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Mas afinal quem é o Charlie?

O Charlie são os jornalistas que lutam pelo direito à informação muitos morrendo nesta tarefa tão nobre. O Charlie são aqueles que lutam contra a ideologia do ódio propagada pelos dirigentes da reação. O Charlie são a Chelsea Manning, o Snowden e o Assange. Artigo de Tomás Nunes.

No dia 7 de Janeiro dois homens armados entraram no jornal Charlie Hebdo e mataram 12 pessoas, alguns eram cartoonistas importantes outros assalariados do jornal e polícias. Nesse dia a Europa entrou em choque, um ataque no centro de Paris em pleno dia.

O intuito deste ato ignóbil não se resume à morte de 12 pessoas, comporta também um ataque acérrimo contra a liberdade de expressão, um dos pilares da democracia. No mesmo dia várias demonstrações de solidariedade, a nível internacional, irromperam em nome da democracia e daqueles que morreram por exercer a liberdade de expressão. “Je suis Charlie” diziam os cartazes que enchiam a praças, canetas erguidas no ar como símbolo de resistência. Somos todos os Charlie.

Não tardou e já várias personalidades políticas faziam os seus comunicados oficias, onde aclamavam pelo zelo da liberdade de expressão, manutenção da segurança pública, combate contra o fanatismo religioso,etc. Uma oportunidade surgiu para que muitas figuras se pretendessem como defensores da liberdade e dos nossos direitos. François Hollande aproveitou para dizer que a França deve manter-se unida em prol da liberdade1. Le Pen apelava a uma união nacionalista para que se evitasse atos como estes. Numa entrevista à France 2 Le Pen disse: “ […] os islamitas abriram guerra contra França […] ” e mais tarde, admitiu a hipótese de criar um referendo para que se implementasse a pena de morte, apelando ao espírito xenofóbico e violento que tem marcado a atitude política da Frente Nacional2. Sarkozy não excitou e aproveitou para apelar à união em defesa dos direitos civis, enfim como todos invocou, a suposta tradição francesa da liberdade e fraternidade3. Muitos outros dirigentes políticos também contribuíram com apelos e comunicados: Obama, Rajoy, Netanyahu, Samaras,etc.

Mas que liberdade é essa que tantos falam? Será a mesma liberdade que proíbe manifestações pró-Palestina em França4? Será a mesma liberdade com que se proíbe o funeral de uma criança falecida, devido à sua origem5? A liberdade de expulsar ciganos da França? A Liberdade de rasgar os céus do Médio Oriente com drones, matando milhares de inocentes? A liberdade de proibir manifestações civis através da Lei Mordaça? A Liberdade de enclausurar o povo Palestiniano enquanto crianças e adultos tornam-se mártires de um regime assassino?

Não é esta a liberdade que defendemos. Estas são as ações daqueles que desrespeitam os direitos humanos e civis, estas são as ações de uma classe dirigente que não tem escrúpulos e aproveita qualquer situação para legitimar atos ignóbeis que se multiplicam todos os dias. Mas final quem é o Charlie?

No dia 8 ocorreram vários ataques contra a comunidade muçulmana6, pessoas inocentes foram visadas como alvos de um sentimento latente que perdura na Europa, a xenofobia e o racismo. Os reacionários não perderam tempo e fizeram aquilo que todos nós temíamos, aproveitaram o ocorrido para almejar pessoas inocentes vítimas de uma perseguição violenta. A resposta a um ato de violência foram mais atos de violência, aqueles que propagam o medo nas minorias valem tanto quanto os responsáveis pelo ataque ao jornal. Serão os responsáveis por estes ataques o Charlie?

Quem é o Charlie? O Charlie são os jornalistas que lutam pelo direito à informação muitos morrendo nesta tarefa tão nobre. O Charlie são as pessoas que se manifestaram em França e em Espanha7, apesar das proibições. O Charlie são aqueles que lutam contra a ideologia do ódio propagada pelos dirigentes da reação. O Charlie são a Chelsea Manning, o Snowden e o Assange. Charlie são as crianças palestinianas que ousam brincar na rua apesar, da constante ameaça Israelita. Nós que lutamos verdadeiramente pela liberdade, somos o Charlie e como podemos ver, isso comporta muita responsabilidade e ousadia, ousemos ser o Charlie.

Artigo de Tomás Nunes, estudante de medicina.


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