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Quero ser Charlie!

Para mim, o "Je suis Charlie!" significa, no essencial, a defesa dos princípios ideológicos do liberalismo republicano (liberdade, igualdade, fraternidade), e significa, em particular, que o direito à liberdade de expressão é inquestionável. Por Augusto Taveira

Antes de mais, para começar, uma declaração de interesses, ou antes, uma declaração de estado de alma: a de que fiquei profundamente consternado em resultado dos execráveis atentados de Paris e, em particular, o dirigido à liberdade de expressão... e à vida, na pessoa dos cartunistas do Charlie Hebdo. Fiquei chocado e ainda estou porque o tempo, (in)felizmente, não passa tão depressa assim...

"Je suis Charlie!" foi a resposta massivamente dada, de fazer arrepiar a espinha, qual cartoon com a mensagem de que por cada caneta "decapitada" mil canetas florescerão.

Para mim, o "Je suis Charlie!" significa, no essencial, a defesa dos princípios ideológicos do liberalismo republicano (liberdade, igualdade, fraternidade), e significa, em particular, que o direito à liberdade de expressão é inquestionável. Obviamente, não significa que concorde com a permissão da difamação gratuita e que, impunemente, a calúnia tenha rédea solta. Só que para responder a isso há os tribunais,… com a muito pequenina e compreensível exceção da possibilidade de um santo murro papal, reclamado pelo Papa Francisco para quem lhe insulte a mãe...

Se para a mãe do Papa servia um tribunal, que decerto condenaria o difamador pela mais que certa falta de provas, é suposto que já o mesmo não se diga para a blasfémia relativa aos valores sagrados do Islão, ou de qualquer outra religião. Aí, seguramente, outro galo cantaria!... E que tal o recurso à justiça divina?... Não confiarão nela aqueles que asseguram a existência de Deus, sendo mais garantido que a façam pela certa no mundo terreno?

A confiar cegamente na dita justiça divina, bem podiam os jihadistas dispensar-se dos "ensinamentos" proferidos por via das kalashnikovs para quem eles entendem que não anda na linha. E, já agora, também o Papa podia poupar-se ao trabalho das pouco católicas cenas de pugilato... Mais, questiono-me mesmo se haveria lugar a penalização: não seria expectável por parte do Ofendido infinita bondade... e a correspondente infinita capacidade de perdoar?!...

Como se esperava, levantam-se muitas vozes – e esta é mais uma – para analisar as causas profundas dos acontecimentos e as suas implicações.

A panóplia opinativa vai desde aqueles que garantem que não são Charlie – nem era preciso garantir porque já se sabia e, por já se saber, não foram sequer convidados... – aos que por jeito ou por vergonha afirmam sê-lo, quanto mais não seja por imperativo da agenda mediática, para aparecerem na primeira fila da manifestação de Paris. Ficou como ranho na parede a presença de alguns dos responsáveis pelos maiores sofrimentos por parte dos povos e, suprema hipocrisia, a preocupação com a liberdade de expressão por parte de alguns que nos seus países prendem e matam jornalistas… De entre todos aqueles figurões, não hesito em destacar o sionista terrorista de estado Benjamin Netanhyau, que tentou desajeitadamente meter no mesmo saco terroristas, como os do autodenominado Estado Islâmico, e a resistência do povo mártir da Palestina.

Para além dos que não querem ser Charlie – pelo atrás exposto ou tão só pela necessidade de fazerem a diferença, não vá alguém duvidar de que podem não pensar pela sua cabeça – há, da direita à esquerda, os que, na peugada da metáfora do murro papal, justificam os assassinatos dos cartunistas, porque simplesmente "estavam a pedi-las!"

Daí a considerar, sobretudo por alguma esquerda, que os cartunistas eram vozes do imperialismo contra os povos, vai o passo de um anão. A "cegueira" é tanta que não falta quem esteja disposto a sacrificar as conquistas civilizacionais no teatro da grande geopolítica. Para o efeito, evoca-se – e bem – o extenso rol de cumplicidades dos falcões americanos com os terroristas, estes, qual exército de libertação, adequadamente munidos de aspas. Exceção naturalmente feita quando se dá o caso de posarem para o retrato com importante senador americano. É que só nessa altura passa a haver conveniência em considerar os terroristas como terroristas a sério...

Em face dos acontecimentos, não seria expectável a ascensão da islamofobia? É um perigo e, muito justamente, a esquerda condena o aproveitamento, igualmente expectável, por parte da extrema-direita. Só que não se compreende como é possível ter dois pesos, duas medidas, tratando-se com pinças as atrocidades verificadas ou as que estão para vir, prometidas pelos mais radicais do fundamentalismo islâmico.

"Decididamente, de que lado estamos?" era a pergunta – maniqueísta, politicamente incorreta, admito-o – que me apetecia fazer.

Muito embora não saiba da missa a metade – a começar, pela dos serviços secretos eventualmente interessados em aproveitar a coisa para um 11 de setembro à francesa – e não ignore os aproveitamentos e o oportunismo que há sempre no meio disto tudo, decididamente, eu quero ser Charlie!

No fim da passada semana tentei comprar a última edição do Charlie Hebdo. Não o consegui. Por um bom motivo, estava esgotado. Quando o tiver em versão papel, duvido que tenha tempo de o ler de uma ponta a outra, já que prevejo a dificuldade na leitura das frases idiomáticas em francês e dos jogos de palavras tão habituais nos cartoons. Mas a principal razão por que quis comprar este Charlie Hebdo foi sentir que isso era talvez mais importante do que meter um voto numa urna a favor da liberdade de expressão, da luta contra o obscurantismo e contra o atraso civilizacional.

Trata-se de um braço de ferro que as forças progressistas têm de vencer, porque querer ser Charlie não é apenas querer engrossar o caudal dos milhões que encheram de silêncio as avenidas de Paris; é chorar os cristãos aniquilados na Nigéria e os não muçulmanos decapitados no Iraque e na Síria; é estar ao lado do blogger ateu condenado a 1000 chicotadas e 10 anos de prisão na Arábia Saudita (o único pais no mundo onde o voto é interdito às mulheres e que, ainda assim, recebe as boas graças dos Estados Unidos...); é, sobretudo porque ainda vamos a tempo, gritar para que parem de vez as execuções no Estado Islâmico.

Querer ser Charlie é, obviamente, estar também ao lado dos muçulmanos vítimas de islamofobia...

Serão precisas mais razões para querer ser Charlie?

Artigo de Augusto Taveira

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