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Conheça o seu predador de estimação

Observador atento da evolução do seu país, Pepetela tem retratado as contradições da sociedade angolana e, num dos seus livros, “Predadores”, apresenta-nos um personagem da burguesia ascendente: Vladimiro Caposso. Por Francisco Louçã.
Numa entrevista sobre o seu livro (“Predadores”), Pepetela explica a comparação entre a acumulação primitiva do capitalismo europeu e a acumulação angolana

O escritor angolano Pepetela, que combateu na guerra anti-colonial e depois participou em governos pós-independência, é hoje um dos grandes escritores de língua portuguesa, galardoado com o Prémio Camões. Observador atento da evolução do seu país, tem retratado as contradições da sociedade angolana e, num dos seus livros, “Predadores” (2005, Lisboa: D. Quixote), apresenta-nos um personagem da burguesia ascendente: Vladimiro Caposso. Vladimiro nasceu José e era filho de um enfermeiro, numa família remediada de Calulo. Veio para a cidade, fez-se membro do MPLA, firmou-se na hierarquia e mudou de nome para Vladimiro, uma corruptela de Vladimir (Lenine), para agradar aos seus chefes e demonstrar empenho. É um homem que, subindo na vida, não hesita perante nada: assassina a amante, engana os seus conterrâneos, desvia o curso de um rio para promover um projeto imobiliário, compra favores, alia-se a financeiros estrangeiros, que aliás o enganam, enriquece.

Diz dele Pepetela, numa entrevista à União de Escritores Angolanos: “[este livro] é a tentativa de um retrato de uma parte da sociedade angolana. Particularmente, da emergência de uma nova burguesia muito rica e muito inculta que começa a dominar o país… O protagonista é Vladimiro Caposso (VC ou Vitória Certa). É alguém que vai subindo pelo aparelho de Estado, vai enriquecendo, torna-se um empresário de sucesso que é, depois, engolido pelos estrangeiros. Um caso paradigmático”.

Vladimiro é um exemplo do enriquecimento a partir da carreira política. Numa entrevista sobre o seu livro, Pepetela explica a comparação entre a acumulação primitiva do capitalismo europeu e a acumulação angolana. O entrevistador pergunta-lhe: “A metáfora dos “Predadores” traz à tona uma significação onde a sobrevivência cabe aos mais aptos ou aos mais trapaceiros. Onde os velhos predadores são apenas substituídos por outros mais hábeis. É esse o sistema que rege Angola?”.

Responde Pepetela: “É um processo já antigo, que muitos chamam de fase inicial do capitalismo ou, como Marx, a acumulação primitiva do capital. Em cada sociedade e em cada época terá facetas particulares. Mas as fases e processos essenciais são idênticos. Em Angola se passa o que aconteceu na Inglaterra antes da Revolução Industrial, em França a partir do século XVII, hoje na China, na Rússia, etc.” E o escritor acrescenta: “Os predadores começam por extorquir as terras e rendas dos camponeses, o elo mais frágil, logo depois as riquezas de outros povos. No nosso caso, como nas sociedades da China, Rússia e demais africanas, o espoliado primeiro é o Estado, pois só ele tem as riquezas cobiçadas. Depois vem o resto” (blogue Língua Solta, 30.7.2012). O resto é o povo.

Em Predadores, o protagonista é precisamente uma das figuras em ascensão no partido, na governação e nos investimentos estrangeiros, que assegura o seu poder através da violência, da extorsão e da subserviência sem escrúpulos.

Pepetela já tinha tratado o mesmo tema sob a forma de romance policial humorístico, Jaime Bunda e a Morte do Americano (2003, Lisboa: D. Quixote), onde prossegue as aventuras de um polícia e agente secreto com “invulgar traseiro e invejável apetite”, desta vez a braços com o assassinato de um norte-americano em Benguela, e pressionado pelo Bunker, onde mora o chefe, para descobrir depressa um culpado. A polícia, ciente das ordens, prende imediatamente um culpado errado, até Bunda encontrar a verdade sobre o crime, pelo que é muito felicitado, embora o anterior culpado tenha entretanto tido o desplante de morrer na prisão.

A burocracia, as ordens absurdas, as perseguições, o medo do embaixador, as conveniências do ministro, esse é o mundo de Bunda. E também a reflexão sobre o tema que encontramos com tanta frequência neste capítulo, a acumulação primitiva de capital, que Pepetela lembra frequentemente nos seus livros:

Este processo de enriquecimento não é novo. Na Europa…

- Já Proudhon explicou isso há quase duzentos anos – cortou Mané do Corinje – E disse que a propriedade é o roubo.

- Sim, concordou o poeta — Marx chamou a esse processo a acumulação primitiva do capital. Acumulação violenta feita às custas dos camponeses e trabalhadores europeus e dos povos colonizados que os europeus depenaram e escravizaram. Os nosso grandes ladrões não são pois originais. Isto tudo é conhecido, foi só para relembrar.

- E então a teoria? – perguntou Raul Dândi.

- Já lá chego. O que vos quero dizer é o seguinte. Esta nossa neo-burguesia vai chegar a um momento, e ele já não pode estar muito distante, em que começa a preocupar-se com as fortunas que sonegou. Roubou, acumulou, mas as fortunas estão lá fora, dormindo em bancos de paraísos fiscais, mas cada vez mais sujeitas a serem congeladas pelo movimento mundial contra a corrupção. O movimento ainda é tímido mas vai sendo fortalecido e se impondo a alguns governos, que começam a combater o branqueamento dos capitais e começam a exigir que os bancos revelem a origem das fortunas que guardam em nome de A ou B. Então os nossos novos-ricos começam a pensar, o melhor era essas fortunas serem legitimadas, ficarem independentes de qualquer poder político, para se tornarem eternas. Porque os nossos ricos não dormem descansados, têm medo de perder as fortunas. Basta uma mudança política no país e aparecer um governo que exija aos banqueiros internacionais uma nova postura. Eles não têm como justificar a riqueza, vai tudo para o esgoto. E também têm medo que continue o processo de rapina e serem eles próprios espoliados pelos neo-neo-burgueses, uma nova geração com mais estudos de gestão e mais voraz ainda.”

Pepetela volta sempre ao tema, que é uma constante na sua escrita. Em O Tímido e as Mulheres (2013, Lisboa: D. Quixote), um funcionário intermédio dedica-se ao pequeno tráfico e à corrupção discreta, o que lhe causa dissabores familiares, mas não o desvia do seu caminho:

Devia inventar um tratamento na Europa ou umas férias sem vencimento para abrir uma conta na Suíça, na moeda mais segura do mundo. As contas nas Caraíbas podiam ser muito proveitosas por causa dos juros elevados mas não eram imunes a inesperadas pressões governamentais. Os bancos suíços, pelo contrário, não vendiam segredos. Ou então, se o faziam, era para serviços poderosos investigando figurões muitíssimo ricos. Não era o seu caso, modesto funcionário, embora o acumulado em pequenas operações bastante rentáveis durante uns anos, desde que Rosa o deixou por causa das vias turvas usadas para conseguir o apartamento, desse bastante folga. Entretanto, os paraísos fiscais podiam se transformar em infernos com relativa facilidade. De facto não conhecia nenhum caso de conta nas Caraíbas aberta a pedido de um governo ou de uma polícia, mas também não pretendia possuir meios de o saber. Mesmo que tivesse havido, são notícias que não aparecem nos órgãos de comunicação. Estava pouco sossegado, portanto. Chegara a ocasião de ir à Suíça, abrir uma conta em francos lá do sítio e canalizar todo o dinheiro para o verdadeiro paraíso, soterrado pela neve das montanhas. Mesmo com juros baixos e a conta gotas, para não chamar a atenção.

A corrupção, em todo o lado, nestes retratos de Angola por Pepetela. Como se fosse o ar que se respira. Nem sempre na vertigem de Vladimiro Caposso, ou percorrendo as peripécias da carreira empresarial do general Kangamba, mas sempre na acumulação primitiva.

Como escrevia o Jornal de Angola em editorial, “os países ocidentais, inclusive Portugal, disseram aos angolanos que tinham de aderir à economia de mercado. Angola aderiu ao capitalismo (…) e cá estamos nessa via” (JA, 26.11.2012). Cá estamos nessa via. Ou, como escreve Mia Couto, “a maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos”.

Mas, diga-me, caro leitor ou leitora: quantos Vladimiro Caposso ficou a conhecer em Portugal, com o caso Espírito Santo, com os submarinos e quejandos?

Artigo de Francisco Louçã, publicado em blogues.publico.pt a 20 de dezembro de 2014

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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