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Reportagem em Atenas: falta uma semana

A confiança na capacidade do Syriza mudar radicalmente a Grécia é contagiante, assim como a frieza da percepção das dificuldades e dos obstáculos pela frente é brutalmente frontal. Reportagem de Nuno Moniz e Catarina Príncipe, em Atenas.
Trabalhadoras da limpeza continuam em frente ao Ministério das Finanças que as despediu há ano e meio.

Do avião ao centro de Atenas

É clarificador do estado da discussão sobre as eleições gregas quando num voo para Atenas é impossível dormir devido às conversas entre passageiros transformando partes do avião num verdadeiro fórum. Três palavras são perfeitamente perceptíveis: “Syriza”, “Neo Democratia” e “Crisis”. O momento político que se vive na Grécia deixa pouca gente de fora, como espectador ou espectadora. Ao longo de 5 anos de brutal empobrecimento apadrinhado por um Governo de Aliança Nacional ao centro, entre PASOK (o parente helénico do Partido Socialista) e Nova Democracia (do mesmo grupo europeu do PSD e CDS), de uma situação catastrófica na saúde pública, taxas de desemprego incríveis (mais de 50% nos jovens), juntaram-se as condições objectivas para um verdadeiro terramoto político em que a Coligação da Esquerda Radical (Syriza) aparece destacada em primeiro lugar, determinada em retirar o garrote imposto pela dívida e pelos dois programas da troika que causaram uma situação de catástrofe social.

“A esperança está a chegar”

“H Elpida Erxetai” traduz-se como “A esperança está a chegar”. Dos pequenos panfletos nas portas das casas, aos pendões por todos os postes de luz da cidade, os centros de campanha na rua e os cartazes nas paragens de autocarro, a mensagem é clara e massiva. No Sábado, após a chegada dirigi-me a um evento de bairro de apresentação dos candidatos do centro de Atenas e de solidariedade internacional, contando com a presença de vários representantes de partidos do GUE/NGL (o grupo parlamentar europeu do qual o Bloco de Esquerda e o PCP fazem parte) como a Gabi Zimmer (do Die Linke da Alemanha, Presidente do GUE/NGL) e a Marisa Matias (eurodeputada do Bloco e Vice-Presidente do GUE/NGL). Se até então não era ainda claro a força social que se juntou à volta do projecto do Syriza, este evento bastou. Num edifício duma associação cultural quase coube toda a gente que seria possível, porque muitas ficaram à porta a ouvir. É também de notar que a solidariedade internacional não passa discretamente em nenhum dos eventos. Ninguém se engana sobre o facto que tanto em Espanha, Irlanda ou Portugal, grande parte da esquerda política que luta contra a austeridade e o garrote da dívida, olha para a Grécia esperando que se confirme a ideia de que uma mudança radical na Europa possa começar já no próximo Domingo. “Venceremos”, dizem em jeito dum até já.

“Há dois anos era impensável fazer um grande evento aqui”

Sessão de Esclarecimento com Yiannis Dragasakis (plateia inferior).

Ao jantar, diziam-me com a alegria da história ter mostrado o contrário, que ao olhar para trás, para 2006 e 2007, ninguém imaginaria que aquele grupo de jovens dirigentes com Alexis Tsipras à frente, vindos de movimentos estudantis e sociais, estariam mesmo a falar a sério quando diziam que podiam ganhar, próprio de quem não interioriza o espírito derrotista que imobiliza e acantona, sentimento comum para a esquerda radical um pouco por todo o lado, embora combatido. Este grupo acreditava que poder-se-ia construir uma maioria social que permitisse criar um terramoto político na Grécia; virar o tabuleiro. Acrescentavam um pormenor curioso, mas confiante: “o processo e o programa que hoje o Syriza apresenta, começou a ser construído nesse momento”.

Yiannis Dragasakis e Marisa Matias.

No dia seguinte, de manhã, estávamos a caminho duma sessão de esclarecimento sobre o programa económico que o Syriza apresenta, a cargo do Yiannis Dragasakis, Vice-Presidente do Parlamento Grego e o coordenador da equipa do programa para as eleições. No norte de Atenas, onde disseram que“há dois anos era impensável fazer um grande evento aqui”, uma zona de classe média alta agora bastante empobrecida. 700 pessoas, num auditório repleto, num exercício de pedagogia política exaustivo, sobre os problemas e as soluções propostas para o que aí vem no que diz respeito aos direitos básicos, a dívida, a Europa e o Euro, a reconstrução do sector produtivo do país e a atitude dum Governo que quer transformar o Estado, com zero tolerância no que diz respeito a corrupção. Vale a pena reproduzir uma das frases finais da sessão: “tem de haver um Syriza autónomo do Governo e do Parlamento, um Syriza de sociedade - é muito importante, um Syriza que confronte o próprio governo Syriza e não um partido que se converte numa corte”.

A luta das mulheres da limpeza

Trabalhadoras das limpezas.

595 e 18. É o número de mulheres, empregadas de limpeza do Ministério das Finanças que foram despedidas, e o número de meses de desemprego. Não se deixaram ficar, e protestam há 259 dias a 100 metros do Parlamento Grego, com uma acampada. A solidariedade é um sentimento presente. Não só das pessoas que as abordam, contribuindo para que a sua luta continue,mas também das próprias, com mensagens de força para várias lutas como a da televisão pública fechada pelo Governo NovaDemocracia/PASOK, para reabrir um novo canal que essencialmente reproduz as notícias do Ministério das Finanças.

Solidariedade com a ERT.

Não foi uma conversa fácil: nenhuma fala inglês, portanto contámos com o apoio de companheiros gregos para servir de tradutores. Fizemos uma entrevista de 6 minutos, a qual não conseguimos perceber o que foi dito porque não houve tempo ainda para uma tradução. Relevante é dizer que não conseguimos acabar a entrevista. Ficámos pelos 6 minutos porque a Anna-Maria, a chorar, pediu-nos desculpa, mas não conseguia continuar. O que percebemos: para estas trabalhadoras não há nenhuma ilusão. Sabem que estão na típica situação de quem é demasiado novo para reforma e demasiado velho para arranjar um novo emprego (quase todas têm mais de 50 anos). Para elas, o seu futuro depende do Syriza ganhar e cumprir.

Entrevista à Anna-Maria.


Afto Dinamia

As sondagens que têm vindo a sair,confirmam a vantagem do Syriza sobre a Nova Democracia e algumas dão indicação de ser possível passar a barreira dos 150 eleitos e eleitas (o Parlamento Grego elege 300 deputados e deputadas).

É visível, não só no contacto com activistas do Syriza, mas na conversa com as várias pessoas curiosas com o “estranho idioma”, que muito do medo, especialmente imposto ao longo dos últimos dois anos, desapareceu, e os gregos e gregas estão preparadas para um Governo de esquerda que diz, tão simplesmente, que ninguém pode ser deixado para trás, que não é aceitável nem negociável não ser possível haver dignidade e condições básicas de vida na Grécia.

A confiança na capacidade do Syriza mudar radicalmente a Grécia é contagiante, assim como a frieza da percepção das dificuldades e dos obstáculos pela frente é brutalmente frontal. Entre muitas palavras imperceptíveis para os não muito versados em grego aparecem, por vezes, estas “Afto Dinamia”. Maioria absoluta. Falta uma semana.

ESQUERDA.NET | A luta das trabalhadoras de limpeza na Grécia

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