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O dia em que o INE ofereceu um bolo-rei a Cavaco Silva

Cinco membros da família Espírito Santo e três administradores do grupo garantiram 152 mil euros à campanha presidencial vitoriosa de Cavaco Silva. A dose seria repetida cinco anos mais tarde. Já em plena crise no BES, Cavaco retribuiu com duas aparições na pele de chefe supremo da nação.

Já conhecemos a trilha iluminada pela estrela de Belém. No ano inaugural da primeira maioria absoluta em Portugal, Miguel Horta e Costa era já um respeitável Secretário de Estado do Comércio Externo, estabelecendo as pontes com a banca europeia, tão necessárias ao primeiro-Ministro Cavaco Silva na empreitada de privatizar o sector financeiro português. O lugar que ocuparia logo depois (1990) na presidência do BES Investimento valeria uma união familiar, com o seu primo, Luís Horta e Costa, a juntar-se à Espírito Santo Agriculture. Daí para a Escom (BES) foi um salto.

Em 1996, a empresa criava o departamento das contrapartidas em negócios aéreos e portuários. Oito longos anos separavam ainda os Horta e Costa dos milhões submergidos no caso dos submarinos de Paulo Portas. Nesse mesmo ano, Cavaco retirava-se de cena, silencioso e mastigando um bolo-rei que ficaria como a lembrança amarga de umas presidenciais perdidas.

O retorno demorou uma década. Cinco membros da família Espírito Santo e três administradores do grupo garantiram 152 mil euros à campanha presidencial vitoriosa de Cavaco Silva. A dose seria repetida cinco anos mais tarde. Chegados ao presente, já em plena crise no BES, Cavaco retribuiu com duas aparições na pele de chefe supremo da nação.

A primeira foi a 21 de julho de 2014, duas semanas antes do Conselho de Ministros votar a alteração legal para o resgate do BES - "Os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa.". As ações do BES continuaram a ser transacionadas na bolsa portuguesa, com a hecatombe final que conhecemos.

Já em setembro, o Presidente voltou à carga. Contrariando, em parte, até o próprio governo, Cavaco fez questão de afastar perigos indiretos para os contribuintes da venda futura do Novo Banco (via CGD). O argumento era que o dispêndio público em tudo se assemelhava a uma operação comercial corrente, com os riscos habituais que daí advêm.

Acontece que não é assim. Tal como esclareceu o INE nesta terça, qualquer prejuízo na venda futura do Novo Banco resultará num agravar do défice orçamental, o que trará condições agravantes óbvias no financiamento da economia portuguesa, ou seja, um custo coletivo criado pela ação da família Espírito Santo, que reflete, de resto, o comportamento da banca portuguesa nos últimos anos.

Até ver, não haverá resposta de Cavaco Silva desta vez. Nesta época natalícia, é como se a kryptonita cristalizada voltasse a atacar o super-herói da direita portuguesa, obrigado a mastigar calado perante a realidade que se impõe: os vendilhões do tempo permanecem e o dízimo será pago por todos.

Artigo publicado no blogue Inflexão

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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