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Rosetta investigará a origem dos oceanos na Terra

A sonda Rosetta da Agência Espacial Europeia (ESA) descobriu que o vapor de água do cometa que está a estudar, o 67P/Churyumov–Gerasimenko, é significativamente diferente daquele encontrado na Terra. A descoberta reacende o debate acerca das origens dos oceanos no nosso Planeta. Artigo de Daniel Scuka.
Foto: ESA/ROSETTA/NAVCAM

As medições foram feitas no mês que se seguiu à chegada da nave a esse cometa, o que teve lugar a 6 de agosto. Este é um dos resultados mais esperados da missão, já que a origem da água na Terra ainda é uma questão em aberto.

Uma das hipóteses para a formação da Terra postula que ela estava tão quente quando se formou, há 4,6 mil milhões de anos, que qualquer água que existisse ter-se-ia evaporado. Mas, hoje, dois terços da superfície da Terra estão cobertos de água.

De onde veio essa água? Ela deve ter sido “entregue” após a Terra ter arrefecido, muito provavelmente depois de colisões com cometas e asteróides. A contribuição relativa de cada classe de objetos no fornecimento de água ainda está em discussão.

A chave para determinar as origens da água está no seu “sabor”, neste caso, a proporção de deutério – uma forma de hidrogénio com um neutrão extra – em relação ao hidrogénio normal. Essa proporção é um indicador importante da formação e evolução do Sistema Solar, com as simulações teóricas a mostrar que esta deve ter mudado com a distância do Sol e com o tempo, nos primeiros milhões de anos. Um dos principais objetivos é comparar os valores entre diferentes objetos cósmicos com os medidos nos oceanos terrestres, por forma a determinar quanto de cada um deles pode ter contribuído para a água na Terra.

Os cometas, em particular, são peças-chave no estudo do Sistema Solar primitivo: contêm material que sobrou do disco protoplanetário, a partir dos quais os planetas se formaram, e por isso deverão refletir a composição primordial dos seus locais de origem. Mas, graças à dinâmica do Sistema Solar primitivo, este não é um processo simples. Os cometas de período longo, que vêm da distante nuvem de Oort, formaram-se na região de Urano-Neptuno, a uma distância suficiente do Sol para que a água gelada pudesse sobreviver.

Espalhando-se depois pelo Sistema Solar, como resultado das interações gravitacionais com os planetas gigantes gasosos, à medida que estes estabilizavam nas suas órbitas. Já em relação aos cometas da família de Júpiter, como o cometa de destino da missão Rosetta, acredita-se que se formaram no Cinturão de Kuiper, muito além de Neptuno.

Ocasionalmente, estes corpos são desviados e enviados na direção do Sistema Solar interior, onde as suas órbitas passam a ser controladas pela influência gravitacional de Júpiter. De facto, o cometa da Rosetta viaja agora em volta do Sol, entre as órbitas da Terra e Marte, no ponto mais próximo, e um pouco além de Júpiter, no ponto mais afastado, com um período de 5 anos.

Medições anteriores da relação entre deutério/hidrogénio em outros cometas mostraram uma ampla margem de valores. Dos 11 cometas nos quais foram feitas medições, só o 103P/Hartley 2, da família de Júpiter, apresenta uma relação compatível com a composição da água na Terra, em observações feitas pela sonda Herschel, em 2011. Por outro lado, os meteoritos, vindos do Cinturão de Kuiper, também coincidem com a composição da água na Terra. Apesar dos asteróides terem menos água, o impacto de uma grande quantidade deles poderia ter resultado na água dos oceanos terrestres.

É neste cenário que as investigações da Rosetta são importantes. O rácio entre o deutério e o hidrogénio medido pelo espectrómetro “Rosina” (Rosetta Orbiter Spectrometer for Ion and Neutral Analysis), da Rosetta, é mais de 3 vezes maior que o dos oceanos na Terra e que o do cometa Hartley 2. Aliás, é mais elevado que o de qualquer outro cometa da nuvem de Oort. “Esta surpreendente descoberta poderá indicar uma origem diferente para os cometas da família de Júpiter – é possível que se tenham formado numa área maior do Sistema Solar do que se pensava anteriormente. A nossa descoberta também exclui a hipótese de que os cometas da família de Júpiter contenham apenas água semelhante à dos oceanos da Terra, e dá força aos modelos que apresentam os asteróides como a origem preferencial para a água dos oceanos terrestres”, disse Kathrin Altwegg, investigadora principal para o Rosina.

“Nós sabíamos que os resultados da análise in situ do cometa seriam sempre uma surpresa para a ciência do Sistema Solar e esta extraordinária observação vem com certeza reacender o debate sobre as origens da água na Terra. Enquanto a nave Rosetta continuar a acompanhar o cometa na sua órbita à volta do Sol, durante o próximo ano, estaremos a analisar como evolui e como se comporta, o que nos dará uma visão única acerca do misterioso mundo dos cometas e a sua contribuição para a nossa compreensão da evolução do Sistema Solar”, comentou Matt Taylor, cientista do projeto da Agência Espacial Europeia.

Daniel Scuka é jornalista, Editor de Operações Espaciais da ESA. 

** Publicado originalmente na edição de dezembro da Eco21 e reproduzido pelo Envolverde http://envolverde.com.br/ambiente/rosetta-pesquisara-origem-dos-oceanos-...

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