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33 razões por que Atenas (e a Grécia) ainda está em depressão profunda

Neste artigo publicado no blogue Histologion, Mihalis Panagiotakis apresenta os dados concretos dos efeitos da austeridade na vida do povo grego, que se refletiram na capital do país.
Atenas, 2013. Foto Niels Linneberg/Flickr

Ontem à noite li um artigo que me perturbou bastante. Anunciava a apresentação das “33 razões por que Atenas é a próxima moda”. Algumas dessas “razões” são pré-existentes e/ou permanentes (a comida, as vistas, etc), algumas são duvidosas (Atenas é barata? Não para a maioria dos seus habitantes: é provavelmente a cidade mais cara da Europa comparada com a média do poder de compra). Algumas são enganadoras e datadas (desde que me consigo lembrar, Atenas tem hoje muito menos vida noturna). Algumas são falsas (Atenas já não é descontraída a menos que se seja desempregado ou rico. Entre estes dois, toda a gente está literalmente a correr pela vida).

Isto são relações públicas, talvez parte de alguma estratégia de marketing. Mas não é inofensivo e cria uma falsa imagem de sucesso que é 100% inexistente. Quem não vive neste país pode ser levado a acreditar que está tudo bem, que a austeridade até acabou por funcionar. Mas não funcionou: as coisas ainda têm de mudar drasticamente, e não só na Grécia…

Enquanto ateniense, o que me incomoda mesmo é esta imagem que é projetada pelo nosso governo (de extrema-direita, super-corrupto) de uma cidade e um país que está “a sair da crise”, um país que “conseguiu recompor-se e a sua capital nunca esteve tão cheia de vida”. Não se recompôs, as coisas estão provavelmente pior do que alguma vez estiveram para a maioria dos trabalhadores e desempregados gregos e Atenas é uma cidade em depressão profunda (comparada à sua vivacidade quase maníaca do passado). As únicas pessoas que podem ver Atenas através desta lente cor-de-rosa ou são visitantes estrangeiros soltos, partindo do princípio que evitam as zonas mais degradadas da cidade e que nunca estiveram antes em Atenas; e os gregos prósperos, os “vencedores” desta crise, os que projetam o seu conforto pessoal à cidade no seu todo. São estas pessoas, o 1% dos verdadeiros vitoriosos e os 10-30% dos “sobreviventes da crise” que formam a espinha dorsal dos partidos “pró-austeridade”. Eles desenvolveram uma habilidade fascinante de tapar os olhos à crise humanitária persistente que o país e a cidade estão a sofrer, cinicamente indiferentes em relação à massa de “perdedores”, inumanos no seu desdém pela gente comum. A última imagem do artigo, de uma mulher em Kifissia, um dos bairros residenciais mais chiques na periferia de  Atenas, é bem reveladora. Os habitantes de Kifissia estão realmente bem posicionados para não perceber o desastre que se abateu e ainda ocorre no país. A Atenas ali descrita é a Atenas deles.

Deixem-me por isso apresentar agora as 33 razões por que esta propaganda é simplesmente orwelliana:

(1) Se projetarmos os números da pobreza na Grécia como um todo a Atenas, considerando uma população de 4 milhões, podemos calcular que a cidade tem cerca de um milhão de pessoas abaixo do limiar da pobreza, incluindo (2) um número recorde de crianças, mais que em qualquer outro país da OCDE. Uma projeção semelhante (3) mostra-nos que outro milhão e meio estão em risco de pobreza, já que ao todo dois terços do país estão perto ou abaixo do limiar da pobreza.

(4) A população sem-abrigo está por todo o lado numa cidade que praticamente não conhecia este fenómeno até 2010.

(5) Centenas de milhares de pessoas não têm acesso aos mais básicos cuidados de saúde, uma vez que (6) o sistema nacional de saúde se desfaz sob o peso da austeridade.

(7) Cerca de um milhão de atenienses não têm trabalho e (8) o desemprego jovem no país está acima dos 50%. (9) Os apoios aos desempregados são escassos, duram um ano e depois disso as pessoas (10) são deixadas à sua sorte.

Para os que trabalham, os salários (em especial para os jovens mas também para os outros) têm caído (11) contínua e vertiginosamente, muitas vezes para baixo do nível de subsistência. Na verdade, a maior parte dos empregos existentes são naquele tipo de bares que o artigo nos mostra, e nas tarefas menos qualificadas, a pagar 200-500 euros, normalmente sem proteção social. Os gregos estão em média 40% mais pobres do que quando a crise começou e continuam a empobrecer… Claro que isto leva a (12) níveis de desigualdade (bem patentes em Atenas para quem quiser andar um bocado) nunca vistos pelo menos desde os anos 1950, ao ponto de até o sanguinário FMI achar que se deve fazer alguma coisa quanto a isso. O desastre afetou (13) a igualdade de género, que também está em queda acentuada.

Ao mesmo tempo que os rendimentos colapsam, (14) os gregos (da classe média e baixa em particular) são os cidadãos mais taxados da Europa. Frequentemente os gregos literalmente estão mortos por pagar impostos… É sem surpresa que a Grécia (15) fica em último lugar nos rankings da Justiça Social na UE.

(16) Houve um êxodo migratório dos melhores e mais brilhantes, reduzindo o tamanho da (17) juventude ateniense, já em queda natural.

(18) A presença da polícia em Atenas é tão densa que faz lembrar a ditadura militar, enquanto ao mesmo tempo os mesmos polícias - cerca de (19) metade dos quais votam no partido nazi Aurora Dourada - estão (20) infiltrados por nazis e em (21) cumplicidade com eles, tendo (22) atacado repetidamente qualquer pessoa (turistas incluídos) que pareça “suspeita de ser estrangeira”, ou não se vista como deve ser, ou (23) esteja a combater os nazis. Os imigrantes sem papéis são (24) tratados pior que animais. A brutalidade policial está tão fora de controlo que a maioria dos gregos teme vir a ser torturada se estiver sob custódia policial. Os nazis (e 16% dos eleitores do município de Atenas votaram no candidato nazi) são (25) ainda uma ameaça, apesar dos seus dirigentes estarem agora a ser julgados, isto porque têm um OK implícito por parte da polícia para atacarem quem querem, o que inclui, por exemplo, casais do mesmo sexo (houve uma série de ataques este verão) e minorias religiosas. A própria polícia é muitas vezes ostensivamente homofóbica.

Na linha do estilo autoritário de governar, aqui há uns anos o ministro da saúde (26) publicou fotografias, dados pessoais e os nomes de 31 mulheres com HIV positivo em Atenas, acusadas de prostituição.

(27) Também temos uma epidemia de toxicodependência a todo o vapor, apresentando, entre outras substâncias, uma variedade local de metanfetaminas. E, claro, (28) a prostituição floresce.

Em geral, os gregos estão tão felizes (29) que se estão a matar em números nunca vistos num país com baixas taxas de suicídio. A área metropolitana de Atenas lidera o país nesta trágica estatística. O mesmo acontece no que respeita (30) às doenças mentais que aumentaram rapidamente nos últimos anos, enquanto ao mesmo tempo (31) a infraestrutura psiquiátrica está a colapsar. Isso já é bem evidente nas ruas de Atenas.

Os atenienses, como todos os gregos estão portanto (32) profundamente pessimistas quanto ao futuro. E também têm (33) o mais baixo nível de satisfação com a vida da OCDE.

Esta lista podia ir bem para além dos 33. A única forma de Atenas poder voltar a algum tipo de normalidade europeia é se os seus cidadãos se revoltarem contra as políticas criminosas de austeridade que a estão a matar. Caso contrário, o novo normal será o de uma cidade desmoralizada do Terceiro Mundo.


Mihalis Panagiotakis é jornalista, blogger veterano em inglês e grego, membro do Syriza e webmaster do diário Avgi. Publicado no blogue Histologion. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net

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