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Grécia, à beira do abismo, refém da Alemanha

Em Berlim e em Frankfurt (sede do Banco Central Europeu, BCE), através de Bruxelas, prepara-se uma tragédia económica para a Grécia que preocupa até o Financial Times, o qual chegou a solicitar um debate público para enfrentar a situação.

Tinha razão Martin Wolf - na edição de 20 de Janeiro - quando observava que a Grécia é uma cobaia. Na minha maneira de ver, a crise grega demonstra a insustentabilidade de toda a arquitectura comunitária elaborada em Maastricht, formalizada no pacto de estabilidade assinado em Dublin em Dezembro de 1996 e institucionalizada na formação da “zona euro”. Na realidade, o sistema nunca funcionou. Transformou-se num mecanismo vinculativo para alguns - a maioria dos países - mas não para outros.

Com efeito, a França e a Alemanha, pouco depois de 2000, começaram a fugir aos parâmetros. Consequentemente, com o passar dos anos, a Alemanha desfrutou de um grande boom de exportações líquidas - sobretudo para a própria Europa - e como consequência, um aumento de receitas fiscais. Assim, pressionou a França para que voltasse à disciplina reduzindo o seu défice público. Anteriormente à crise actual, já Paris tinha respondido que não o faria até 2012-13, mas com a crise adiou-se o reajustamento francês Ad calendas graecas.

Não se permite operar assim a outros países ainda que as condições internas não permitam grandes margens para manobras de reajuste. Quando a Grécia entrou na zona euro em 2001 e adoptou, a moeda em 2002, sabia-se que as suas condições distavam muito do que pretendiam os alemães, quem, não obstante, apoiaram a entrada de Atenas tanto por motivos de expansão e credibilidade do euro, quanto por recompensa pelo consentimento grego em permitir a entrada no seu país das tropas da NATO-EUA destinadas à guerra do Kosovo (assunto sobre o qual, no entanto, todo o círculo parlamentar grego estava contra).

A economia helénica apresenta muitas características semelhantes às das províncias e regiões da Itália meridional, por sorte, sem a preponderante presença das máfias: amplo emprego estatal e privado, despesa pública para as pensões e artifícios, uma economia submergida.

Acrescente-se a tudo isto, os fundos da União Europeia para o desenvolvimento que, quantitativamente, estão em decréscimo. Tudo, incluindo os sectores com rendimentos económicos altamente sazonais como o turismo, se sustenta graças ao mecanismo da despesa pública, como na zona de Frosinone ou Roma. Não significa que funcione assim desde ontem ou anteontem: tem sido sempre assim, sem dúvida desde os finais da guerra civil de 1949.

A modernização do país – graças, sobretudo, ao crescimento do consumo e à queda da ocupação agrícola - que teve lugar de modo massivo depois de 1981, com a entrada na Comunidade Europeia, acentuou o papel do gasto público como pilar sócio-económico-ocupacional e de distribuição de embustes.

Tal ficou a dever-se ao facto de não se ter dado uma transformação produtiva do país que correspondesse minimamente à transformação social e de costumes. As relações entre as classes capitalista, financeira e política dependem em boa medida do nexo entre a despesa pública e a evasão fiscal. Apenas mediante um processo lento e sistemático de transformação produtiva guiado pela autoridade pública de maneira ilustrada/programada é que se pode acabar com esses mecanismos. Mas, se num campo semelhante, ilustres contemporâneos italianos como Paolo Sylos-Labini ou Stefano Rodotà pregaram no deserto, porque triunfaria a Grécia se, relativamente à Itália, conta com bases materiais mínimas?

Depois da adopção do euro em 2002 surgirão acusações contra a Grécia por ter falseado as contas do défice público. Mas a Alemanha e Bruxelas nunca quiseram avaliar a Grécia segundo as suas condições objectivas, pese embora o facto de as conhecer. Queriam a Grécia no euro, mas impondo um marco próprio. A única estratégia de adaptação - para evitar a catástrofe social que restava à Grécia, era iludir o jogo. Um jogo que não podia durar a longo prazo. Assim se chegou à tragédia actual.

Atenas afrontou a crise económica mundial sem efectuar cortes especiais no orçamento, ao mesmo tempo que a crise trazia à luz o défice público que o governo de direita tinha escondido de modo fraudulento. Durante a segunda metade de 2009 a Alemanha -enquanto se mostrava tolerante em questões internas - endurecia a posição em relação ao resto da Europa, especialmente com os países mais débeis no que à despesa pública se refere. Foi o ministro das finanças de Berlim quem mencionou expressamente o caso da Grécia.

O endurecimento alemão está a elevar o diferencial de risco que se pede aos títulos de crédito do tesouro grego comparativamente à taxa - por exemplo - que se pede aos alemães; os “mercados” questionam a disponibilidade do BCE para aceitar títulos de crédito gregos em contraponto com a saída de empréstimos aos bancos.

Ao ver-se com a água pelo pescoço, Papandreu prometeu reduzir o deficit de 12,7% para 3% do PIB em dois anos! Haverá que aguardar que encontre a fórmula adequada, pois talvez conseguisse reduzir de 12,7% para 9% num período tão breve, mas provocaria um desastre enorme. O peso inteiro dos cortes recairia no emprego e nas pensões. Contudo, dado o alto nível de conflito social helénico, tais cortes não serão possíveis.

Apenas restam outros dois caminhos: a saída do euro e um salvamento europeu. No primeiro caso abrir-se-ia uma crise político-institucional gravíssima para o conjunto da União Europeia e a Grécia encontrar-se-ia, de qualquer maneira, ante a impossibilidade imediata de pagar as pensões à população e os salários aos funcionários públicos. O país paralisaria na mesma.

No segundo caso pôr-se-ia a Grécia sob um regime de soberania limitada, que de facto dependeria da Alemanha. Os focos da atenção devem centrar-se na Alemanha, na sua vontade de deixar que a Grécia se lacere para servir de exemplo a outros países débeis no que toca à despesa pública; enquanto Berlim considera a sua posição absolutamente questionável.

E tudo isto, desde que prossiga - como única estratégia europeia admissível - a deflação salarial, como aposta a Alemanha, segura que está de ganhar a batalha no confronto da Europa.

Publicado em Il Manifesto.

Tradução de Cristina Barros.

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Economista
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Publicado Global Research

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