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Esperança em grego diz-se Syriza

O que está prestes a acontecer na Grécia é, a todos os níveis, histórico. Pela primeira vez na história da Europa, uma partido da Esquerda Radical está próximo, muito próximo, de vencer umas eleições legislativas, de formar governo e de executar o seu programa político.

São muitos anos e muitas décadas de derrotas acumuladas ou, na melhor das hipóteses, de vitórias morais, nas quais aparecíamos sempre como subalternos das forças sociais democratas. O Syriza é o exemplo vencedor que precisávamos: não estamos condenados a perder sempre. Não estamos condenados a ser aqueles que proclamam um mundo mais justo, mas que nunca têm oportunidade de o construir. Para edificar essa sociedade digna, decente e justa, uma sociedade que está nos antípodas do mundo capitalista, não estamos condenados a fazê-lo sendo a flor na lapela de ninguém. É possível vencer e só vencendo cumpriremos o nosso papel histórico.

Mas dizer que o Syriza é um exemplo não significa que o devamos mimetizar, nem que nos devemos atropelar para aparecer nas fotografias com Alexis Tsipras no momento de glória do seu partido. É preciso estudar o Syriza. É preciso compreender como é que se deu esse fenómeno extraordinário de um conjunto de forças e grupos de extrema-esquerda, representativo, em 2009, de cerca de 4% dos votos, se conseguiu tornar, em 5 anos, um partido de massas gigantesco, como atestam as fotografias, um partido que está prestes a formar governo no contexto mais difícil que podíamos prever: uma país arrasado pela austeridade, cuja vida – profissional, familiar, social - da maioria esmagadora da população foi destruída.

Comício do Syriza na Praça Omonia em Atenas, 22 de janeiro de 2015

Acontece que a possível vitória do Syriza se afigura ainda mais incrível por outro fator. Quem sabe – um saber gramsciado, que “compreende” e “sente” – o que é ter a vida destruída pela austeridade, sem horizontes e sem perspetivas futuro, percebe bem que, nesta situação, o medo é um sentimento muito mais próximo que a esperança. E as forças da Troika, o governo de Samaras, o capital internacional e burocracia europeia sabem-no. Por isso lançaram nestas eleições, como nas de 2012, uma campanha sem precedentes de chantagem sobre o povo grego, de calúnias e canalhices contra o Syriza, procurando aterrorizar os eleitores, fazendo-os temer ainda mais pelo seu futuro. Dizer que nestas eleições se defrontam o medo e a esperança não é, pois, um chavão propagandístico. É a mais pura das verdades e, apesar do contexto desfavorável, a esperança, dos gregos e de todos os europeus, pode ganhar. Tem de ganhar.

Mas qual é então a chave desta vitória do Syriza? O primeiro dos fatores, e julgo que o mais importante nestas eleições, é subjetivo: o povo arrasado e com a vida destruída vê no Syriza uma força capaz de protegê-lo das crueldades do diretório europeu. O Syriza é a única força política que, pela força social que tem vindo a conquistar, e, sobretudo, pelo seu programa pode defender o povo grego das atrocidades da austeridade e por fim à crise humanitária do país. Na previsível vitória do Syriza está, por isso, mais em causa este sentimento de defesa e proteção do povo grego do que propriamente uma adesão entusiástica às suas orientações ideológicas. É preciso compreender isto porque na segunda-feira, vencidas as eleições, será defesa e proteção que o povo grego exigirá.

Além deste fator subjetivo, temos depois os clássicos, muito fáceis de identificar e enumerar, mas difíceis de concretizar na prática: o enraizamento e a respeitabilidade social. O crescimento do Syriza, o seu estatuto de partido de massas, é indissociável do trabalho dos seus ativistas nas manifestações e acampadas na Praça Syntagma e do seu envolvimento na construção de múltiplas redes de solidariedades – nas áreas da saúde, educação, justiça, cultura –, responsáveis últimos pela não exclusão massiva de largos estratos da população do acesso àqueles serviços. Mas não foi só o envolvimento e a militância empenhada. Foi a não instrumentalização daquelas redes para fins eleitorais mais ou menos imediatos, a sua atuação genuína e não dirigista que granjeou aos ativistas do Syriza, e por arrasto a este, a respeitabilidade e a confiança necessária para fazer desta força da Esquerda Radical o que ela é hoje na sociedade grega.

Finalmente, o Syriza, confrontado com aquilo que Pablo Iglésias tem vindo a identificar como o “momento da audácia”, teve coragem de assumir a liderança da oposição e da resistência social. Não se conformou com a inevitabilidade cobarde, a-histórica e capitulacionista da disputa do poder estar destinada apenas aos dois partidos que nos últimos 40 anos governaram a Grécia, PASOK e Nova Democracia. Não se colocou na posição defensiva e cómoda que era aceitar a sua pequenez, acreditando que poderia crescer um bocadinho mais e “influenciar” minimamente o PASOK num eventual governo de coligação. Não quis para si o papel histórico de subalterno de qualquer força política que tivesse construído e se assumisse como um dos principais alicerces do regime grego agora em ruínas. Estudou e analisou acertadamente a realidade, definiu o seu programa tendo em conta as necessidades do seu povo e não em função de putativas negociações que um dia poderia ter de fazer com qualquer outro partido de que fosse subalterno. Formou quadros onde eles devem ser formados: na luta social e no ativismo diário. Estão, por isso, prontos para vencer as eleições e governar.

O Syriza vai vencer as eleições. Devemos festejá-lo entusiasticamente porque ganhar é coisa a que não estamos habituados. Mas é preciso ter consciência que depois da vitória virão as verdadeiras dificuldades. Desde logo, a de formar governo e construir alianças, com ou sem maioria absoluta. 151 deputados é o número mágico que permitirá ao Syriza liderar o governo com maioria absoluta. Depois virá outra dificuldade: construir alianças no parlamento que permitam chegar aos 181 deputados, o número de parlamentares necessário para eleger o novo Presidente da República grega. De seguida será o embate mais duro: com Merkel, Draghi e Juncker. Todos tentarão isolar o Syriza e as suas propostas. Chantagearão novamente o povo grego com os fantasmas habituais: “expulsão do Euro e da União Europeia”. Ameaçarão todos aqueles que, no Conselho Europeu, possam, de alguma forma, aliar-se com o governo grego do Syriza.

Neste combate duro contra o despotismo Merkeliano, o Syriza e o povo grego não podem estar sozinhos. Por toda a Europa terão de desenvolver-se movimentos sociais fortes capazes de sensibilizar a opinião pública europeia para a justeza das propostas do governo do Syriza. Depois de se tornar um exemplo de vitória para a Esquerda Radical, será necessário que o Syriza se torne, depois de domingo à noite, um símbolo de um governo capaz de afrontar a austeridade e de restituir os direitos que foram saqueados ao seu povo.

É esse exemplo que os povos europeus precisam conhecer já com o Syriza na Grécia e depois com o Podemos no Estado Espanhol. Esses dois exemplos são a condição determinante para que a reviravolta que a Europa precisa que se concretize. Desta vez é possível. Enfim há esperança.

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Advogado
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