitutos e os preços caíram na devida altura.

Pela mesma forma, a tecnologia permitiu uma exploração mais sofisticada de combustíveis de carbono e a queda dos preços da energia. Todos falham redondamente a questão maior, nomeadamente que o mercado não pode fixar o preço do ambiente de forma competente.

Claro que petróleo barato é uma maldição. Promove a utilização acrescida de combustíveis de carbono por um lado, quando se devia investir massivamente em substitutos. E a aparente quantidade de petróleo e gasolina mexe com a espinha da maioria dos políticos.

Fonte: Departamento de Energia dos Estados Unidos da América

O dinheiro seguro pensa que é apenas uma questão de tempo até que o Presidente Obama (falando de espinha) ceda ao Keystone Pipeline. Além do mais, se o Canadá não extrai todo esse crude na nossa direção, os chineses ficarão muito felizes em o fazer. E há essas dezenas de milhares de empregos para a Costa do Golfo. Já agora, será bom que vão para os americanos, certo?

É verdade que um apagamento do oleoduto algures no percurso seria catastrófico, tal como é verdade que o oleoduto simboliza tudo o que há de errado com o atual caminho energético. Mas podia-se bloquear esse oleoduto e continuar a enfrentar a catastrófica alteração climática.

Obama, por seu mérito, permitiu tardiamente que a Agência de Protecção Ambiental apertasse os padrões de smog (ozono ao nível do solo) – mais de três anos depois de a Casa Branca ter matado regulamentos semelhantes – depois da derrota dos democratas em 2010 a meio do mandato. Mesmo assim, os novos regulamentos sobre o ozono não passam de um passo de bebé.

O facto é que os mercados fixam erradamente os preços da energia. O preço do petróleo e da gasolina é fixado com base na procura e na oferta actuais e não baseado nos custos para o planeta da poluição, mudanças climáticas globais, aumento do nível do mar e outros fenómenos. Isto é, como Lord Nicholas Stern referiu, o maior caso de falhanço do mercado da história.

Os recentes acontecimentos demonstram o puro radicalismo da necessária cura. O negócio, como é habitual, é simplesmente demasiado conveniente, demasiado fácil e a mudança a fazer não vai salvar o planeta.

Por certo, a produção de petróleo irá, num dado momento, chegar a um pico. Mas, nessa altura, a terra poderá ser um lugar muito desagradável. Desculpem lá, malta, mas o argumento de que estamos a ficar sem petróleo, não resulta. Se ao menos as coisas fossem assim tão simples.

Artigo publicado em The American Prospect.

Tradução de Almerinda Bento para esquerda.net

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