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Mitos gregos

Dois mitos dominaram esta última semana de campanha eleitoral grega. E os seus cantos já se ouvem em Portugal.

1. O mito de Cronos - Tal como o Deus do tempo, que devorava os seus próprios filhos, o Syriza estaria em processo de autofagia, devorando o programa político que antes construíra. O síndrome de social-democratização galopante ilustrou as manchetes internacionais, fielmente reproduzidas pela imprensa portuguesa e curiosamente propagadas por alguns militantes do PCP.

Este mito alimenta-se do analfabetismo político. O programa de Salónica, apresentado em setembro por Alexis Tsipras, é claro na proposta: um mandato popular para enfrentar os credores e um plano imediato de reconstrução nacional que ponha fim à austeridade.

Significa isto que um governo Syriza enfrentará, logo a partir do dia 26, a crise humanitária que se instalou no país: 300 mil famílias terão acesso a electricidade gratuita, protegendo as pessoas do inverno grego e da especulação energética; milhares reconquistarão o direito à habitação, através dum apoio efetivo ao arrendamento; Mais de 1 milhão e 200 mil pensionistas voltarão a receber o subsídio de natal, tão essencial no combate à pobreza; milhares de desempregados não serão mais perseguidos pelas dívidas à segurança social e as famílias terão as suas casas protegidas da ganância bancária. Este plano reverterá a favor do trabalho o que tem sido dado ao capital, com o impacto na criação de emprego e no aumento do salário mínimo (como aqui explica o João Camargo), associado a uma reforma fiscal corajosa.

Este programa terá a força de se apoiar na própria organização das pessoas, reerguendo a contratação coletiva e instaurando uma democracia reforçada: possibilidade de iniciativa legislativa de cidadãos e de convocação de referendos; defesa e afirmação de uma imprensa livre e com autonomia; transparência entre a política e os negócios contra a corrupção.

Tal como assumem os dirigente do Syriza, este é um programa de governo de esquerda, não de salvação nacional, um programa feito por quem escolhe o seu lado na barricada e sabe que ganhar uma eleição não é ter o poder, mas a capacidade de liderar uma alteração radical das relações sociais que tanto mais efetiva será, quanto maior a mobilização popular. Um programa imediato e que reforça o mandato cidadão na negociação com os credores.

2. A água de Lete, a deusa do esquecimento - No último mês, vários setores da esquerda portuguesa trataram de elogiar o Syriza. Daniel Oliveira clamou por uma "mudança segura", capaz de responder ao temor dos cidadãos e recompor a esquerda tanto fora como dentro do campo social-democrata, uma tese bem desconstruída pelo Jorge Costa, que relembra que "Um dos traços comuns entre o Syriza e o Podemos é que se afirmaram contra os partidos socialistas grego e espanhol. Nenhum deles algum dia pretendeu “condicionar” a casta do PSOE ou um “programa mínimo de compromisso” para governar com o PASOK.". O modelo LIVRE+Tempo de Avançar não singrou em Atenas, e a história diz-nos onde terminará.

Exercício diferente fez João Galamba, que à semelhança de Silva Pereira tenta construir a imagem de uma frente unida contra o austeritarismo de Merkel, impulsionada por Renzi e Draghi e agora fortalecida com a possível vitória do Syriza e a sua proposta de uma conferência europeia sobre a dívida. A social democracia europeia quer fazer crer que todos bebemos das águas de Lete, esquecendo o passado que vivemos, um passado onde Hollande e os socialistas europeus estiveram bem firmes no lado da troika. Para perceber a diferença, basta imaginar o que serão os conselhos europeus com a presença de Alexis Tsipras.

Ao contrário do que afirma Galamba, o Syriza não se associa à euforia por uma mal amanhada flexibilização das regras orçamentais acoplada ao plano Junker, que agora sabemos, exclui países com défices acima de 3%. Como afirma Alexis Tsipras, as negociações com os credores privados e institucionais, apoiados numa proposta de moratória e de supressão de parte do valor nominal da dívida, é uma confrontação que se apoia numa estratégia de transformação política na Europa - "o nosso trabalho não termina com a abolição da austeridade. A nossa missão não é simplesmente assegurar o produto inacabado da social democracia do pós-guerra, mas possibilitar uma transformação radical por toda a Europa, baseada no socialismo e na democracia.".

Imaginem-se as possibilidades, que podem bem ser as últimas desta Europa. 

Artigo publicado no blogue Inflexão

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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