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O PS, a fome e o tupperware

Um plano municipal que cria uma linha telefónica para que recolham os restos de uma festa para dar aos pobres é humilhante e insultuoso.

António Costa diz pouco sobre o que propõe para o país, mas o que faz em Lisboa ajuda a perceber o que aí vem. Numa área tão importante como o combate à pobreza escolheu o CDS para liderar um plano municipal de recolha de restos alimentares para distribuir aos pobres.

O plano municipal de combate ao desperdício alimentar foi aprovado por unanimidade no dia 14 de janeiro na Câmara Municipal. Este plano foi idealizado pelo vereador do CDS que acabou nomeado comissário. Em tempos de emergência social é útil afunilar consensos, mesmo que sejam em torno de soluções facilitistas que não resolvem os problemas estruturais. O Bloco está fora dessa unanimidade. Responder ao senso comum ajuda a perceber porquê.

Esta é uma forma fácil de responder à pobreza e à fome? Não é, porque não responde. Num país em que uma em cada três crianças vive na pobreza e em que um terço dos idosos sofre de desnutrição rapar travessas em restaurantes serve para entreter voluntários generosos e colocar a medalha de “Desperdício Zero” na lapela de António Costa. A esmagadora maioria da pobreza e da fome está escondida dentro de casa dos desempregados, precárias e pensionistas desta cidade.

Ainda assim, existem pobres na rua que agradeceriam estes restos. Não, a alternativa aos restos não é a fome, é resposta social. A CML tem um plano de contingência para os sem-abrigo que prevê a prestação de cuidados de higiene, vestuário, de dormida e alimentação a quem precisa. No início de janeiro ativou este plano e chamou as televisões. O problema é que só ativa este plano quando as temperaturas são inferiores a 4ºC. Os sem-abrigo de Lisboa precisam de um local para dormir, tomar banho, cortar o cabelo, alimentar-se ou vestir-se mesmo quando estão mais de 3ºC e não há televisões.

Em tempos de crise, a CML tem recursos para fazer mais do que promover a recolha de restos? Sim, basta vontade política. O Bloco propõe desde 2009 um gabinete de resposta à crise que nunca foi implementado. A CML criou um fundo de emergência social no valor de um milhão de euros e nos últimos dois anos só foram atribuídos 350 mil euros. Se o objetivo é responder à crise então o fundo tem de ser multiplicado por 10 e efetivamente aplicado. Uma forma de o financiar é acabar com as isenções de eventos milionários como o Rock in Rio, que por ano rendem cerca de 3 milhões de euros. Coincidência das coincidências, também o Rock in Rio prepara tupperwares para os pobrezinhos quando está a limpar o espaço.

Se a comida ia para o lixo, porque é que não há de ser aproveitada? Há um problema de desperdício escandaloso na economia orientada para o consumo que tem de ser resolvido pela redução e sobretudo pela mudança de paradigma. Se nos indignamos quando vemos comida a ser desperdiçada não vale a pena procurar na caridade que humilha o conforto da consciência. Um plano municipal que cria uma linha telefónica para que recolham os restos de uma festa para dar aos pobres é humilhante e insultuoso. É sobretudo inaceitável porque ataca um valor fundamental: a dignidade.

Sobre o/a autor(a)

Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, eleito em 2017. Engenheiro civil.
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