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Tsipras: "É o povo grego que vai abolir o memorando com o seu voto"

Nesta entrevista ao semanário Real News, Alexis Tsipras mostra-se confiante numa maioria absoluta e critica o primeiro-ministro por fugir aos debates.
Alexis Tsipras quer "um mandato para mudar tudo o que nos conduziu à crise". Foto do diário Avgi

Se o seu partido for o mais votado em 25 de Janeiro mas não tiver a maioria absoluta que ambiciona, em que circunstâncias consideraria a eventualidade de novas eleições?


O SYRIZA reivindica hoje um mandato popular inequívoco para negociar duramente com os parceiros a viabilidade da dívida, mas tendo também em vista a salvação social. E um mandato inequívoco significa uma maioria parlamentar clara, para podermos negociar todos os pontos cruciais sem estarmos de mãos amarradas. Pedimos ao povo grego que nos dê um mandato forte para que o Memorando não se transforme no regime permanente de destruição do país. Para que não sejam aplicados os compromissos do Governo actual, que figuram no e-mail de Samarás à troika. Para que não haja um novo Memorando de austeridade. Com esta base, procuraremos acordos políticos mais amplos sobre a formação de um Governo. Acredito, no entanto, que o povo grego nos dará a maioria absoluta por outra razão, ou seja, porque compreende que o país precisa de um Governo forte e estável, de grande fôlego.

Aceitaria formar um Governo minoritário com um voto de confiança?

O nosso povo não vai dar uma meia oportunidade ao SYRIZA. Vai dar-lha toda. Em 26 de Janeiro o SYRIZA, e também o nosso povo, bastar-se-ão a si próprios.

Não vamos discutir algo que ponha em questão a política de reconstrução de que precisa a sociedade grega. Discutiremos tudo que faça avançar de maneira significativa  — sublinho a palavra — a estratégia que expus anteriormente. Mas acho que você está com pressa. O nosso povo não vai dar uma meia oportunidade ao SYRIZA. Vai dar-lha toda. Em 26 de Janeiro o SYRIZA, e também o nosso povo, bastar-se-ão a si próprios.

Admite cooperar com o PASOK de Evangelos Venizelos, com o partido de Papandreou e com o Potami de Stavros Theodorakis?


Temos dito repetidamente, da maneira mais clara, que de modo nenhum cooperaremos com forças que apoiam a actual política catastrófica. Uma tal cooperação a nível do Governo, além da questão óbvia da credibilidade, criaria dificuldades objectivas à execução do programa do SYRIZA, que tem em vista libertar a Grécia da funesta política de austeridade.

Que características terá o Governo de salvação nacional que vier a formar se ganhar as eleições? Gostaria que me falasse um pouco das pessoas que escolherá …


Pode ter a certeza de que o Governo que emergir da vitória eleitoral do SYRIZA será concebido de maneira a servir a concretização do nosso programa, ou seja, enfrentar a crise humanitária e relançar a economia real, como dissemos no nosso “Programa de Salónica”, realizar as negociações que são decisivas com os nossos parceiros, proceder à reconstrução da produção com critérios sociais e económicos. Será o Governo de todos os gregos. E não o Governo dum partido. E serão escolhidos os mais competentes e os mais honestos para gerir o destino do povo grego. As famílias e os colegas de curso acabaram. Quanto ao resto, ver-se-á no momento próprio.

O Presidente da República que irá propor, se ganhar as eleições, virá da esquerda? Ou discute a possibilidade de votar no candidato proposto por  outra família política?


Antes da eleição presidencial, tínhamos proposto que as forças políticas chegassem a acordo sobre o perfil do Presidente, que o país realizasse eleições imediatamente e que em seguida se procedesse à eleição da pessoa sobre a qual se tivesse chegado a acordo. Fizemo-lo porque queremos que o Presidente da República seja uma pessoa de prestígio, com a mais ampla aceitação e não se mova apenas dentro dos limites estreitos dum partido. A nossa lógica não muda. A cor política do Presidente não é importante, mas sim o seu prestígio na sociedade para melhor servir o seu papel institucional. A nossa lógica não muda, é sempre a mesma. Naturalmente, o consenso está nas mãos das outras forças políticas. Nós deixamos claro que a pessoa do Presidente não está associada à nossa estratégia política, mas ao prestígio da instituição.

Por que alertam constantemente o Governo para não destruir os e-mails da troika? Há quem pense que quer utilizá-los contra os seus adversários políticos ...

Os que hoje se arrepelam todos com a continuidade do Estado devem dizer agora o que querem com isso. Todas as informações e todos os dados devem ser transmitidos normalmente ao próximo Governo, esta é a regra da democracia.  A menos que tenham algo a esconder. Tanta preocupação com esta questão é suspeita. Na minha opinião, no entanto, a destruição e a dissimulação de provas, seja em que domínio for, não serão suficientes para que a verdade não venha ao de cima.

Por que insiste em debates, se o primeiro-ministro os recusa?


A coisa mais natural em democracia é o diálogo político aberto, a franca confrontação de posições e programas. Especialmente quando se trata de eleições. Com a recusa do diálogo e as desculpas manhosas que alega, o Sr. Samarás revela-se politicamente. Revela a sua incapacidade em defender tanto a política do seu Governo como  qualquer programa do seu partido.

A sua pergunta surpreende-me. A coisa mais natural em democracia é o diálogo político aberto, a franca confrontação de posições e programas. Especialmente quando se trata de eleições. Com a recusa do diálogo e as desculpas manhosas que alega, o Sr. Samarás revela-se politicamente. Revela a sua incapacidade em defender tanto a política do seu Governo como  qualquer programa do seu partido. E então prefere a guerra de trincheiras, mobilizando toda a lama e todo o populismo ao seu alcance, fazendo regredir o debate político na Grécia para níveis que pertenciam ao passado. Isso, claro, é problema dele, e os cidadãos fá-lo-ão pagar nas urnas. Insistimos, porque acreditamos que os cidadãos devem poder julgar com um espírito esclarecido, escutar argumentos políticos, em vez de gritos. Não se esconda em salas escuras a recitar monólogos alarmistas, Sr. Samarás! Mostre-se à luz dos projectores, face a face, com argumentos. Como quiser, quando quiser, com quem quiser. Até mesmo nessa coisa mal amanhada que é a NERIT. [A nova empresa estatal de rádio, televisão e internet, criada em 2013, que substituiu a ERT, clamorosamente extinta pelo Governo de Samarás um ano antes]

Se formar Governo, pedirá a prorrogação de dois meses do Memorando que Atenas solicitou aos credores?

Esse problema não se põe. Gostaria de lembrar que, após as eleições de 2012, realizadas com a faca no pescoço dos cidadãos “porque a Grécia deve tomar a dose”, a “dose” foi adiada sete meses, sem qualquer facilidade, e sem causar qualquer efeito no que se refere ao crédito. Além disso é mais para efeitos de propaganda do que para ter um significado prático. O Sr. Samarás pediu-a e pode aplicá-la, se for reeleito. Aparentemente, conta com dois meses para apresentar no Parlamento o e-mail infame com as novas medidas. Tal não vai acontecer, claro, sobretudo com um governo que se proponha levar a cabo verdadeiras negociações. Nem como propaganda funciona. Na Europa, começaram já a falar, mesmo antes de votarmos, no tempo necessário a dar ao novo governo para as negociações.

E as obrigações que se vencem em Março vai pagá-las?

A maturidade das obrigações até Março diz respeito principalmente ao FMI, e, em segundo lugar, aos privados. Trata-se de pequenos montantes e tencionamos pagar normalmente. Seja como for, mesmo que o novo acordo esteja em andamento, a Grécia, como qualquer Estado, dispõe de diferentes ferramentas para aumentar a liquidez a curto prazo. Vamos fazer algo original, mas recorreremos às mesmas ferramentas que têm sido utilizadas nos últimos anos.


A abolição do Memorando será o primeiro acto do seu Governo, logo a seguir às eleições? Como? Escreve aos credores?


A abolição do Memorando será o povo grego que a fará com o seu voto em 25 de Janeiro. Enterrá-lo-á nas profundezas dos entrepostos da história. O novo Governo do SYRIZA anunciará o seu programa de Governo e implementará o Plano de Reconstrução Nacional, como determinado tanto em Salónica como na nossa Conferência Permanente na semana passada. Ao mesmo tempo e independentemente da implementação do nosso programa, renegociaremos os contratos de empréstimo, reivindicando um acordo europeu em matéria de dívida e de desenvolvimento para a Europa no seu conjunto. E quanto à carta aos credores, vejamos, meu caro Skouris, não vou ser eu a mandá-la, mas o povo, na noite das eleições.

Todas as soluções que negociar serão dentro do euro? E em que circunstâncias considera a organização dum referendo para as aprovar?


O único que fala da possibilidade duma Grexit é o Sr. Samarás, que é desmentido categoricamente todos os dias por altos funcionários europeus, incluindo o Sr. Draghi e a Sra. Braintcharnt, a representante da Comissão Europeia. Ficou desesperadamente sozinho, a arrastar os pés como um zombie.

É agora claro, de todos os pontos de vista, que a saída da Grécia do euro não se põe. Este alarmismo dominou 2012, mas foi rejeitado inclusive pela própria Sra. Merkel. E cito-lhe a declaração que ela fez em Dezembro de 2013: “Se a Grécia abandonasse o euro, então todos os membros da União Monetária poderiam vir a fazer o mesmo no futuro.” Hoje, o clima é bem diferente. O único que fala da possibilidade duma Grexit é o Sr. Samarás, que é desmentido categoricamente todos os dias por altos funcionários europeus, incluindo o Sr. Draghi e a Sra. Braintcharnt, a representante da Comissão Europeia. Ficou desesperadamente sozinho, a arrastar os pés como um zombie. A Grécia vai continuar no euro e liderará a luta contra a política de austeridade, que desmantela a Europa, reforça a extrema-direita e mergulha a economia europeia na recessão.

Quais serão as primeiras medidas do seu Governo?


Gostaria de lembrar que o programa de Salónica tem como prioridade a luta contra a crise humanitária, a reposição do décimo terceiro mês aos reformados, a reposição do salário mínimo de 751 €. Medidas de relançamento da economia, de regularização da dívida pública e dos fundos de pensões, bem como medidas para fazer face ao enorme problema social que é o desemprego. Ao mesmo tempo, poremos em prática reformas radicais do Estado e da função pública.

A nossa vitória constituirá um ponto de viragem no caminho seguido no pós-ditadura. O mandato do povo não é só um mandato para negociar, mas também para realizar mudanças radicais. Será um mandato para mudar tudo o que nos conduziu à crise: o clientelismo, o favoritismo, o nepotismo, a promiscuidade. Enfrentar-nos-emos com tudo isso logo a partir do primeiro dia.

Se tivermos força e a vontade do nosso povo é que não regressemos a 2009, mas que reconstruamos o nosso país sobre novas e sólidas fundações de justiça, dignidade e prosperidade.

Sr. Tsipras, é verdade que se for primeiro-ministro, o veremos ... de gravata?


Se até agora não me viu, acho pouco provável.


Entrevista de Vasilis Skouris para o semanário Real News. Tradução de Carlos Leite para o esquerda.net.

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